Akimoto o aguardava na casa da aldeia que haviam alugado por um mês e comentou, rindo:
— Puxa, primo, peço que me desculpe. Não há necessidade de perguntar se conseguiu, mas parece tão engraçado nessas roupas... se os nossos camaradas shishi pudessem vê-lo agora...
Hiraga deu de ombros.
— Desse jeito posso passar pelos cules gai-jin, não importa de onde venham. Todos os tipos de gai-jin e cules se vestem assim na cidade dos bêbados. — Ele se ajeitou de uma forma mais confortável, com o escroto dolorido. — Não consigo entender como eles podem usar roupas tão pesadas, calças que dão cãibras e casacos apertados, durante todo o tempo... e quando faz calor, são horríveis, a gente sua como uma fonte.
Enquanto falava, ele examinava o Colt, avaliava o peso, mirava.
— É pesado.
— Saquê?
— Obrigado. Depois, acho que vou descansar até o pôr-do-sol.
Hiraga carregou o revólver, bebeu algum saquê e deitou, satisfeito consigo mesmo. Fechou os olhos, começou a meditar, Quando em paz, permitiu que a mente vagueasse. Pegou no sono num instante. Acordou ao pôr-do-sol. Akimoto continuava de guarda. Ele olhou pela pequena janela e murmurou:
— Não haverá tempestade nem chuva esta noite.
Pegou um lenço e amarrou-o em torno da cabeça, como vira os gai-jin de baixa classe e os marujos fazerem. Akimoto sentiu-se de repente invadido pelo medo.
— E agora?
— Agora — respondeu Hiraga, escondendo o revólver por baixo do cinto — vou à procura de Ori. Se eu não voltar, mate-o você.
A maioria dos aldeões nas ruas não o reconheceu, os poucos que perceberam fizeram uma reverência nervosa, como se ele fosse um gai-jin, não um samurai, conforme lhes ordenara. Em seus trajes europeus, para a maioria dos gai-jin ele seria apenas outro eurasiano ou um mercador chinês de Hong Kong, Xangai ou Manila, a qualidade das roupas e o porte indicando sua posição riqueza.
— Mas jamais esqueça, Nakama-san — advertira Tyrer, várias vezes — Por por mais rico que pareça, as roupas elegantes não vão protegê-lo de perseguiçõe e insultos da ralé, se for sozinho à cidade dos bêbados ou a qualquer outro lugar.
Na primeira vez em que saíra à procura de Ori, assim que ouvira o shoya revelar que o amigo desobedecera sua ordem, Hiraga entrara na cidade dos bêbados com as roupas fornecidas por Tyrer. Quase que no mesmo instante, fora acuado por um bando turbulento de bêbados, escarnecendo e insultando, logo partindo para a agressão. Só a sua habilidade no caratê, uma arte ainda desconhecida dos gai-jin pudera salvá-lo. Batera em retirada, furioso, deixando em sua esteira duas cabeças quebradas e mais um homem entrevado.
— Descubra imediatamente o lugar exato em que Ori se esconde! — dissera ele ao shoya. — Quero saber o que ele está fazendo e como vive!
Na noite seguinte, o shoya desenhara um mapa tosco.
— A casa é aqui, neste lado, de frente para o mar, perto de um cais. É uma casa para os bêbados dormirem, homens da mais baixa classe. Ori-san aluga um quarto, pagando o dobro, pelo que fui informado. Um lugar horrível, Hiraga-san, sempre cheio dos piores homens. Não pode ir lá sem um plano especial. É tão importante assim que ele seja mandado embora?
— É, sim. Sua aldeia corre risco com a permanência de Ori aqui.
— So ka!
Dois dias depois, o shoya avisara que a casa de Ori pegara fogo durante a noite e os corpos de três homens haviam sido encontrados nas ruínas.
— Pelo que me contaram, Hiraga-san, o “nativo” era um deles — arrematara o shoya, com evidente satisfação.
— Uma pena que toda aquela área não se incendiasse também, matando todos os gai-jin que vivem ali.
— Tem razão.
A vida voltara a ser calma. Hiraga continuara a passar bastante tempo com Tyrer, contente em aprender e ensinar, sem imaginar como seus conhecimentos eram importantes e informativos para Tyrer, Sir William e Jamie McFay. Durante a metade de um dia, estivera a bordo da fragata britânica, em companhia de Tyrer. A experiência o deixara abalado, e mais determinado do que nunca a descobrir como aqueles homens que desprezava eram capazes de inventar e fabricar máquinas e navios de guerra tão incríveis, como pessoas tão indignas, de uma terra mínima, menor que o Nipão — a se acreditar em Tyrer —, podiam ter adquirido a vasta riqueza necessária para possuir tantos navios, exércitos e fábricas, e ao mesmo tempo dominar todas as rotas marítimas e grande parte do mundo.
Naquela noite, ele se embriagara até a insensibilidade, a mente desorientada exultante num instante, no abismo no seguinte, sua crença na invencibilidade absoluta do bushido e da terra dos deuses profundamente abalada.
Passava a maioria das noites com Akimoto na Yoshiwara, ou na casas que ocupavam na aldeia, planejando e partilhando seus conhecimentos dos gai-jin, embora mantivesse em segredo a extensão de sua apreensão. Sempre, porém, reforçava a rede em torno de Tyrer, manipulando-o:
— Ah, sinto muito, Taira-san, contrato Fujiko levar muitas semanas, Raiko difícil de negociar, contrato caro, ela ter muitos clientes, muitos, sinto muito, ela ocupada esta noite, talvez amanhã...
Poucos mais de duas semanas antes, para fúria de Hiraga, o shoya descobrira que Ori não morrera no incêndio:
—... e sinto muito, Hiraga-san, mas fui informado que Ori se tornou rico de repente, gasta dinheiro como um daimio. Agora ele mora em vários aposentos em outra casa de bebida.
— Ori rico? Como é possível?
— Não sei, Sire.
— Mas sabe onde fica sua nova casa?
— Sei, Sire. Aqui está o mapa. Sinto muito se...
— Não importa — dissera Hiraga, na maior irritação. — Esta noite vamos queimá-la também.
— Sinto muito, Hiraga-san, mas isso não será mais tão fácil.
O shoya mostrava-se exteriormente penitente, mas por dentro sentia uma fúria igual porque sua primeira e imediata solução para o problema do ronin louco não alcançara o objetivo pelo qual fora pago.
— Não mais é fácil porque esta casa é isolada, e parece que ele tem muitos guardas... guardas gai-jin! — acrescentara o shoya.
Com toda objetividade, Hiraga avaliara as consequências. Enviara uma carta afável para Ori, por um dos aldeões, que vendia peixe na cidade dos bêbados, dizendo que sentia-se muito satisfeito por saber que ele continuava vivo, não morrera no terrível incêndio, como haviam-no informado, e também que se tornara próspero. Sugeria um encontro naquela noite naYoshiwara, já que Akimoto queria conversar sobre questões dos shishi da maior importância.