Ori empurrara a porta do armário no outro cômodo, saíra sem fazer barulho, e agora se encontrava nas sombras profundas perto da porta entreaberta, observando-a, o coração ressoando em seus ouvidos. Fora fácil para ele esconder-se entre as caixas, vestidos e anáguas pendurados, mais fácil ainda recuar para fundo, a fim de se tornar invisível, quando a criada abrira o armário. Fora fácil também ouvir os últimos estalidos das trancas, e perceber quando Angelique ficara a sós.
Na semi-escuridão do quarto, ela estava deitada na cama, os olhos fechados um pequeno tremor percorrendo seu corpo de vez em quando, o rosto nas sombras’ o corpo em parte nas sombras, sombras que dançavam nos movimentos da pequena chama, agitada pelas correntes de ar. Sem fazer barulho, Ori saiu da escuridão para o limiar. Fechou a porta, com um estalido. A música distante abafou o ruído. Angelique abriu os olhos, focalizou, e avistou-o.
Algum sentido lhe disse que era ele — o assassino da Tokaidô, o pai da criança que nunca deveria nascer, que a violara, mas não deixara lembrança de dor ou estupro, apenas sonhos parcialmente eróticos, metade de sono, metade de vigília... e que ela se encontrava indefesa, e naquela noite seria assassinada.
Os dois mal respiravam. Imóveis. Esperando que o outro tomasse a iniciativa. Ainda em choque, Angelique contemplou sua juventude, não devia ser muito mais velho do que ela, um pouco mais alto, uma espada-faca embainhada na cintura, a mão direita no cabo, barba e cabelos curtos e bem aparados, ombros largos, quadris estreitos, camisa ordinária, calções largos, pernas musculosas, sandálias de camponês. O rosto na sombra.
É apenas outro sonho, com toda certeza, não precisa ter medo...
Aturdida, ela soergueu a cabeça, apoiou-a na mão, gesticulou para que ele se deslocasse para a luz.
Por um momento envolvido no mesmo estado de irrealidade e sonho, Ori obedeceu; quando ela viu as feições marcantes, tão diferentes, os olhos escuros cheios de anseio, abriu a boca para indagar quem é você, qual é o seu nome, mas ele pensou que seria um grito, e por isso saltou para a frente, em pânico, a lâmina se aproximando com violência da garganta de Angelique.
— Não, por favor — balbuciou ela, a cabeça descaindo para o travesseiro. Ao constatar que ele não a compreendia, sacudiu a cabeça, apavorada, cada parte de seu ser bradando em desespero. Você vai morrer, não há escapatória desta vez!
— Não... por favor...
O pavor deixou o rosto de Ori, que ficou imóvel, o coração trovejando tanto quanto o dela, depois levou um dedo aos lábios, advertindo-a a se manter em silêncio, a não se mexer.
— Iyé — sussurrou ele, a voz rouca, e acrescentou: — Não.
Uma gota de suor escorreu por seu rosto.
— Eu... não... não farei qualquer barulho — murmurou ela, o terror a confundindo.
Angelique puxou o lençol sobre a virilha. Ele arrancou-o no mesmo instante. O coração dela parou. Mas nesse segundo ela soube; um instinto primitivo na mente a impelira para um plano diferente e sentiu-se invadida por um conhecimento latente, recém-descoberto. Seu horror começou a se desvanecer. Vozes interiores pareciam sussurrar: Tome cuidado, podemos guiá-la. Observe seus olhos, não faça qualquer movimento brusco, primeiro a faca...
O coração batendo forte, Angelique observou os olhos do homem, levou um dedo aos lábios, como ele fizera, apontou para a lâmina, gesticulou para que a afastasse.
