Na noite do incêndio, na outra choupana, em que dormia num catre, numa alcova mínima, nos fundos do bar, custara-lhe o que restava de seu dinheiro. Muito antes que os outros no albergue despertassem, seu faro para o perigo, aguçado em uma vintena de incêndios desde a infância, alertara-o de repente, arrancando-o do sono, para descobrir as chamas já lambendo a escada de madeira por cima, e a tempo de ver outra cabaça com óleo, um trapo em fogo no gargalo, sendo arremessada para o bar.
Um cão histérico descera a escada em disparada e se juntara a dois gatos que tentavam escapar, frenéticos. Os três animais desataram a correr em torno do bar, derrubando garrafas de bebida, que se espatifavam no chão de pedra, alimentando o incêndio. Soaram gritos no andar por cima, apinhado. Homens seminus desceram a escada, em pânico, as chamas queimando-os, enquanto corriam para a rua. O fogo alcançara a escada. Uma súbita língua de fogo se elevara pelo corrimão, junto da parede seca. O calor no bar era sufocante, gerando um vento que transformava o incêndio num matadouro implacável. Os lados da porta da frente começaram a arder, com a maior intensidade, as chamas quase obstruindo-a. Mais homens desceram correndo a escada, em tumulto, tropeçando uns nos outros, no desespero de atravessar as chamas para sair dali, alguns já com partes das roupas vestidas às pressas pegando fogo. Apenas uns poucos minutos haviam transcorrido desde que começara o incêndio criminoso, mas agora o fogo tinha total domínio, o prédio estava condenado.
Em seu cubículo, Ori não sentira qualquer medo, treinado para situações de incêndio, a salvo da fumaça turbilhonante, estendido no chão, a boca já coberta por um pano encharcado em cerveja, a rota de fuga de emergência automaticamente definida, desde o momento em que ali chegara. Como sempre, a segurança dependia da recusa em se entregar ao pânico e, desta vez, a saída era uma pequena janela fechada, no outro lado do bar, longe da escada em chamas, uma janela que dava para a viela nos fundos.
Ori já ia escapar por ali quando avistara o corpulento proprietário, de camisolão, uma touca com borla, descendo a escada, a lutar com outros homens apavorados, uma caixa de ferro debaixo do braço. Furioso, o proprietário empurrara outro homem à sua frente para as chamas, mas apenas para que as mesmas chamas o convertessem numa tocha humana, gritando; no instante seguinte a escada desabara, arrastando-o e a dois outros para o fogo, vedando qualquer possibilidade de fuga por ali. A caixa escapara dos braços impotentes do proprietário, deslizara pelo chão. Um homem bastante queimado conseguira escapar das chamas, cambaleando para fora. O fogo, voraz, consumira o proprietário e os dois outros homens, e dera a impressão de que se projetava para a caixa, com a mesma voracidade.
Sem qualquer hesitação, Ori correra pelas chamas, pegara a caixa e disparara para a janela, arrebentando sem dificuldade as persianas apodrecidas, escapando são e salvo para a viela dos fundos e o ar fresco. Abaixado, saíra correndo para a cerca oposta, pulara-a e se esgueirara pelo lixo e o mato, ainda agachado, através da terra de ninguém, na direção do poço abandonado.
Ali chegando, ofegante, olhara para trás, cauteloso. As chamas do albergue elevavam-se pelo céu. Homens se agrupavam ao redor, gritando e praguejando. Dois homens saltaram de janelas do segundo andar. Outros, com baldes cheios de água, molhavam as construções ao lado, clamando por ajuda.
Ninguém o notara.
Sob a cobertura do tumulto, ele encontrara uma barra de ferro quebrada, arrombara a caixa, ao mesmo tempo em que afugentava os enxames de insetos noturnos. O tesouro lá dentro fizera-o vibrar. Pusera dois sacos de moedas nos bolsos da calça, outro no bolso da túnica. Com o maior cuidado, enterrara a dúzia de sacos restantes em diferentes lugares, e também a caixa.
Na manhã seguinte, vagueara pela cidade dos bêbados, até encontrar um albergue mais isolado, longe do prédio transformado em cinzas. Dez mex na mão do proprietário, e o peso remanescente do saco, garantiram-lhe serviço imediato e untuoso, um quarto grande, à sua escolha. O proprietário, um homem de olhos azuis fundos e brilhantes — como os dela, pensara Ori, com um súbito e intenso anseio —, apontara para o saco:
— Vão acabar tirando isso de você, meu jovem china.
Ori não entendera as palavras. O significado, no entanto, logo se tornara claro, e produzira Timee. Ori também concluíra que se Timee fosse bem pago, assim como o proprietário, estaria seguro ali ou na rua; quando saísse, seu quarto seria sagrado. Como precaução, sabendo o perigo de depositar toda a sua confiança naqueles homens, Ori também deixara patente, com mais linguagem de sinais e muita paciência, que aqueles sacos constituíam apenas uma parte de sua riqueza, que se encontrava na aldeia, bem guardada, e que se achava disposto a gastá-la com generosidade, por sua proteção, e qualquer outra coisa de que precisasse.
— Você é o Guv, basta dizer o que quer e a gente providencia. Meu nome é Bonzer e sou australiano.
Como quase todas as pessoas na cidade dos bêbados, ele coçava a todo instante as picadas de pulgas e piolhos, os poucos dentes tortos, e fedia demais.
— Guv? Significa Ichiban!, Número Um. Wakarimasu ka?
— Hai, domo.
A porta foi aberta, interrompendo a sequência de pensamentos de Ori. Timee trouxera-lhe uma caneca de cerveja.
— Guv, vou papar alguma coisa agora. — Ele tossiu. — Grude, comida, wakarimasu ka?
— Hai.
Acerveja saciou a sede de Ori, mas não aquietou sua mente. Não se comparava à cerveja da aldeia. Nem à de sua terra, Satsuma ou da Yoshiwara ou da Estalagem das Flores da Meia-Noite, em Kanagawa. Ou de qualquer outro lugar.
Devo estar enlouquecendo, pensou ele, atordoado. Aquela puta gai-jin, com sua pele de barriga de sapo e cheiro de peixe, foi pior do que a pior das velhas megeras que já tive, mas mesmo assim desfrutei as nuvens e a chuva duas vezes e queria mais e mais.
O que há com elas? Deve ser pelos olhos azuis, a pele branca, os cabelos púbicos claros... nisso, aquela puta não era muito diferente dela, embora o fosse em todo o resto. Inconsciente, seus dedos reviraram a cruz que usava no pescoço meio escondida. Os lábios se contraíram num sorriso torto. No túnel, enganara Hiraga. O pedaço de metal que jogara longe fora seu último oban de ouro. Estou contente por ter ficado com a cruz... para me lembrar constantemente. E foi mais do que útil sob outros aspectos, fazendo esses estúpidos gai-jin pensarem que sou cristão. O que há nas suas mulheres que me deixa louco?
É o karma, disse ele a si mesmo, decidido, karma que não haja resposta, nunca haverá, exceto... exceto despachá-la para o outro mundo.
O pensamento do pescoço dela em suas mãos, sua virilidade a penetrá-la, deixou sua pele arrepiada, o anseio renovado, como se a outra não tivesse existido. Mais uma vez, o quarto parecia balançar, ameaçava sufocá-lo. Por isso, Ori se levantou, pôs a pistola no bolso, vestiu um gibão de couro e desceu.