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Não que eu possa confiar naqueles cães, pensou ele, o coração palpitando ainda mais por Angelique estar tão perto.

Agora, a apenas vinte metros de distância.

Aqueles por quem ela passava no passeio tiravam o chapéu, murmuravam cumprimentos, a que Angelique respondia distraída. Ori poderia naquele momento procurar segurança ainda maior, mas não o fez, apenas tirou seu gorro, como os outros, e fitou-a. Barba curta, rosto forte, olhos curiosos, os cabelos rentes, mas penteados. Os olhos de Angelique passaram por ele, mas ela não o viu de fato, nem Vervene, que falava em francês, muito amável.

Passaram a poucos metros de distância. Ori esperou até que entrassem na legação francesa — não havia sentinelas ali agora, todos haviam ido participar do combate ao incêndio — e depois se afastou pela viela. Assim que se certificou de que ninguém o observava, pulou a cerca da legação, como fizera antes, e se encaminhou para o seu ponto de emboscada anterior, sob a janela de Angelique Naquela noite as janelas estavam destrancadas, sem barras, assim como a porta interna. Ele podia avistar o corredor, através do quarto, e viu-os quando entraram num cômodo no outro lado, que ficou com a porta entreaberta.

Agora que se encontrava seguro, sem ninguém a observá-lo, Ori verificou sua pistola, ajeitou a faca, para que ficasse solta na bainha. Depois se acocorou respirou fundo, pôs-se a pensar. A partir do momento em que vira Hiraga, e quase que no mesmo instante o incêndio no prédio da Struan, saíra correndo às cegas, deixando que o instinto o guiasse. Isso não serve mais, disse a si mesmo agora.

Tenho de planejar. E depressa.

As janelas abertas eram como um imã. Ele esgueirou-se sobre o peitoril da janela e entrou no quarto.

26

Por que não dormem aqui esta noite, mademoiselle, monsieur Struan? — sugeriu Vervene. — Temos bastante espaço.

Era quase a hora do jantar, e se haviam reunido na principal sala de recepção da legação francesa, tomando champanhe. Jamie acabara de chegar para informar que o incêndio fora apagado, sem danos maiores, apenas os prejuízos causados pela água na suíte de Angelique, um pouco na de Struan.

— Se quiser, pode ocupar meus aposentos, tai-pan — propôs Jamie. — Dormirei em outro lugar, e miss Angelique pode ficar no quarto de Vargas.

— Não há necessidade, Jamie — disse Angelique. — Podemos ficar aqui, sem incomodar ninguém. Afinal, eu ia mesmo me mudar para cá amanhã. Concorda, chéri?

— Acho que eu me sentiria mais à vontade em minha própria suíte. Será que posso, Jamie?

— Claro que sim. Mal foi afetada. Miss Angelique, gostaria de ficar nos meus aposentos?

— Não, Jamie. Passarei a noite aqui.

— Então está tudo acertado — declarou Struan, com uma estranha expressão nos olhos, sentindo-se muito cansado, a maior parte da dor ainda amortecida pelo ópio, mas não a raiva profunda contra Norbert Greyforth.

Monsieur Struan, quero que tenha certeza de que também é bem-vindo aqui — disse Vervene. — Temos aposentos suficientes, já que o ministro e sua equipe se encontram em Iedo, por mais alguns dias.

— Oh! — Angelique se mostrou visivelmente chocada. André teria de buscar o medicamento no dia seguinte. Todas a fitaram, surpresos, e ela se apressou em acrescentar:— Mas André me disse que todos voltariam o mais tardar até amanhã de manhã, depois da reunião hoje com o xógum.

— Depende da pontualidade do xógum, e de como a reunião vai transcorrer... nossos anfitriões não são modelos internacionais de pontualidade, não é mesmo? — Vervene riu da própria piada. — Nunca se sabe o que pode acontecer nessas reuniões oficiais. Pode levar apenas um dia ou até uma semana. Outro conhaque, monsieur Struan?

— Quero, sim, obrigado.

— Mas André disse que a reunião seria esta manhã e que no máximo estariam de volta amanhã!

Angelique fez um esforço para conter as lágrimas, que ameaçavam escorrer por suas faces.

— Qual é o problema, Angel? — indagou Struan, irritado. — Faz alguma diferença quando eles vão voltar?

— Não, mas... mas eu apenas detesto quando alguém diz uma coisa que não é verdade.

— Provavelmente se enganou, e é um absurdo se sentir transtornada com uma coisa tão insignificante. — Struan tomou um gole grande de conhaque.— Pelo amor de Deus, Angel, pare com isso!

— Talvez eles voltem amanhã, mademoiselle — interveio Vervene, sempre o diplomata.

Uma vaca estúpida, pensou ele, por mais apetitosos que sejam seus seios e beijáveis seus lábios, como se isso tivesse alguma importância. Depois de uma pausa, ele acrescentou, com seu sorriso mais insinuante:

— Ora, não importa. O jantar será servido dentro de uma hora. Monsieur McFay, vai nos acompanhar?

— Obrigado, mas não posso. É melhor eu me retirar agora. — Na porta, McFay hesitou. — Tai-pan... ahn... devo voltar para buscá-lo?

— Sou capaz de andar duzentos metros sozinho — protestou Struan, em tom brusco. — Perfeitamente capaz!

E de puxar um gatilho esta noite, ou em qualquer outra noite, ele teve vontade de acrescentar.

Pouco antes de virem para cá, Norbert Greyforth fizera uma pausa no trabalho, o incêndio na Brock quase controlado, e se aproximara pela rua, sem que ele percebesse. Jamie, ao seu lado, orientava Vargas e os outros no combate às chamas, com o Dr. Hoag e o Dr. Babcott nas proximidades, cuidando de queimaduras e de uns poucos ossos fraturados.

O elixir de Ah Tok promovera sua magia habitual e Struan sentia-se bem e confiante, apesar de estranho e querendo dormir, como sempre... fantasiava que dormir o levaria a sonhar, e o sonho seria sobre amar, um contato com a moça japonesa ou com Angelique, com uma paixão cada vez mais intensa, a necessidade delas tão grande quanto a sua, em total erotismo. E, de repente, abruptamente, ele fora arrastado ao presente implacável.

— Boa noite, Jamie. Uma coisa terrível, hem?

— Ah, Norbert — dissera Struan, a polidez ajudada pela euforia. — Lamento o seu azar. Acho que...

Norbert o ignorara, numa atitude deliberada.

— Por sorte, Jamie, não houve danos em nossos escritórios, depósitos ou casas-fortes, tenho certeza de que ficará satisfeito em saber... apenas nos outros aposentos.

Depois, ele simulara ver Struan pela primeira vez, e sua voz se tornara mais alta, mais zombeteira, para que todos ouvissem:

— Ora, ora, se não é o jovem tai-pan da Casa Tão Nobre! Uma péssima noite para você, meu rapaz, não me parece muito bem... perdeu seu leitinho, hem?