Assim como todos os outros, Ori olhou para o norte. Havia um prédio em chamas na extremidade do passeio. Ele o reconheceu como o quartel-general de dois andares da Struan. Ou talvez o prédio ao lado. Indiferente a todos, Ori saiu correndo.
Hiraga partiu em seu encalço, mas foi nesse momento que um bar desabou, fazendo as pessoas à sua frente correrem para todos os lados, esbarrando nele e quase derrubando-o. Hiraga fez um tremendo esforço para manter o equilíbrio, em meio ao tumulto. Naquela parte da praça, os homens corriam em círculos, a esmo, bloqueando seu caminho. Por um segundo, ele ainda divisou Ori e depois as ruínas do bar pegaram fogo; a multidão recuou, engolfando-o por completo.
Quando Hiraga recuperou o equilíbrio, Ori já desaparecera; por mais que tentasse forçar a passagem para o lugar em que o vira pela última vez, menos progresso conseguia fazer e mais furiosa a multidão se tornava.
— Ei, por que está me empurrando?
— Mas é outro japa desgraçado!
— Vamos dar uma lição no patife!
Depois que Hiraga apaziguou a todos, recuou e deu a volta, encontrando um caminho para a beira da praça, Ori não corria pelo passeio, na direção do incêndio, como ele esperava, nem se afastava pela praia... mas desaparecera por completo.
No prédio da Struan, Jamie McFay subiu correndo a escada, na semi-escuridão, em meio a gritos de alarme de “fogo!”, um lampião a óleo balançando em sua mão, o único candelabro aceso em toda a área da escadaria ainda a balançar devido aos choques. Ele alcançou o patamar, avançou pelo corredor, até a porta aberta de Struan.
— Tai-pan, você está bem?
O quarto estava escuro, a não ser por um brilho ominoso que dançava pelas cortinas da janela. Struan se encontrava caído ao chão, atordoado, meio vestido para o jantar, sacudindo a cabeça para tentar desanuviá-la, os dois lampiões espatifados, o pavio aberto de um que estava escondido pela cômoda crepitando sobre o tapete encharcado de óleo.
— Acho que sim — balbuciou ele. — Devo ter batido com a cabeça quando caí. Oh, Deus, Angelique!
— Deixe-me ajudá-lo...
— Posso me levantar sozinho, Jamie! Vá ver como ela está!
Jamie tentou a maçaneta da porta de comunicação. Trancada pelo outro lado. Foi nesse instante que o tapete pegou fogo. Struan arrastou-se para longe do fogo, gritando de dor. Antes que as chamas pudessem se espalhar, Jamie tratou de apagá-las com os pés. Em sua pressa para ajudar Struan a escapar, puxou-o de uma forma um tanto rude.
— Por Deus, Jamie, tome cuidado!
— Desculpe. Eu não...
— Não tem importância — murmurou Struan, sentindo uma pontada de dor do lado, onde batera com força ao cair, mais pulsações no estômago, onde antes não havia nenhuma, e as habituais sob o ferimento já cicatrizado, mas ainda dolorido. — Onde é o incêndio?
— Não sei. Estava lá embaixo e...
— Mais tarde... Angelique!
Jamie saiu para o corredor e a fumaça que vinha da outra extremidade fê-lo tossir. Bateu na porta de Angelique, tentou a maçaneta... trancada por dentro também. Ele jogou o ombro contra a madeira perto do batente e conseguiu arrombar a porta. O boudoir se achava vazio, um lampião caído de lado, ainda aceso, o óleo pingando sobre a cômoda, outro espatifado no chão, mais óleo por toda parte. Jamie apagou o pavio, correu para o quarto. Encontrou-a na cama, tão pálida quanto seu penhoar, os olhos fixados no lustre que ainda balançava incongruentemente aceso.
— Você está bem, Angelique?
