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Angelique nunca vira um homem assim antes. A não ser pelo ferimento, ele não tinha qualquer imperfeição. Assim como ela.

Por mais um momento, Ori continuou a controlar seu desejo, mas depois a vontade desapareceu, ele jogou a faca na cama e cobriu-a. Mas ela se fechou como uma ostra, desviou-se, e Ori fez o mesmo, pegando a faca, antes que a mulher a alcançasse. Só que ela não tentou isso, apenas ficou estendida ali, observando-o se ajoelhar na cama, a lâmina erguida, outro falo apontando em sua direção.

No sonho acordado, Angelique balançou a cabeça, dizendo-lhe para largar a faca, esquecê-la, deitar ao seu lado.

— Não há pressa — murmurou ela, sabendo que ele não compreenderia as palavras, apenas os gestos. — Deite aqui.

E mostrou-lhe onde.

— Não, seja gentil. — Ela mostrou como. — Beije-me... não, não assim, com tanta brutalidade... mais delicado...

Angelique mostrou tudo o que queria, e também o que ele queria, avançando, recuando, os dois se tornando muito excitados e, depois, quando finalmente se uniram, ela implodiu para levá-lo sobre a crista e aos dois para o abismo.

Quando os ofegos diminuíram e seus ouvidos puderam escutar, a música ainda soava, mas distante. Nenhum som de perigo, apenas os ofegos do homem acompanhando os seus, o corpo leve se adaptando com perfeição. E pertencendo. Era o que ela não podia entender — como ou por que o homem parecia pertencer. Ou como e por que ela se sentira tão emocionada ou consumida por tamanho êxtase. Ele começou a se afastar.

Não, as vozes apressaram-se em dizer, não o deixe sair, tome cuidado, o perigo ainda não terminou, persista no plano...

E por isso ela apertou-o em seus braços.

Dormiram por cerca de uma hora. Quando Angelique despertou, ele dormia ao seu lado, a respiração suave, o rosto jovem imperturbável, a mão direita segurando o cabo da faca, a esquerda tocando a cruz que usava com a maior descontração.

Foi meu primeiro presente, disse mamãe, logo no meu primeiro dia de vida, tendo usado desde então, apenas a corrente mudando. É dele agora ou meu... ou nosso?

O homem abriu os olhos e ela estremeceu.

Por um momento, Ori não soube direito onde se encontrava, ou se era um sonho, mas depois a viu, ainda linda, ainda desejável, ainda ao seu lado, com aquele estranho meio sorriso, envolvendo-o por completo. Encantado, estendeu a mão para ela, que reagiu, e se uniram outra vez, mas agora sem raiva ou pressa. Apenas querendo prolongar.

Depois, mal desperto, Ori teve vontade de lhe dizer como fora intenso o momento das nuvens e chuva, o quanto a admirava e era grato... atormentado por uma profunda tristeza por ter que encerrar sua vida, esta vida. Mas não triste por sua própria morte ser iminente. Agora, por causa da mulher, morreria realizado, a morte dela consagrando a causa justa de Sonno-joi.

Ah, pensou ele, com súbita satisfação, em troca de tal dádiva, talvez uma dádiva igual, um presente de samurai, uma morte de samurai: sem gritos nem terror, um momento viva, no outro morta. Por que não?

Em paz total, a mão na faca desembainhada, ele se permitiu mergulhar num sono sem sonhos.

Os dedos de Angelique o tocaram. No mesmo instante ele despertou, em guarda, a mão no cabo da faca. Viu-a gesticular para a janela com cortina e levar um dedo aos lábios. Um assovio lá fora se aproximava. O som passou pela janela e se afastou.

Ela suspirou, aconchegou-se contra Ori, beijou-o no peito e depois, parecendo muito feliz, apontou para o relógio na cômoda, que marcava 4:16 h, outra vez para a janela. Saiu da cama e fê-lo compreender, através de sinais, que deveria se vestir, partir agora, para voltar com a noite, pois a janela estaria destrancada. Ori balançou a cabeça, fingindo provocá-la, e ela voltou apressada, as sombras e a visão de seu corpo proporcionando a ele intensa satisfação. Angelique ajoelhou-se ao lado da cama e sussurrou, suplicante:

— Por favor... por favor...

Ori sentiu profunda exultação. Nunca antes, em toda a sua vida, vira tal expressão no rosto de uma mulher, uma paixão tão grande, além de sua compreensão — não havia palavra para amor em japonês. Dominou-o por completo, mas não o desviou de sua decisão.

Seria fácil fingir concordar, indicar que partiria agora e voltaria ao anoitecer.

Enquanto ele se vestia, Angelique permaneceu bem perto, ajudando-o, relutante em deixá-lo se retirar, querendo que ficasse, protetora. Com um dedo nos lábios quase infantil, ela entreabriu a cortina, abriu a janela, sem fazer barulho, esquadrinhou lá fora.

O ar era fresco. Uma insinuação do amanhecer. O céu salpicado de nuvens O mar calmo, sem qualquer som ou sinal de perigo, apenas o suspiro das ondas na praia de areia. Ao longo da High Street, apenas filetes de fumaça restavam dos incêndios. Ninguém por perto, a colônia se encontrava em paz, adormecida.

Ori parou logo atrás da mulher e compreendeu que aquele era o momento perfeito. Sua mão apertou o cabo da faca, as articulações esbranquiçadas. Mas não desfechou o golpe, pois ela se virou com tanta ternura e preocupação que sua determinação se desvaneceu, além do fato de ainda se sentir obcecado pelo desejo. Ela beijou-o, tornou a se inclinar na janela, olhou para um lado e outro, a fim de se certificar de que não havia ninguém por perto.

— Ainda não — murmurou ela, ansiosa, fazendo-o esperar, seu braço enlaçando-o pela cintura.

E quando teve certeza, Angelique tornou a se virar, beijou-o mais uma vez, e depois fez-lhe um sinal para que se apressasse. Ele passou sobre o peitoril, em silêncio; no momento em que se afastava pelo jardim, ela fechou e trancou a janela e seus gritos ressoaram pela noite!

— Socorro! Socorro!

Ori ficou paralisado. Mas apenas por um instante. Tremendo de raiva, bateu nas janelas, os gritos incessantes da mulher e a certeza de que fora enganado o deixando transtornado. Dedos agora transformados em garras arrancaram uma veneziana, estavam prestes a abrir a janela. Foi nesse segundo que um dos soldados franceses de sentinela surgiu da esquina no canto do prédio, o rifle erguido, pronto para disparar. Ori viu-o e foi mais rápido, sacou a pistola, puxou o gatilho, mas errou os dois tiros, pois nunca antes disparara uma arma de fogo, as balas ricocheteando na parede e se perdendo na noite.

O soldado não errou na primeira vez, nem na segunda, nem na terceira. Dentro do quarto, Angelique se encolheu toda, com as mãos nos ouvidos, exultante, angustiada, sem saber o que pensar, o que fazer, se ria ou chorava, certa apenas de que vencera, e que agora estava segura e vingada, com as vozes interiores se regozijando durante todo o tempo: Você triunfou, agiu muito bem, foi maravilhosa, executou o plano com perfeição, agora se tornou a salvo daquele homem para sempre!

— Será mesmo? — balbuciou ela.

Claro que sim, está sã e salva, ele morreu, é verdade que há sempre um preço, mas não se preocupe, não tenha medo...