O oficial e todos os seus homens fizeram uma reverência. Sir William retribuiu. Os samurais voltaram a se controlar.
Sir William virou-se, aproximou-se dos fuzileiros, que ganhavam terreno empurrando para trás, com seus fuzis, os homens mais adiantados.
— Saiam daqui! Recuem... recuem! — berrava o jovem capitão, a adrenalina sendo injetada na circulação.
Ele se encontrava logo atrás de seus homens, e ao constatar que a ordem não era cumprida com a presteza que desejava, gritou:
— CALAR BAIONETAS!
Os fuzileiros recuaram dois passos, fixaram as baionetas, apontaram-nas para a multidão, cada fuzileiro escolhendo um alvo, cada um se tornando uma engrenagem de uma máquina de matar, que era famosa e temida no mundo inteiro.
— PREPARAR A CARGA!
Sir William, Tyrer e McFay pararam de respirar. Assim como todos os outros. Silêncio imediato. No instante seguinte, o espírito maligno que existe em todas as turbas se dissipou e os homens ali se transformaram numa ralé assustada, que tratou de se dispersar e fugir em todas as direções. O capitão não esperou nem um segundo.
— Portar fuzis e me sigam!
Ele conduziu seus homens em marcha acelerada para a aldeia, onde a maioria dos mercadores, soldados, uma dúzia de cavalarianos e samurais se concentrava, todos ainda alheios à presença de Sir William e seus fuzileiros. Mais uma vez, a cunha se formou, mas quando se aproximaram por trás da massa aos berros ouviram o general gritar:
— Pela última vez, ordeno que se dispersem ou vou expulsá-los...
O resto das palavras foi abafado por um rugido da multidão, prestes a explodir. O capitão decidiu que não havia tempo a perder.
— Alto! Uma rajada por cima das cabeças! FOGO!
A rajada prevaleceu sobre o barulho e a fúria e atraiu atenção imediata, até mesmo dos despreparados cavalarianos. Todos se abaixaram ou se viraram. Sir William, em silêncio, vermelho de raiva, avançou pelo espaço entre os dois lados. Mais adiante, Lunkchurch e seus companheiros ficaram paralisados. Ele tinha na mão um segundo trapo em chamas, pronto para arremessá-lo, o primeiro já tendo caído na varanda, junto à parede de madeira, o fogo se espalhando. Ao avistarem Sir William e os fuzileiros, desapareceram pelas ruas transversais, correndo desordenados para suas casas. Todos os outros olhos fixaram-se em Sir William. Ele ajeitou a cartola na cabeça, tirou um papel do bolso e disse, em voz áspera:
— Vou ler para vocês a Lei do Motim de sua majestade: se esta assembléia não se dispersar imediatamente, todos os homens, mulheres e crianças estão sujeitos à prisão e...
As palavras seguintes se perderam sob os resmungos e imprecações gerais, mas a turba começou a se dispersar.
A Lei do Motim de 1715 fora promulgada pelo Parlamento depois da rebelião jacobita, que só fora contida e sufocada por uma ação implacável. A nova lei visava a deter qualquer dissidência não autorizada na fonte. Concedia a todos os magistrados e juizes de paz o direito e o dever de ler os termos da lei para qualquer grupo de mais de doze pessoas consideradas uma ameaça à paz no reino, cabendo aos amotinados apenas ouvir e obedecer. Quem não se dispersasse num prazo de quarenta e cinco minutos ficava sujeito à detenção imediata, encarceramento e, se provada a culpa, pena de morte ou o banimento pelo resto da vida, a critério de sua majestade.
Não houve necessidade de Sir William concluir a leitura. A rua da aldeia se esvaziou, exceto pelos soldados, o general e os samurais.
— Phillip, vá falar com eles, diga-lhes para voltarem para suas casas, por favor.
Ele observou por um momento, enquanto Tyrer se adiantava, fazia uma reverência para o oficial dos samurais, que retribuiu. É um bom rapaz, pensou Sir William, antes de se virar com os olhos frios para o general, afogueado e suando.
— Bom dia, Thomas.
— Bom dia, senhor.
O general bateu continência. Com firmeza... mas apenas por causa dos soldados ao seu redor. Sir William não levantou a cartola em resposta. Palhaço estúpido, pensou ele.
— Um dia agradável, não? — disse ele, jovial. — Sugiro que dispense seus homens.
O general gesticulou para o oficial de cavalaria que, em segredo, se sentia mais do que um pouco satisfeito pela chegada de Sir William naquele momento, sabendo muito bem que a culpa não era dos japoneses e que já deveria ter partido com a sua tropa atrás da turba. Um bando de patifes indisciplinados e turbulentos, pensou o oficial.
— Sargento! — gritou ele.— Leve todos os homens de volta ao acampamento e dispense-os! Agora!
Os soldados começaram a se afastar. Tyrer fez uma última mesura para o oficial dos samurais, bastante satisfeito consigo mesmo, e depois observou-os subirem pela rua, na direção do portão norte.
— Um bom trabalho, Phillip — comentou Jamie McFay.
— Acha mesmo? — murmurou Tyrer, simulando modéstia. — Não foi grande coisa.
Jamie McFay soltou um grunhido. Estava suando, o coração batia forte convencido até um instante atrás que era inevitável que alguém disparasse um tiro ou desembainhasse uma espada.
— Foi por pouco. — Ele olhou para Sir William, absorvido numa conversa particular com o general, agora ainda mais velho, e acrescentou, em voz baixa, com um sorriso: — Wee Willie está passando uma descompostura nele. O idiota bem que merece a lição.
— Ele é... — Tyrer parou de falar, sua atração atraída para um ponto acima da rua. Samurais corriam para um armazém em chamas no lado leste. — Por Deus, é a casa do shoya!
Tyrer saiu em disparada, com McFay em seus calcanhares. Vários samurais haviam subido para a varanda, batendo com os pés nas chamas, enquanto outros corriam para os enormes barris com água, cercados por baldes, mantidos a intervalos por toda parte, para aquelas emergências. Quando Tyrer e McFay alcançaram o local, o incêndio já se encontrava sob controle. Mais meia dúzia de baldes, e as últimas chamas chiaram e morreram. A parede externa do armazém fora destruída. Lá dentro, viram o shoya, tendo a seu lado um ashigaru, um infante. Os dois saíram para a varanda. O shoya ajoelhou-se e fez uma reverência, o ashigaru apenas inclinou a cabeça. Ambos murmuraram agradecimentos. Para espanto de McFay, não havia sinal de Hiraga, o homem que ele e Tyrer conheciam apenas como Nakama. Mas antes que qualquer dos dois pudesse falar, o oficial samurai já começara a interrogar o shoya e o infante.
— Como o fogo começou?
— Um estrangeiro jogou um pano em chamas na parede, senhor.
— Merda de cão, todos eles! Quero que faça um relatório, explicando a causa deste distúrbio. Até amanhã, shoya.