— Vargas! Depressa, pelo amor de Deus!
— Já estamos indo, senhor!
Agora o passeio se tornara atulhado, todo mundo nas ruas, dispostos a ajudar e a dar conselhos, outros aos gritos formando uma linha de baldes com água, desde o imenso reservatório de incêndio, cheio de água do mar, de fácil alcance, unidades do exército alojadas em barracas juntaram-se à multidão. Samurais acorriam, vindos do portão norte, para ajudar, pois qualquer fogo também os ameaçava. Para o sul, no outro lado do canal, uma das casas da Yoshiwara estava em chamas, com mais gritos trazidos pelo vento, mas esse incêndio parecia contido, não constituía um perigo maior, e graças a Deus não era perto do lugar em que Nemi deveria estar.
O suor escorria por suas costas. Sentia intenso alívio por nada ter acontecido a Malcolm. Desde o almoço que ficara remoendo em seu escritório, furioso porque sua busca por garimpeiros vazara, na mais profunda ansiedade pelo duelo e seu próprio futuro. Nunca antes imaginara que poderia se envolver numa briga assim, ou que seria forçado a deixar a Casa Nobre e o Japão, exceto por doença ou acidente, antes de se aposentar, daqui a cinco anos, com a idade madura de quarenta e quatro, após vinte e cinco anos de bons serviços, subindo degrau por degrau. Agora, com Malcolm alienado, e Tess Struan furiosa com ele, sua promoção, aposentadoria... todo o seu futuro corria perigo.
O que fazer, era isso que o preocupava, até que os tremores viraram o mundo de cabeça para baixo, sua precária mortalidade outra vez se tornara manifesta; e depois, quando o terremoto cessara e pudera se levantar, cambaleando, suas glândulas e a lembrança das dívidas que ele e sua família tinham com os Struans o fizeram subir correndo, apavorado pela segurança de Malcolm... afinal, era ele quem estava no comando, e aquele rapaz era pouco mais que um inválido. Tai-panl Sinto muito, Malcolm, Norbert tem razão, sua mãe é que tem o comando. Se você não estivesse ferido, teria corrido de volta a Hong Kong quando ela ordenou, nada disso aconteceria, você assumiria as rédeas e daqui a um ano, ou por aí, estaria...
— Jamie... pode me ajudar?
Aturdido, ele virou-se. Angelique estava parada à porta, de costas, a frente do vestido suspensa, a parte de trás aberta. Por um segundo, ele sentiu-se tentado a gritar: Essa droga de vestido é uma loucura, estamos quase em chamas! Mas não o fez, apenas se apressou em abotoar o vestido, ajeitou um xale sobre seus ombros, e levou-a para o quarto ao lado, onde ela se projetou no mesmo instante para os braços abertos de Struan. Alguns homens passaram correndo pela porta aberta, carregando baldes cheios.
— É melhor saírem, senhor! — gritou alguém.
— Tempo de partir, tai-pan. Está bem?
— Estou, sim.
Malcolm encaminhou-se para a porta, tão depressa quanto podia. Com as duas bengalas ele era lento... desastrosamente lento, se houvesse uma emergência, como todos os três sabiam, Struan ainda mais. Agora havia o barulho de pés no sótão, homens tentando apagar as chamas, o cheiro de fumaça cada vez pior, aumentando a ansiedade.
— Jamie, leve Angelique para fora. Irei atrás.
— Apóie-se em mim, e...
— Pelo amor de Deus, faça o que estou mandando e depois volte, se for necessário!
Jamie corou. Pegou Angelique pelo braço, e os dois se apressaram em deixar o prédio, homens ultrapassando-os com baldes vazios, outros entrando com baldes cheios.
No momento em que ficou sozinho, Struan voltou até a arca de gavetas, vasculhou sob algumas roupas e encontrou o pequeno vidro que Ah Tok reabastecera naquela tarde. Tomou a metade do líquido marrom, tapou o vidro, guardou-o no bolso da sobrecasaca, deixando escapar um suspiro de alívio.
Angelique foi levada pela escada e saiu pela porta da frente. Respirou fundo o ar puro.
— Vargas! — gritou Jamie. — Cuide de miss Angelique por um momento.
— Pois não, senhor.
— Por favor, permita que eu ajude, monsieur — interveio pomposo Pierre Vervene, o diplomata francês. — Escoltarei mademoiselle Angelique até nossa legação... ela poderá esperar ali em segurança.
— Obrigado.
Jamie voltou correndo para o prédio. Angelique pôde perceber agora que o telhado estava ardendo, não muito, no momento, mas perto das suítes, as chamas da sede da Brock ainda se projetando até o lado. Samurais bem treinados, com quimonos amarrados para não atrapalharem, mascarados contra a aspiração de fumaça, encostaram escadas numa das paredes. Alguns subiram, enquanto outros, com gestos e gritos, mandaram que os homens trouxessem baldes com água, passados aos que se encontravam no topo das escadas e lançados onde era mais importante. Uma língua de fogo impetuosa avançou para um dos homens, mas ele se esquivou, cobriu o rosto, manteve a posição, e logo voltou a combater o incêndio. Ela prendeu a respiração, pensando como aquele homem era forte e corajoso, e como Struan se mostrara impotente, quão pouco pudera fazer para protegê-la numa emergência, como era mais e mais um peso inútil, mais e mais um inválido, a cada dia mais rabugento, menos e menos divertido. O que será do meu futuro? Um tremor percorreu seu corpo.
— Não há nada com que se preocupar, mademoiselle — disse Vervene, em francês, uma touca de borla cobrindo a calva. — Venha comigo. Está sã e salva agora. Os terremotos são bastante comuns por aqui.
Ele pegou-a pelo braço, a fim de levá-la até a legação francesa, através dos homens que enxameavam no passeio, assistindo ao espetáculo ou ajudando a combater o incêndio.
Ori avistara-a no momento em que saíra para a rua.
Encontrava-se à margem da multidão, na entrada da viela ao lado da legação francesa, perto do portão norte. Suas roupas e gorro de trabalhador não eram muito diferentes dos trajes usados por muitos homens ao seu redor, camuflando-o bem. Daquela posição, podia observar a maior parte do passeio, a frente do prédio da Struan e a rua ao lado, um prolongamento da rua principal da aldeia.
Ele parou de observá-la e esquadrinhou tudo ao redor, à procura de Hiraga ou Akimoto, certo de que espreitavam de algum lugar nas proximidades, ou em breve o fariam, seu coração ainda disparado da frenética corrida desde a cidade dos bêbados. No instante em que percebera o fogo no prédio da Struan e o trecho aberto do passeio, compreendera que estava fadado a ser apanhado, se tentasse escapar por aquele caminho, ou pela praia... e não havia tempo de buscar Timee para lhe dar cobertura.