A euforia de Struan se dissipara. Através do nevoeiro do opiato, compreendera que se confrontava com o mal, o inimigo à sua frente.
— Não, mas você perdeu as boas maneiras.
— Boas maneiras não são o seu forte, rapaz. — Norbert soltara uma risada. — Isso mesmo, não sofremos prejuízos maiores. Na verdade, nosso novo empreendimento em mineração faz com que sejamos a Casa Nobre no Japão, e muito em breve seremos também em Hong Kong, até o Natal. É melhor voltar correndo para casa, Malcolm.
— O nome é Struan — respondera ele, vendo-se alto, forte e onipotente, sem tomar conhecimento dos outros ao redor, ou que Jamie e Babcott estivessem tentando intervir. — Struan!
— Gosto de jovem Malcolm, jovem Malcolm.
— Na próxima vez em que me chamar assim, eu o chamarei de bastardo sem mãe e estourarei seus miolos, sem esperar que apresente seus padrinhos!
Houve um silêncio profundo nesse instante, realçado ainda mais pelo crepitar das chamas e o zunido do vento. A notícia do desafio na hora do almoço espalhara-se em poucos minutos, e todos aguardavam o próximo movimento no jogo, que vinha fermentando desde que o avô de Malcolm, Dirk Struan, morrera antes de poder matar Tyler Brock, como jurara fazer.
A mente de Norbert Greyforth trabalhara depressa. Mais uma vez, ele avaliara seu futuro e sua posição na Brock, considerando com cuidado o que deveria fazer — as apostas eram imensas. Era bem recompensado... enquanto obedecesse às ordens. A última carta de Tyler Brock abrira uma porta para o paraíso, dizendo-lhe expressamente para “provocar Malcolm Struan até o limite, enquanto ele está doente, ferido e sem a proteção da minha filha insuportável, que Deus a condene ao inferno! Haverá cinco mil guinéus por ano, durante dez anos, se esse rapaz for destruído enquanto estiver no Japão... e você pode adotar qualquer providência que for necessária”.
Norbert completaria trinta e um anos dentro de seis dias. Aos quarenta, a idade normal da aposentadoria, o mercador médio na China já era um velho. Cinco mil por dez anos era sem dúvida uma quantia nababesca, o suficiente para ele e seus descendentes, o suficiente para comprar uma vaga no Parlamento, para se tornar um esquire com um solar, casar com uma jovem que lhe traria um bom dote de boa terra do Surrey.
Era fácil decidir. Ele aproximara o rosto de Struan, e ficara satisfeito ao perceber a dor sob a pele esticada... de uma altura superior, agora que Struan se encolhera sobre as bengalas.
— Escute aqui, jovem Malcolm, você jogou conhaque em minha cara no almoço e pode beijar meu rabo no jantar.
— E você é um bastardo sem mãe!
O homem mais velho soltara uma risada escarninha, cruel.
— E você é um bastardo sem mãe ainda maior, mais do que isso, é...
Babcott se interpusera entre os dois, sua enorme altura e corpulência ofuscando-os.
— Parem com isso, vocês dois! — gritara ele, furioso. — Este é um lugar público e tais divergências devem ser acertadas em particular, como fazem os cavalheiros!
— Ele não é um cava...
— Em particular, Malcolm, como cavalheiros — gritara Babcott, ainda mais alto. — Norbert, qual é o seu desejo?
— Um duelo não é minha opção, mas é isso que esse bastardo quer e assim será! Esta noite, amanhã, quanto mais depressa, melhor!
— Nem esta noite, nem amanhã, nem em qualquer outro dia, pois duelar é contra a lei, mas estarei em seu escritório amanhã, às onze horas.
Babcott olhara para Struan, sabendo que ninguém ali poderia evitar um duelo, se era esse o desejo de ambos. Percebera as pupilas dilatadas e sentira-se triste por Struan, mas ao mesmo tempo furioso. Há algum tempo que ele e Hoag tinham diagnosticado o vício, mas nada do que fizeram ou disseram causara qualquer impressão e também não eram capazes de impedir o acesso ao vício.