— Oh, Jamie... — murmurou ela, hesitante, a voz parecendo muito distante — Estou, sim... deitei um pouco antes de me vestir para o jantar e, de repente o quarto começou a balançar. Pensei que era um sonho, mas depois os lampiões caíram e quebraram... Mon Dieu, foi o barulho do prédio sacudindo que mais me assustou... Oh, Malcolm...
— Ele está bem, e é melhor você se vestir depressa, enquanto pode. Não de...
O sino de alarme de incêndio, no escritório próximo do mestre do porto, começou a repicar, provocando um sobressalto nos dois. Com súbita apreensão, Angelique sentiu o cheiro de fumaça, ouviu os gritos abafados lá fora e divisou o clarão através das cortinas da janela.
— Estamos pegando rogo?
— Não há com que se preocupar por enquanto, mas é melhor se vestir tão depressa quanto puder, e passar para o quarto ao lado. Deixarei a porta de ligação destrancada.
McFay saiu apressado. Ela se levantou. Sob o penhoar, usava calça comprida e espartilho. Tratou de vestir a saia, que havia deixado sobre a cama, e pegou um xale.
— Não aconteceu nada com ela, tai-pan — ouviu Jamie dizer, enquanto destrancava a porta de ligação. — Está se vestindo. Deixe-me ajudá-lo a descer...
— Só quando ela descer também.
Jamie fez menção de falar, mudou de idéia, os dois ainda se lembrando do conflito na hora do almoço, sem a menor disposição de fazer qualquer concessão. Foi abrir a janela. No jardim da frente e na rua lá embaixo, havia escriturários e criados, inclusive Vargas, assim como curiosos e homens das várias legações, mas ele não avistou as chamas.
— Vargas! — gritou McFay. — Onde é o nosso incêndio?
— Não temos certeza, senhor, mas achamos que é apenas parte do telhado. Alguns homens já estão lá, junto com o comandante dos bombeiros, mas todo o segundo andar da Brock pegou fogo.
Jamie não podia ver o prédio ao lado, por isso voltou apressado ao boudoir de Angelique e abriu as cortinas. O fogo dominava boa parte da frente do prédio da Brock — uma estrutura de dois andares, parecida com a Struan — onde deveriam ser os quartos principais. A fumaça saía pelas janelas abertas. Dava par ver as fileiras de homens, os baldes com água passando de mão em mão no esforço para se apagar o incêndio, sob a supervisão de Norbert Greyforth — as equipes de fogo da Brock eram treinadas com a mesma freqüência e rigor com que ele próprio cuidava do pessoal da Struan. Empurradas pela brisa, as chamas se projetavam, junto com a fumaça, para cobrir o espaço.
É muito azar ser atingido pelo fogo deles, pensou Jamie, amargurado, para depois inclinar-se pela janela e gritar:
— Vargas, traga homens e água aqui para cima... molhem todo este lado! Depois que estivermos seguros, ajude Norbert!
Espero que o patife queime, e toda a Brock junto com ele, pois isso resolveria para sempre o problema daquele estúpido duelo.
Não havia outros incêndios que pudesse ver dali, além do que ardia junto ao passeio, na cidade dos bêbados, e dois na Yoshiwara. O cheiro de madeira queimada, de óleo e pano em chamas e do piche que usavam nos telhados prevalecia sobre tudo, embora a brisa trouxesse a maresia. Inexoravelmente, sua atenção retornou às chamas na Brock, que tanto os ameaçava. O vento as empurrava cada vez para mais perto. Desejou que se apagassem, com medo do fogo — a chácara em que nascera pegara fogo numa horrível noite de inverno, quando era menino, o pai, embriagado como sempre, e o irmão caçula morreram; ele, a mãe e a irmã escapando por um triz, salvando suas vidas e pouco mais, indo para uma casa de indigentes, em que trabalharam demais por anos a fio, até serem salvos por Campbell Struan, parente de Dirk Struan, em cujas terras seu pai labutara.