Mas que idiota! — pensou Sir William.
— Vou desembarcar imediatamente.
— Mandarei um destacamento de fuzileiros acompanhá-lo, senhor — anunciou Marlowe. — Ordenança!
A porta do camarote foi aberta no mesmo instante.
— Pois não, senhor?
— Quero o capitão dos fuzileiros e um destacamento de dez homens, com um sinaleiro, no convés principal o mais depressa possível! — Para Jamie, Marlowe acrescentou: — Qual é o local exato da confusão?
— Na extremidade sul da aldeia, perto da terra de ninguém.
— Sir William, ficarei de prontidão, perto do local. Qualquer problema, use meu sinaleiro, e poderá dispor de uma barragem de artilharia.
— Obrigado, mas duvido que venha a precisar de apoio naval.
Jamie interveio:
— Outro problema é...
— Conte-me quando estivermos no cúter. — Sir William já se encaminhava para o convés principal. — Seguiremos no seu, que é mais rápido. Vamos para o atracadouro na cidade dos bêbados.
Momentos depois, o cúter da Struan deslizava pela enseada a toda velocidade os fuzileiros agrupados na popa, Sir William, Jamie e Tyrer em relativo conforto na cabine no meio da embarcação.
— E agora, Jamie, pode me dizer qual é o outro problema?
— É o não tão domado samurai do Sr. Tyrer, Nakama. — Jamie lançou um olhar rápido para Phillip. — Parte da turba o atacou, mas ele conseguiu se desvencilhar, pegou espadas e revidou, cortando um dos bêbados, um australiano, embora sem maior gravidade, e teria matado os outros, se não fugissem. Alguns pegaram armas de fogo, voltaram correndo e quase o liquidaram. Ele se refugiou num armazém na aldeia, creio que em companhia de outros samurais... e há uma dúzia ou mais de maníacos cercando o lugar, dispostos a linchá-lo.
Sir William se mostrou aturdido.
— Um linchamento? Na minha jurisdição?
— Isso mesmo, senhor. Tentei persuadi-los a deixarem Nakama em paz, mas eles me mandaram embora. A culpa inicial não foi de Nakama, Sir William, posso garantir. Eu o vi na High Street sem ameaçar ninguém.
— Ainda bem — murmurou Sir William, a voz tensa. — Por sorte, temos uma lei para os ricos que também vale para os pobres e para todas as pessoas sob a nossa proteção. Se ele for linchado, lincharemos os linchadores. Estou cansado da cidade dos bêbados e dos absurdos da ralé que vive ali. Até recebermos um destacamento de peelers de Londres, vamos formar nossa própria força policial. Serei o chefe. Jamie, você é o subchefe de polícia temporário, com Norbert como o outro subchefe... também temporário.
— De jeito nenhum, Sir Wi...
— Então será Norbert sozinho — disse Sir William, suavemente.
— Está bem, está bem — murmurou Jamie, insatisfeito, sabendo que a tarefa seria das mais ingratas. — Norbert, hem? Já ouviu falar do problema entre Norbert e o tai-panl
— O que houve com eles?
Jamie relatou a briga e o desafio.
— Estão apostando cinco contra um como em qualquer madrugada os dois vão se esgueirar para um lugar isolado e um deles acabará morto.
Sir William ergueu o olhar e comentou, cansado:
— Passo três dias fora, e os problemas logo se acumulam. — Ele pensou por um momento. — Phillip, ordene aos dois que compareçam ao meu escritório amanhã de manhã, na primeira hora.
A voz mudou, e os outros dois homens estremeceram ao veneno que exalava quando ele acrescentou:
— Aconselhe aos dois, de antemão, que é melhor se mostrarem sensatos e dóceis e aceitarem minha gentil homilia. Timoneiro! Vamos mais depressa, pelo amor de Deus!
— Sim senhor...
— Trouxe minha mala, Phillip?
— Trouxe, senhor.
Tyrer agradeceu a Deus por ter se lembrado.
Hiraga espiava por uma fresta da porta-barricada do armazém do shoya, observando os homens furiosos, aos gritos, armados com pistolas e mosquetes. O suor escorria pelo seu rosto. Sentia-se sufocado de raiva, e também com algum medo, embora o ocultasse dos outros. O sangue de um ferimento ligeiro nas costas manchava a camisa... tirara a sobrecasaca ao correr para o prédio, em busca de suas espadas. O shoya se encontrava ao seu lado, bastante nervoso, desarmado, exceto por um arpão de pesca... só os samurais podiam carregar armas, sob pena de morte.
Ali estava também um ashigaru de cabeça branca, um infante, que olhava para Hiraga com respeito e confusão: respeito por sua capacidade de lutar e porque se tratava, sem dúvida, de um shishi; confusão porque ele usava roupas de gai-jin, tinha os cabelos compridos como os deles, parecia viver na colônia, e mesmo assim estivesse sujeito àqueles ataques injustificados.
Os nojentos gai-jin, pensou ele, como se uma tentativa de assalto fracassada, por parte de um ronin maluco, tivesse alguma importância... era evidente que o homem não passava de um ronin ladrão, não estava atrás da moça, pois nenhum homem civilizado poderia querer uma mulher assim. O tolo fora morto com toda razão, por sua impertinência, e ninguém mais saíra ferido; assim sendo, por que tanta violência? Os gai-jin são doidos!
— Há alguma saída pelos fundos? — indagou ele.
O shoya sacudiu a cabeça, muito pálido. Era a primeira vez que ocorria ali um grande distúrbio, com tantos gai-jin ameaçando violência. E ele se encontrava diretamente envolvido; afinal, não dera abrigo àquele shishi? Até mesmo o ronin doido estivera em sua casa, e ele não os denunciara, como tinha a obrigação de fazer... e não apenas ele, mas também todo e qualquer estranho?
— É inevitável uma investigação do Bakufu — lamentara sua esposa, uma hora antes. — Seremos chamados para depor. Os vigilantes continuam na casa da guarda. Perderemos tudo, inclusive nossas cabeças, Namu Amida Butsu.
Ela e a filha mais velha faziam compras no mercado de legumes quando os primeiros homens da turba apareceram na aldeia, gritando ameaças, derrubando cestos, empurrando e agredindo todos os japoneses, que correram para suas casas em pânico.