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— Guv?

Timee tossiu, levantou-se da frente de um prato cheio de arroz e guisado, para acompanhá-lo, mas Ori fez-lhe sinal e ao outro homem lá em cima que ficassem, e saiu para a rua.

Hiraga avistou-o no mesmo instante. Ele se postava no outro lado da rua suja e movimentada, sentado num banco, na frente de um bar imundo. Tinha na sua frente uma caneca de cerveja intocada, com homens ruidosos ao redor, bebendo, de pé ou arriados nos bancos, já embriagados, alguns seguindo para suas pensões, outros bares ou casas de jogo, que se agrupavam ali, formando um cortiço, igual ou pior que os de Londres. Os homens eram trabalhadores poliglotas, europeus e asiáticos, armados no mínimo com uma faca, e vestidos de maneira parecida com a dele, saindo do trabalho durante o dia inteiro nas fábricas de velas e lojas que abasteciam os navios, alguns mecânicos, uma profissão nova, ou procedentes de qualquer uma das dezenas de atividades relacionadas com os navios. Junto com mendigos e vagabundos havia padeiros, açougueiros, cervejeiros, agiotas e outros, que sustentavam ou sugavam aquela parte de Iocoama, separada da aldeia e da cidade dos nobres, como todos chamavam o setor dos mercadores, por consenso mútuo.

— Deve haver umas cento e cinqüenta almas na cidade dos bêbados e a maioria é formada por vagabundos — explicara-lhe Tyrer. — Eles têm poucas regras. É cada um por si, mas ai daquele que for apanhado roubando, pois a turba vai espancá-lo até a morte. Não existe lei, exceto as patrulhas da marinha e exército à procura de desertores, ou apenas tentando manter a paz entre seus homens, acabando com brigas e outros distúrbios. Há bares em que se vende cerveja e gim. O gim é uma bebida ordinária que pode matar, se não se tomar cuidado... aberto enquanto houver fregueses, o que também acontece com as casas de jogo. Não se aventure em nenhuma, nem nacasa de Madame Fortheringill, pois ela detesta japoneses, por causa do baixo custo da Yoshiwara... abençoada seja! Na outra extremidade, perto do portão sul, junto da Hoag Lane, fica a pior parte da cidade dos bêbados. Nunca estive lá, e é melhor você também se manter à distância. É ali que os mais depravados e perdidos tentam sobreviver. Ópio, mendigos, homens que se prostituem. Matadouro. Cemitério. Doença. E incontáveis ratos...

O pouco que Hiraga entendera o levara a desejar, ainda mais, conhecer o lugar pessoalmente. Aquela noite era a sua primeira oportunidade. Exceto por uns poucos insultos distraídos, que poderiam se aplicar a qualquer um, ninguém o incomodou, enquanto seguia Ori, restando ainda claridade suficiente no crepúsculo.

Sua presa se encaminhou para a praia, aparentemente sem propósito, e sem qualquer dos guardas-costas contra os quais fora alertado. O excitamento de Hiraga foi aumentando. O contato com o revólver no bolso lhe proporcionava uma sensação agradável. Os dedos ansiavam em pegá-lo, mirar, puxar o gatilho, para acabar com a ameaça ao seu futuro aqui, e depois iniciar a retirada controlada para a segurança, através da terra de ninguém, ou ao longo da praia, até a legação.

Aproximavam-se agora da pequena praça principal, ao lado do passeio e da praia, onde bares, casas de pasto e pensões disputavam a freguesia. Era a extremidade da colônia, o trecho mais estreito, espremido entre o mar e a cerca em que se situava o portão sul. Como no portão norte, a cerca era resistente e alta, estendia-se até o mar. A única abertura era o portão sul, fortemente guardado.

A praça estava apinhada, a maior parte constituída por soldados e marujos britânicos, com uns poucos franceses, americanos, russos e eurasianos. Ori esgueirou-se entre eles, foi até a beira do passeio. Contemplou o mar, escuro, com ondas de um metro de altura. Para o norte, a menos de um quilômetro de distância, ele podia avistar as luzes das casas de comércio se acendendo, o que também acontecia na legação francesa. E no andar superior do prédio da Struan, que dominava a área do cais, junto com o prédio da Brock.

Esta noite? Devo tentar esta noite?

Seus pés começaram a levá-lo nessa direção. Um súbito rumor, o barulho como o de um trem expresso, uns poucos metros abaixo da superfície, a terra tremeu, e Ori, como todas as outras pessoas na praça, cambaleou, nauseado, acabou caindo de quatro, enquanto a terra subia e descia, para depois parar. Um momento de silêncio, que parecia um grito estridente lançado para o céu. Depois, soaram alguns lamentos, berros, imprecações, que logo foram interrompidos por outro tremor. A terra tornou a se empinar, não tanto quanto antes, mas ainda assim de uma forma bastante terrível, os tremores se prolongaram pelo que pareceu muito tempo, até pararem de novo. Telhas caíram de um telhado. Pessoas corriam ou rastejavam para a segurança. Silêncio de novo, quase palpável, homens silenciosos, gaivotas silenciosas, todos os animais silenciosos. A terra esperando, tudo operando. Estendidos no chão, rezando, praguejando. E esperando.

— Já acabou, pelo amor de Deus? — gritou alguém.

— Já...

— Não...

— Eu espero...

Outro rumor. Ganidos de medo. O barulho aumentou, a terra se contorceu soltando um berro, voltou a ficar imóvel. Vários barracos desabaram. Brados de socorro. Ninguém se mexeu.

Mais uma vez, todos prenderam a respiração. Expectativa. Gemidos, orações súplicas, lamúrias, imprecações. À espera do próximo tremor. O maior de todos Esperando, mas não veio mais nada.

Por enquanto.

Momentos que se transformaram numa eternidade de espera. Depois, Ori sentiu que já acabara e levantou-se, o primeiro na praça, o coração disparado em alegria por não ter morrido desta vez, por continuar vivo e intacto, por renascer são e salvo, mas instintivamente preparado para o próximo perigo, um ímpeto imediato de fogo, que era uma consequência normal, e o maior de todos os riscos a se enfrentar. Cada terremoto era a nêmesis de alguém, um renascimento para todos os outros, e desde tempos imemoriais era encarado assim pelos que viviam na terra dos deuses, que era também chamada de terra das lágrimas.

Abruptamente, o estômago de Ori teve o seu tremor particular. No outro lado da praça, por cima da massa de pessoas ainda estendidas no chão, muitas vomitando e praguejando, ele avistou Hiraga, também de pé, observando-o. Cinqüenta metros além de Hiraga, a maioria dos guardas samurais também já se levantara... e alguns estudavam os dois com uma curiosidade inequívoca.

Quase no mesmo instante em que Ori sentira que o terremoto terminara e se levantara de um pulo, Hiraga e os samurais haviam feito a mesma coisa, numa reação espontânea, experimentando idêntico alívio e renascimento. Hiraga só compreendeu que estava de pé quando percebeu Ori a fitá-lo. Amarrou a cara. Avançou na direção de Ori, enquanto a praça voltava à vida, os homens se levantando, ruidosos, cambaleando. Atordoado, Ori se virou para fugir, mas homens assustados e irados, alguns rindo histéricos, outros balbuciando agradecimentos a Deus, barraram sua passagem — e a perseguição de Hiraga — com gritos de “Mas o que você...”

— Quem você pensa que é me empurrando desse jeito?

— Ei, é um maldito japa!

Foi então que alguém berrou:

— OLHEM! FOGO!