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— Pois não, senhor.

O oficial, de rosto bexiguento, trinta e tantos anos, esquadrinhou o armazém.

— Onde está o outro homem?

— Como, senhor?

— O outro homem, o japonês que foi perseguido até aqui pelos gai-jin? —explicou ele, irritado. — Responda logo!

O ashigaru fez uma vênia polida.

— Desculpe, senhor, mas não havia mais ninguém aqui.

— Eu vi quando ele correu para cá... empunhando espadas! — Ele virou-se para os seus homens. — Quem o viu?

Todos o fitaram, apreensivos, sacudiram a cabeça. O rosto do oficial se avermelhou.

— Revistem o armazém!

A busca foi meticulosa, mas produziu apenas a família e os criados do shoya, que se ajoelharam para fazer uma reverência e permaneceram de joelhos. Todos negaram ter visto mais alguém. Um momento de silêncio; depois, Tyrer e McFay ficaram aturdidos ao ver o oficial perder a calma e desatar a vociferar.

Estóicos, o ashigaru e todos os soldados permaneceram em posição de sentido, rígidos, os aldeões de joelhos, a cabeça encostada no chão, tremendo sob as invectivas. Sem aviso, o oficial se adiantou e acertou um tapa com o dorso da mão no ashigaru. O homem permaneceu tão impassível quanto podia sob a chuva de golpes e insultos. A uma ordem estridente do oficial, o shoya levantou-se e permaneceu imóvel, enquanto o homem, frenético, o agredia no rosto, várias vezes, com extrema crueldade, as mulheres e crianças tentando não estremecer a cada golpe.

Tão subitamente quanto haviam começado, os golpes cessaram. Os dois homens fizeram reverências profundas, os rostos agora com as marcas dos tapas. O shoya tornou a se ajoelhar. Formalmente o oficial retribuiu, todos os vestígios de sua ira desaparecidos. Seus homens entraram em formação, e ele os conduziu para o portão norte, como se nada tivesse acontecido. Tyrer e McFay observaram os samurais se afastando, confusos. Um momento mais tarde, quando era correto fazê-lo, o shoya tornou a se levantar, acompanhado pelas mulheres e crianças. Entraram na casa e ele logo começou a supervisionar os reparos na parede. A atividade na aldeia foi reiniciada.

— Mas o que foi isso? — indagou McFay.

— Não sei — respondeu Tyrer, ambos chocados pela brutalidade e sua aceitação impassível. — Só entendi uma ou outra palavra... acho que tinha alguma coisa a ver com Nakama, todos disseram que ele nunca esteve aqui.

— É impossível... tenho certeza de que ele se encontra aí dentro. Eu mesmo vi quando entrou. — McFay enxugou o suor da testa. — Mas por que suportar a agressão daquele desgraçado? O homem é um lunático. Repare neles agora, agindo como se nada tivesse acontecido. Por quê?

— Não sei... talvez Nakama possa explicar. — Tyrer estremeceu.— Mas uma coisa posso garantir: eu não gostaria de ficar sob o poder dessa gente. Nunca.

— Olá, Angel. Como você está?

— Olá, querido. Eu me sinto melhor agora, obrigada.

Angelique exibiu um sorriso desolado, enquanto Struan entrava e fechava a Porta. Ela se encontrava apoiada em travesseiros, em sua cama, na legação francesa, o sol do fim de tarde passando pela janela e projetando a sombra de um guarda, agora postado ali em caráter permanente.

Nas primeiras horas daquela manhã, quando Struan viera correndo — claudicando — para o seu lado, Angelique resistira às suas súplicas para se mudar ainda com bastante autocontrole para se lembrar de que deveria permanecer ali, porque naquela noite André Poncin entregaria o medicamento que a livraria da presença maligna em seu corpo. É isso mesmo, ela sentira vontade de gritar, André vai ajudar-me a me livrar do mal que carrego dentro de mim, e de todo o mal que já cometi.

— Oh, Mon Dieu, Malcolm, estou bem, e não quero sair daqui!

— Por favor, minha querida, não chore.

— Então me deixe ficar. Estou bem, Malcolm, bastante segura, como sempre, e o Dr. Babcott me deu uma coisa para acabar com este tremor... não é mesmo, doutor?

— É, sim, Malcolm — dissera Babcott —, não se preocupe, por favor. Angelique nada sofreu e estará perfeitamente recuperada quando acordar. Seria melhor não tirá-la daqui. Não há motivo para preocupações.

— Mas eu me preocupo!

— Esta noite talvez ela possa vol...

— Não! — balbuciara ela, as lágrimas escorrendo. — Não esta noite. Talvez amanhã.

Graças a Deus pelas lágrimas, pensou ela de novo, enquanto observava Malcolm se aproximar da cama, sabendo que essa arma contra os homens, uma dádiva divina, podia ser considerada uma fraqueza, mas era na verdade um poderoso escudo. O sorriso de Malcolm era afável, mas ela notou suas olheiras, a expressão estranha e um ar de cansaço.

— Passei por aqui antes, mas você estava cochilando e não quis incomodá-la.

— Você nunca me incomoda. — A preocupação e o amor de Malcolm eram tão ostensivos que ela teve de fazer um esforço para não revelar a verdade. — Não se preocupe, meu querido, prometo que tudo voltará a ser maravilhoso muito em breve.

Ele sentou-se numa cadeira, ao lado da cama, relatou o tumulto e como Sir William o controlara num instante.

— Ele é um bom homem, sob muitos aspectos — comentou Struan, enquanto pensava que o mesmo não se podia dizer de outros.

Ele e Norbert já haviam recebido a convocação para comparecer ao escritório de Sir William na manhã seguinte e, logo em seguida, tiveram uma reunião particular.

— Não é da conta de Wee Willie — concordara Norbert, irritado.— Ele deve se concentrar nos japoneses e em chamar a esquadra de volta. Ouvi dizer que o intruso foi identificado por você como um dos assassinos de Canterbury, o outro desgraçado da Tokaidô. É verdade?

— Não o identifiquei. Acho que era outro homem, embora ele tivesse sido baleado. Hoag garantiu que era o mesmo que ele operara em Kanagawa.

— Por que ele estava na janela de Angelique?

— Não sei... é muito estranho. Suponho que era apenas um ladrão.

— É mesmo esquisito. E católico ainda por cima. Não dá para entender...

Struan percebeu que Angelique esperava que ele continuasse e indagou-se sedeveria abordar o assunto, os motivos daquele homem, perguntar o que ela pensava, dar suas opiniões, mas viu-a tão pequena e indefesa que decidiu esperar por outra ocasião, outro dia. Afinal, o canalha morrera, quem quer que fosse, o que resolvia tudo.

— Quando eu voltar, depois do jantar, trarei o último número de Illustrated London News, onde há uma excelente reportagem sobre a última moda em Londres...

Angelique escutava apenas com meia atenção, evitando olhar para o relógio na cornija da lareira, que tiquetaqueava os minutos com extrema lentidão. André informara que retornaria da Yoshiwara por volta das nove horas daquela noite, que ela deveria esperá-lo com um bule quente de chá verde e alguma coisa para comer, já que a poção poderia ter gosto horrível. Também deveria providenciar algumas toalhas e a não tomar mais do medicamento para dormir de Babcott.