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Ori respondera por carta, sem demora: “Não na Yoshiwara, nem em qualquer outro lugar, não até que nosso plano de Sonno-joi seja executado e a colônia incendiada. Antes que você, Akimoto ou qualquer outro traidor se aproxime de mim, será fuzilado.”

— Ele sabe que o incêndio não foi um acidente — comentara Akimoto. — Claro que sabe. Mas onde conseguiu o dinheiro?

— Só pode ter sido roubando, neh?

Outras mensagens receberam a mesma resposta. Uma trama insidiosa falhara. Por isso, Hiraga comprara o revólver e formulara novo plano. Agora chegara o fomento, aquela noite era perfeita. Os últimos raios do sol poente guiaram-no através da terra de ninguém e ao longo das ruas fétidas, cheias de buracos perigosos. Os homens que passaram por ele mal o fitaram, exceto para gritar que saísse da frente.

Ori enfiou a mão ao acaso no pequeno saco com moedas na mesa ao lado da cama e tirou uma. Era um mex lascado, agora com a metade do seu valor normal. Embora ainda fosse cinco vezes mais do que o preço combinado, ele entregou a moeda à mulher nua. Os olhos dela se iluminaram, inclinou a cabeça em um cumprimento murmurando agradecimentos abjetos e intermináveis.

— Você é um cavalheiro de verdade, amor.

Ele observou-a, distraído, enquanto ela punha o vestido velho e esfarrapado atônito por se encontrar ali, sentindo repugnância por tudo naquele quarto, a cama, a casa, o lugar, pelo corpo pálido e ossudo da gai-jin, com nádegas flácidas, que fantasiara ser capaz de extinguir o incêndio que o enlouquecia, mas apenas servira para tornar sua necessidade ainda pior, pois aquela mulher não se comparava em coisa alguma com ela.

A mulher não lhe dava qualquer atenção agora. Realizara seu trabalho e só restava murmurar os costumeiros agradecimentos e mentiras sobre o desempenho do homem — neste caso, não eram mentiras, pois o órgão, no que carecia de tamanho, compensava em força e vigor — e depois escapar dali, guardando sua nova riqueza, sem problemas adicionais. O vestido desceu pelos ombros magros e à mostra, até se arrastar pelo tapete puído, que cobria em parte o assoalho de tábuas ásperas. Anágua rasgada, sem o calção por baixo. Cabelos castanhos escorridos, uma grossa camada de ruge. Ela parecia ter quarenta, embora tivesse dezenove, uma menina de rua de Hong Kong, pais desconhecidos, vendida para uma casa de Wanchai oito anos antes, por sua mãe adotiva.

— Quer que eu volte amanhã?

Ori deu de ombros, apontou para a porta, o braço ferido já curado, e tão bom quanto jamais poderia ficar, nunca com a mesma força anterior, nem tão ágil com uma espada, mas bastante bom para enfrentar um espadachim médio, e ainda melhor com uma arma de fogo. Sua pistola estava em cima da mesa, nunca a deixava longe do alcance da mão.

A mulher forçou um sorriso, enquanto recuava, murmurando mais agradecimentos, contente por sair dali sem uma surra, e sem ter de suportar as práticas sórdidas que receara.

— Não se preocupe, Gerty — sua madame lhe dissera —, os chineses são iguais a todos os outros, às vezes um pouco exigentes, mas esse sujeito é tão rico que deve dar o que ele pedir, e bem depressa, para receber um bom pagamento.

Ela não precisara fazer muita coisa extra, limitara-se a suportar seus movimentos frenéticos com estoicismo, soltando os grunhidos necessários de prazer simulado.

— Adeus outra vez, amor.

Ela saiu, o mex escondido no corpete sujo, que mal cobria os seios flácidos com outra moeda, de um vigésimo do seu valor, na mão.

Lá fora, no patamar, estava Timee, um rude marujo eurasiano, de sangue misturado, mas de predominância chinesa. Ele fechou a porta e agarrou-a pelo braço.

— Fique de bico fechado, sua puta bexiguenta — sussurrou ele, forçando-a a abrir a mão para pegar a moeda, e depois xingando-a em chinês e inglês gutural pe]o ganho exíguo. — Por que não agradou o homem, sua puta?

Ele deu-lhe um cascudo e Gerty tropeçou, quase rolou pela escada; mas, assim que recuperou o equilíbrio, a uma distância segura, ela virou-se e gritou com mais veneno ainda:

— Vou contar a Madame Fortheringill sobre você! Ela dará um jeito em você!

Timee cuspiu na direção dela, bateu na porta, tornou a abri-la.

Musume boa, hem? — indagou ele, insinuante.

Ori sentava agora a uma mesa velha, junto da janela. Usava uma camisa ordinária e calção, com as pernas à mostra, os pés descalços, a espada curta numa bainha no cinto. O saco de dinheiro se encontrava em cima da mesa. Ele percebeu os olhos contraídos se fixarem no saco. Indiferente, pegou outro dólar mexicano e jogou-o para Timee. O marujo de ombros largos pegou-o no ar, levou a mão ao topete, com um sorriso de poucos dentes, quebrados e amarelados.

— Obrigado. Grude, Guv? — Timee passou a mão pela barriga enorme. — Grude, wakarimasu ka?

A comunicação entre os dois era pela linguagem dos sinais e um pouco de pidgin. Timee era o principal guarda-costas de Ori. Outro vigiava lá embaixo, no bar, e havia um terceiro na viela. Ori sacudiu a cabeça.

— Não — disse ele, usando uma das palavras que aprendera, e depois acrescentou, acenando para que Timee se retirasse: — Ceveja.

Sozinho finalmente, ele olhou pela janela. O vidro estava rachado, com sujeira de mosca por toda parte, um canto faltando. A janela dava para a fachada de outro prédio quase em ruínas, um albergue de madeira, a dez metros de distância. O ar recendia a umidade e ele sentia a pele imunda; ficou arrepiado ao pensamento do corpo daquela mulher num contato suado, sem qualquer possibilidade de um civilizado banho japonês depois, embora pudesse tomá-lo sem qualquer problema na aldeia japonesa, a duzentos metros dali, no outro lado da terra de ninguém.

Mas, para isso, correria o risco de encontrar Hiraga e seus espiões à espera, pensou ele, Hiraga, Akimoto e todos os aldeões, que merecem ser crucificados como criminosos comuns, por tentarem impedir meu grandioso projeto. Ralé! Todos eles. Ousando tentar me matar pelo fogo, ousando envenenar o peixe... foi o karma que levou aquele gato a roubá-lo antes que eu pudesse detê-lo, para morrer momentos depois, vomitando, no meu lugar.

Desde então, ele comia com parcimônia, e apenas arroz, que cozinhava pessoalmente, numa panela na grelha, com um pouco de carne ou peixe feita para os outros pensionistas e os clientes do bar, fazendo Timee provar na sua frente, como uma proteção adicional.

A comida é horrível, este lugar é horrível, aquela mulher é horrível e só conseguirei esperar mais uns poucos dias antes de enlouquecer. Os olhos desviaram-se para o saco de dinheiro. Os lábios se repuxaram, deixando os dentes à mostra, num sorriso mórbido.