Que preço? O que... Oh, Deus, esqueci a cruz! Ele ainda está com a minha cruz!
Em meio ao crescente tumulto lá fora, com batidas cada vez mais fortes em sua porta, ela começou a tremer. Incontrolável.
27
Sexta-feira, 7 de novembro:
À tarde, a fragata H.M.S. Pearl voltou de Iedo, com todas as velas içadas, e seguiu para o seu ancoradouro habitual, na movimentada enseada de Iocoama. A bandeira de Sir William se encontrava hasteada no mastro principal. Outras bandeiras pediam a vinda imediata de seu cúter respectivo, mas eram desnecessárias, porque o barco já o esperava no mar, com o cúter a vapor da Struan ao lado... e Jamie impaciente na proa. Todos na praia que avistaram a Pearl ficaram observando, a fim de conferir se seu comandante se encontrava à altura do ímpeto arrogante da embarcação, o vento irregular e a velocidade sob as velas tornando a manobra arriscada. A proa levantava uma onda alta, no mar ondulado. No último segundo, a Pearl virou contra o vento e parou, tremendo toda, o gurupés por cima da bóia a sotavento. No mesmo instante, marujos em uniformes impecáveis lançaram os cabos de amarra sobre os postes de amarração, segurando a fragata, enquanto outros se empenhavam em ferrar as velas. Nada mau, pensou Jamie, orgulhoso, para depois gritar:
— Para a frente, a toda velocidade! Vamos encostar! — Ele queria ser o primeiro a interceptar Sir William, como Malcolm ordenara. — Depressa, Tinker, pelo amor de Deus!
— Sim, senhor!
Tinker, o timoneiro da Struan, ofereceu um sorriso radiante e desdentado, já prevendo a ordem, e aumentou a velocidade. Era um veterano, tatuado, de rabicho grisalho, antigo contramestre de um dos clíperes da companhia. Ao passar pelo cúter de oito remos de Sir William, para desolação de seus tripulantes, Tinker cuspiu a seiva de tabaco no mar e lhes mostrou um dedo, num gesto jovial, antes de ocupar a vaga no costado da fragata. Jamie subiu pela escada. No convés principal, levantou a cartola para o oficial de serviço ali, um guarda-marinha imberbe.
— Permissão para subir a bordo. Mensagem para Sir William. O guarda-marinha bateu continência.
— Pois não, senhor.
— O que foi, Jamie? Qual o problema agora? — gritou Sir William da ponta de comando, com Phillip Tyrer e o capitão Marlowe ao seu lado.
— Desculpe, senhor, mas a colônia se encontra no maior tumulto, e o Sr. Struan achou que eu devia lhe fazer um relato dos acontecimentos.
— Pode usar meu camarote, Sir William — sugeriu Marlowe.
— Obrigado. É melhor você vir também, já que é “o almirante no comando de nossa defesa naval”, mesmo que em caráter temporário.
Marlowe riu.
— Eu bem que poderia aproveitar o salário, senhor, se não também o posto mesmo que em caráter temporário.
— É o que todos nós gostaríamos. Venha também, Phillip.
Eles seguiram-no, Marlowe por último. Antes de deixar a ponte de comando, Marlowe chamou seu imediato e ordenou:
— Quero a casa de máquinas pronta para uma partida súbita, todos os canhões limpos, oleados e preparados, a tripulação pronta para assumir os postos de combate.
Foram sentar no camarote pequeno e austero, com um beliche, banheiro particular e uma mesa de cartas.
— O que houve, Jamie?
— Primeiro, Sir William, o tai-pan e todos os outros mercadores querem lhe dar os parabéns por uma reunião bem-sucedida.
— Obrigado. Qual é o problema?
— No início desta manhã, um japa tentou entrar no quarto de Angelique, na legação francesa, e foi morto pelas sentinelas. O Dr. Hoag e o Dr. Babcott...
— Deus Todo-Poderoso, ela ficou ferida?
Para alívio de todos, Jamie sacudiu a cabeça.
— Não, senhor. Ela diz que ouviu-o mexendo na janela e desatou a gritar...
— E havia alguém ali, como na última vez! — exclamou Tyrer. — Não era apenas o vento sacudindo a janela!
— É o que nos sentimos propensos a pensar — disse Jamie. — Babcott e Hoag foram chamados... ela se encontrava em estado de choque, não ferida, como já ressaltei, mas não parava de tremer. Os dois deram uma olhada no morto, e Hoag confirmou sem hesitação que era o mesmo homem que operara em Kanagawa...
Phillip Tyrer soltou um murmúrio de espanto, e Marlowe fitou-o, enquanto Jamie continuava:
—... e desconfiamos ter sido um dos assassinos de Canterbury, o mesmo que pode ter aparecido em nossa legação em Kanagawa, e que o capitão Marlowe e Pallidar tentaram capturar.
— Essa não! — Sir William olhou para Tyrer, que empalidecera. — Será que pode identificá-lo, Phillip?
— Não sei... acho que não. Talvez Malcolm possa, mas não tenho certeza.
A mente de Sir William já se projetara além do fato: Se é o mesmo nome então é provável que os dois assassinos estejam mortos; e como isso afeta nossa exigência de indenização?
— Na legação francesa, hem? É espantoso que tenham morto o patife, a segurança deles é abominável, e a mira dos soldados, ainda pior. Mas por que o homem foi até lá? Estava atrás de Angelique ou de quê?
— Não temos a menor idéia, senhor. Também descobrimos que era católico... ou pelo menos usava uma cruz. O que...
— Isso é muito estranho. Mas... espere um pouco. Angelique estava lá? Pensei que ela havia retornado ao prédio da Struan.
— E tinha, mas seus aposentos foram atingidos pelo fogo. Esqueci de mencionar, senhor, que depois do terremoto tivemos um pequeno incêndio, o que também aconteceu com Norbert. A...
— Alguém saiu ferido?
— Não, senhor, graças a Deus, nem em qualquer outra parte da colônia, pelo que sabemos. Os franceses ofereceram-lhe acomodações, mas...
— Malcolm Struan também se hospedou lá?
Jamie suspirou pelas contínuas interrupções.
— Não, senhor. Ele ficou em nosso prédio.
— Neste caso, vocês não devem ter sofrido grandes danos.
— Não, senhor, felizmente. Também não houve grandes danos no resto da colônia, embora Norbert tenha perdido quase todo o seu andar superior.
— O que deve tê-lo deixado satisfeito. Muito bem, a moça nada sofreu e o atacante morreu; qual o motivo da confusão?
— É o que estou tentando explicar, senhor.— Jamie passou a falar depressa, recusando-se a permitir desta vez que Sir William o interrompesse com qualquer pergunta. — Alguns idiotas na cidade dos bêbados, ajudados, lamento dizê-lo, por alguns dos nossos mais estúpidos mercadores, concluíram que todos os japoneses na aldeia eram responsáveis, e há cerca de duas horas formou-se uma turba que começou a surrar todos os que conseguiam encontrar, o que atraiu os samurais, furiosos. Os soldados e pessoal da marinha os confrontaram, e agora nos encontramos num impasse, os dois lados armados, reforçados, tornando-se mais ameaçadores a cada minuto, com a presença de uma parte de nossa cavalaria, o general no comando, ansioso em dar a ordem para uma carga, como a da brigada ligeira em Balaclava.