Ori era como uma mola presa, esperando que ela corresse para a porta a qualquer instante e gritasse; sabia que podia silenciá-la com a maior facilidade, mas isso não se enquadrava em seu plano. A mulher só deveria tentar fugir no momento em que ele assim quisesse, gritar para atrair o inimigo; quando isso acontecesse, ele a mataria e depois esperaria pela chegada dos homens, soltaria o brado de “Sonno-joi”, viraria a faca contra si mesmo e morreria, cuspindo em seus rostos. Era esse seu plano — um entre os muitos que cogitara: possuí-la como um desvairado e depois matá-la e a si mesmo, ou apenas matá-la de imediato, sem qualquer barulho, como já deveria ter feito antes, por mais que a desejasse agora, deixando os caracteres de Tokaidô nos lençóis, como antes, para em seguida escapar pela janela. Só que a mulher não estava reagindo como ele previra. Os olhos firmes, a mão gesticulando para que ele afastasse a faca, os olhos azuis da cor do céu indagando, não suplicando, a tensão evidente, mas sem qualquer terror agora. Um meio sorriso estranho. Por quê?
A lâmina não se movia.
Seja paciente, as vozes sussurraram para Angelique...
Ela tornou a gesticular para que o homem retirasse a ponta da lâmina, sem pressa, querendo dominá-lo. Os olhos de Ori se contraíram ainda mais. Com esforço, ele desviou os olhos, só para ser inexoravelmente atraído de volta. O que ela está planejando? Cauteloso, ele baixou a faca, esperou, pronto para atacar.
Estava de pé ao lado da cama. Lentamente, as mãos da mulher começaram a desabotoar sua camisa e pararam de repente. A cruz no pescoço de Ori faiscou à luz do lampião — sua cruz. A maneira súbita com que reencontrava milagrosamente uma coisa que julgara perdida para sempre deixou-a exultante; como se estivesse num sonho, observou seus dedos tocarem a cruz, tremendo um pouco, com uma insólita satisfação por constatar que ele passara a usá-la, uma parte dela a fazer parte do homem para sempre, assim como uma parte dele se enraizara nela. Mas nem mesmo a cruz, sua cruz, a desviou.
Com extremo cuidado, ela tirou-lhe a camisa, descendo pelo braço direito, por cima da faca, empunhada com firmeza, uma constante ameaça. O olhar intenso de Angelique correu por seu corpo, o ferimento no ombro, recém-cicatrizado, o corpo musculoso. E voltou ao ferimento.
— Tokaidô — murmurou ela, não uma pergunta, embora Ori a tomasse como tal.
— Hai — sussurrou ele, contemplando-a, esperando, sufocado de desejo. — Hai.
A cruz tomou a faiscar.
— Kanagawa?
Ele acenou com a cabeça, mal respirando, enfeitiçado, e Angelique sentiu-se contente por ter acertado logo de saída. Agora que o homem se encontrava quase nu, ela sentiu-se ainda mais segura do plano que aflorara em sua mente. Estendeu a mão, tocou no cinto, sempre fitando-o nos olhos, com um ligeiro tremor. Sentiu uma corrente percorrer seu corpo por essa vitória.
Não tenha medo, disseram as vozes. Continue...
Os dedos de Angelique encontraram a fivela. Abriram-na. O cinto caiu, a bainha da faca junto. O calção escorregou pelas pernas. Por baixo, ele usava uma tanga. Com tremendo esforço, Ori permaneceu imóvel, o corpo bem equilibrado sobre as duas pernas, um pouco entreabertas, todo o corpo vibrando com as batidas do coração, os olhos fixados nos da mulher.
Continue, sussurraram as vozes, não tenha medo...
Abruptamente, a imagem dele na teia, que incontáveis gerações de mulheres — indefesas na mesma armadilha masculina — ajudaram-na a tecer e fez com que sua determinação se elevasse de maneira inesperada, aguçando sua percepção, tornando-a integrada à noite, mas ao mesmo tempo apartada, capaz de observar a si mesma e a ele, os dedos soltando o cordão, para vê-lo sem qualquer adorno.