— Oh, André, isso é impossível, e uma impertinência de sua parte! — exclamou Angelique.
Ela abanou o leque, em meio aos risos e protestos de André de que era a verdade absoluta, sabendo que chegara o momento de se retirar. Terminou de tomar o segundo copo alto de champanhe, que acompanhou muito bem as três taças anteriores de Château d’Arcins, deixando-a ainda mais jovial... e se somando ao alívio por André ter voltado quando prometera e ao prazer por falar francês durante toda a noite, prevalecendo sobre sua cautela habitual.
— Agora vou deixá-los com seus charutos e conhaque... e com suas histórias maliciosas!
— Fique mais um pouco — pediu Seratard. — André vai tocar para nós.
— Esta noite, não — apressou-se em dizer André. — Se não se importam, há alguns papéis que preciso preparar para amanhã. Sinto muito.
— Tudo pode esperar, o prazer antes dos negócios — insistiu Seratard, como uma ordem jovial. — Esta noite devemos ter música para arrematar o dia, alguma coisa romântica para Angelique.
— Deixe-o descansar um pouco, Henri — interveio ela, o vinho tornando suas faces rosadas, satisfeita porque André se mostrava obviamente ansioso em buscar o medicamento prometido. — Afastou-o dos seus negócios por tempo demais. Afinal, ele não é um dos seus funcionários.
— André adorará tocar para nós.
— Ah, André deve sempre obedecer, hem? Pois eu devo lhe ordenar, monsieur le ministre, que o dispense por esta vez... e a mim também, pois é hora de ir me deitar.
Angelique levantou-se, os joelhos um pouco bambos. Todos a cercaram protestando com veemência.
— Mas estarei aqui amanhã, e pelo menos por mais três dias. — Ela estendeu a mão para André, com um sorriso especial. — Pode se retirar agora. Eu lhe ordeno que cuide dos nossos interesses.
— Pode contar com isso, Angelique.
— Um último drinque...
Ela se permitiu ser persuadida a levar o copo, e depois todos a escoltaram até seus aposentos, para se certificarem de que as trancas nas janelas do boudoir e do quarto estavam bem seguras.
— Resolvemos trocar todas as venezianas desde a última vez em que esteve aqui — explicou Vervene, que já lhe dissera isso antes, os cabelos escassos desgrenhados, radiante e meio tonto. — Não bateram nem mesmo na tempestade da semana passada.
Todos os olhos notaram a camisola e o penhoar verdes, quase transparentes, estendidos na cama, arrumada de forma convidativa pela corpulenta criada, que observava a cena e esperava com expressão desaprovadora. Os lampiões a óleo projetando claridade tênue e criando bruma tornavam o quarto ainda mais sedutor, mais provocante.
Houve mais murmúrios de boa noite e sonhos felizes, com evidente relutância, e depois ela ficou a sós com Ah Soh, a porta para o corredor trancada. A criada despiu-a, escovou seus cabelos, guardou o vestido no armário, junto com suas outras roupas, a lingerie na arca de gavetas, enquanto Angelique cantarolava feliz, contente por se encontrar ali, a salvo para amanhã, exultante por estar sozinha, e porque o incêndio e o terremoto não haviam machucado ninguém nem interferido com seus planos; ao contrário, tornara-os ainda mais simples.
Promoverei a paz entre Malcolm e Jamie, é prejudicial o afastamento dos dois, pensou ela, exuberante, ainda com sede, mas dominada pela satisfação que o vinho proporcionava. Graças a Deus por André. Eu me pergunto como é a Yoshiwara e sua mulher. Vou encorajá-lo a me falar sobre ela, a fim de podermos rir juntos.
— Boa noite, miss.
Ah Soh se encaminhava a passos pesados para o divã no boudoir. A última vez em que dormira ali, mesmo com aporta do quarto fechada, seus roncos haviam sido ensurdecedores, deixando Angelique ainda mais transtornada.
— Não, Ah Soh, não precisa dormir aqui. Pode ir agora, e volte com o café da manhã, está bem?
A mulher deu de ombros.
— Boa noite, miss.
Angelique trancou a porta depois que a criada saiu e na luz aconchegante, sozinha, e finalmente em paz, girou indolente ao ritmo de uma valsa cantarolada. Um momento depois, seus ouvidos captaram os acordes abafados do piano. Ah, é Henri, concluiu ela, reconhecendo seu jeito de tocar. Ele é um bom pianista, melhor do que Vervene, mas não se compara a André. Chopin. Uma música suave, delicada, romântica.
Ela se balançou ao ritmo da adorável melodia, e depois viu seu reflexo no espelho alto. Contemplou-se por um instante, de um lado e de outro, depois levantou os seios, como costumava fazer quando ficava a sós com Colette, ajeitando-os de várias maneiras, para verificar se assim se tornavam mais ou menos desejáveis.
Um gole de champanhe, as borbulhas fazendo cócegas, a música e o álcool a acalentando. Um impulso súbito e excitado levou-a a deixar o penhoar cair, e depois levantou a camisola, mais e mais alto, admirando a imagem no espelho, as pernas e a virilha, os quadris e os seios, e depois a nudez total, posando de várias maneiras, usando a camisola arrepanhada para encobrir ou revelar.
Outro gole de champanhe. Depois, ela mergulhou um dedo no copo e levou o líquido aos mamilos endurecidos, como lera que as grandes cortesãs parisienses faziam, às vezes usando o Château d’Yquem doce ali, e também em outros lugares. É curioso que duas das mais famosas cortesãs no centro do mundo sejam inglesas.
Angelique riu para si mesma, arrebatada pela noite, a música e o vinho. Depois que eu tiver um ou dois filhos e completar vinte e um anos”; quando Malcolm tiver uma amante e eu me encontrar preparada para um amante especial, é o que farei... para o prazer dele e o meu, e antes disso para o de Malcolm.
Outro gole, mais outro, e ela acabou o champanhe, lambendo a última gota, lânguida, observando pelo espelho, a língua escorregando em torno do copo, brincando com o copo. Com outra risada, largou o copo na penteadeira, não notou quando caiu para o tapete, os ouvidos sintonizados apenas em Chopin, a atenção em suas paixões latentes — os olhos fixados no espelho, agora a imagem refletida mais próxima, numa intimidade despudorada.
Lentamente, Angelique inclinou-se para a frente, abaixou o pavio no lampião, as sombras se tornando mais suaves agora, e depois recuou um pouco, a pessoa no espelho ainda ali, fascinante, sensual. Os dedos entraram em movimento, como que dotados de vida própria, vagueando, acariciando, o coração disparado, palpitando com o prazer crescente. Os olhos fechados agora, imaginando Malcolm alto, forte e com um cheiro irresistível, levando-a para o quarto, estendendo-a sobre as cobertas, deitando com ela, também nu, seus dedos vagueando, acariciando.