— Eu o verei ao meio-dia, Malcolm. Enquanto isso, como a maior autoridade britânica em Iocoama no momento, ordeno que vocês dois não dirijam a palavra um ao outro, nem se agridam, em particular ou em público...
Ora, não importa o desgraçado do Babcott, pensou Struan agora, ainda mais confiante, o conhaque se somando muito bem ao opiato. Amanhã ou depois mandarei Jamie, não, mandarei Dmitri falar com Norbert... não Jamie, pois ele não merece mais minha confiança. Marcaremos o duelo no hipódromo e a Casa Nobre dará a Norbert um funeral nobre... e também ao miserável do Brock, se algum dia ele aparecer por aqui! Ambos esqueceram que você foi o melhor atirador com revólver em Eton, e duelou com aquele canalha do Percy Quill por chamá-lo de china. Matou-o também, e foi expulso da escola por isso, embora o caso tenha sido abafado por papai, por alguns milhares de guinéus. Norbert vai receber o castigo que merece...
Uma comoção na sala atraiu sua atenção. Seratard acabara de entrar, sendo cercado e cumprimentado pelos outros, com André Poncin logo atrás. Através do nevoeiro em sua mente, ouviu Seratard dizer que a reunião em Iedo fora rapidamente concluída, depois que “rompemos o impasse e a proposta francesa foi aceita, por isso não havia necessidade de ficar...”
Seus ouvidos pararam de escutar quando os olhos focalizaram André. O belo e elegante francês, de feições aquilinas e porte ereto, sorria para Angelique, que também sorria em retribuição, com uma felicidade que há dias não demonstrava. O ciúme começou a dominá-lo, mas Struan tratou de reprimi-lo. Não é culpa dela, pensou ele, cansado, nem de André; Angelique vale um sorriso, e não tenho sido boa companhia, estou diferente, cansado de tanta dor, desamparado ainda por cima. Mas eu amo essa mulher e preciso dela desesperadamente.
Ele fez um esforço para se levantar, pediu desculpas por ter de se retirar, agradeceu a hospitalidade. Seratard se mostrou muito simpático, como sempre:
— Mas não quer ficar? Lamento muito o incêndio... não sentimos nada no mar, nem mesmo houve uma onda maior. Não se preocupe com sua noiva, teremos o maior prazer em lhe fazer companhia, monsieur, enquanto for necessário e reparam seus aposentos. É claro que será bem-vindo aqui no momento em que desejar, monsieur.
Ele acompanhou-os até a porta, Angelique insistindo em pegar o braço de Struan e ir junto até sua residência.
— Estou bem, Angel — murmurou Struan, amando-a mais do que nunca.
— Sei disso, meu amor, mas é meu prazer — disse ela, cheia de boa vontade, agora que André voltara.
Só mais algumas horas e depois estarei livre, pensava Angelique.
O jantar foi um grande sucesso, com Angelique radiante, Seratard exuberante por seu sucesso em Iedo, regalando-os com suas façanhas na Argélia, onde fora a autoridade encarregada de subjugar os nativos, antes de ser enviado para o posto atual, Vervene disputando sua atenção durante o tempo inteiro, relatando versões heróicas de seus feitos anteriores, todos inebriados por sua companhia e pelo vinho abundante, uma garrafa de borgonha por pessoa, com champanhe antes para atiçar as papilas gustativas, e depois para aquietar o estômago. André Poncin começou a relatar histórias picantes de Hong Kong, Xangai e Kowloon, onde os aldeões acreditavam de vez em quando na praga do pênis, que faria com que esse apêndice desaparecesse em seus corpos, por isso todos os homens amarravam um cordão ao redor, prendendo-o no pescoço, a fim de evitar a catástrofe.