Ela tornou a olhar para o relógio: 6:46 h. É uma longa espera, pensou Angelique, sua ansiedade aumentando. E foi então que as vozes interiores ressurgiram. Não se preocupe, sussurraram, as horas passarão depressa, depois você ficará livre, não se esqueça de que venceu, Angelique, foi corajosa e esperta, fez tudo com perfeição — não se preocupe com coisa alguma, você viveu e ele morreu, era a única maneira para você sobreviver, você ou qualquer outra mulher — muito em breve estará livre dele, da coisa, e tudo o que aconteceu antes não passará de um pesadelo...
Estarei livre, graças a Deus, graças a Deus.
O alívio a dominou e ela sorriu para Struan.
— Sua aparência é maravilhosa, Malcolm. Essas roupas estão perfeitas em você.
A jovialidade de Angelique arrancou-o da depressão; tudo ao seu redor era lúgubre... exceto ela. Ele também sorriu, radiante.
— Oh, Angel, se não fosse por você, acho que eu explodiria.
Naquela noite ele se dera ao trabalho de escolher com o maior cuidado as roupas de seda certas, as melhores botas de cano curto, de pelica de corça, uma camisa de seda branca com pregas, gravata branca com um alfinete de rubi que o pai lhe dera em seu último aniversário, de vinte anos, a 21 de maio. Só mais seis meses e serei livre, pensou ele, livre para fazer o que bem quiser.
— Você é a única coisa que me mantém são, Angel — acrescentou ele.
Seu sorriso expulsou os últimos demônios que ainda atormentavam Angelique e ela disse:
— Obrigada, meu querido. Explodir? Por quê?
— Os problemas nos negócios — respondeu Struan, evitando as verdadeiras questões. — Os miseráveis dos políticos vivem prejudicando nossos mercados, em sua busca habitual e obsessiva de poder pessoal, dinheiro e promoção. Nunca muda, não importa qual seja o país, credo ou cor. De modo geral, a situação da Casa Nobre é excelente, graças a Deus.
Ele se absteve de comentar a crise que enfrentavam com o açúcar havaiano e a crescente pressão da Brock sobre os mercados e fontes de crédito da Struan.
Ontem mesmo chegara uma carta ostensivamente hostil do Victoria Bank, o banco central de Hong Kong, dominado pela Brock, cópia da que fora enviada a Tess Struan, como diretora-executiva da Casa Nobre. Sua cópia estava endereçada a M. Struan, esquire, Iocoama, apenas para sua informação:
Madame: Esta é apenas para lembrar que a Struan tem dívidas duvidosas e promissórias demais apoiadas em patrimônio incerto, com lucros indefinidos. A maior parte dos compromissos vence a 31 de janeiro, e quero informar-lhe, madame, mais uma vez, que o pagamento de todos os compromissos com este banco terá de ser efetuado nos prazos acertados. Tenho a honra de ser seu obediente servidor.
Não importa o que digam esses desgraçados, pensou ele agora, com absoluta convicção, encontrarei um meio de superá-los e prevalecer sobre todos os Brocks. Matar Norbert será um bom começo. Nossos gerentes e empregados são excelentes, nossa frota ainda é a melhor e nossos capitães são leais.
— Os Brocks e os rumores não têm a menor importância, Angel, podemos lidar com eles, como sempre fizemos. A guerra civil americana aumentou muito os nossos lucros. Estamos ajudando o Sul a contrabandear o algodão através do bloqueio nortista, até nossas tecelagens em Lancashire, levando de volta toda a pólvora, balas, rifles e canhões que Birmingham pode produzir, metade para o Sul, metade para o Norte... com tudo o mais que nossas fábricas podem inventar e fornecer, máquinas, prensas, sapatos, navios, até cera de lacre. A produção britânica é gigantesca, Angelique, mais de cinqüenta por cento dos bens industriais do mundo. Temos também o nosso comércio de chá e de ópio de Bengala para a China, uma colheita excepcional este ano... tenho uma idéia para comprar o algodão indiano, a fim de compensar a escassez do americano... além de todas as nossas cargas normais. A Inglaterra é o país mais rico e mais próspero do mundo, e você é linda!
— Obrigada, gentil senhor! Je faime... amo de verdade, Malcolm. Sei que sou uma pessoa muito difícil, mas amo você, prometo que serei uma esposa maravilhosa, e...
Ele se levantara da cadeira e interrompeu-a com um beijo... o cheiro forte de charuto e brilhantina viril e agradável. Os braços que a enlaçaram eram musculosos, uma das mãos se desviando para os seios, e ela sentiu a rudeza agressiva, os lábios duros com ligeiro gosto de conhaque. O oposto dele.
Esqueça-o, sussurraram as vozes.
Não posso, ainda não.
Inclinar-se para ela foi uma tensão excessiva para os músculos da barriga e as costas doloridas de Malcolm; por isso, ele se empertigou, com algum esforço, mesmo sabendo que sentiria o maior prazer em possuí-la agora — se tivesse sua aquiescência —, qualquer que fosse a dor.
— Quanto mais cedo nos casarmos, melhor — murmurou ele, certo de que sentira uma reação nos lábios, seios e corpo de Angelique.
— Também acho...
— No Natal. No mês que vem.
— Acha mesmo... sente, meu querido, descanse um pouco. Precisamos conversar... quando voltaremos a Hong Kong?
— Ahn... ainda não decidi.
Muito da jovialidade de Malcolm se dissipou diante da perspectiva de ter de enfrentar a mãe.
— Talvez devêssemos voltar na próxima semana e...
— Só depois que eu estiver em condições.
E quando não estiver mais tomando a poção para a dor, pensou ele, as entranhas ardendo; só assim poderei enfrentar a mãe, os Brocks, e aquele banco miserável. Pouco antes de sair para a legação, ele tomara a segunda dose do dia, mais cedo do que o habitual.
Tomarei uma última antes de dormir e, a partir de amanhã, será tudo diferente. Apenas uma dose por dia, daqui por diante. Não poderia começar a fazer isso hoje... com a noite de ontem, o problema de Norbert e... ora, ontem foi um dia terrível demais.
— Não perturbe sua linda cabecinha com essas coisas.
— Mas eu me preocupo com você, e muito, Malcolm. Jamais haveria de querer interferir em qualquer coisa, mas não posso deixar de me preocupar com você. E há algo que acho que devo mencionar. O problema entre você e Jamie. Não há alguma coisa que eu possa...
O súbito sorriso de Malcolm a fez parar de falar.
— Está tudo bem com Jamie agora, minha querida. É a boa notícia de hoje. Mandei chamá-lo ao final da tarde, e ele se desculpou por ser tão difícil. Até renovou seu juramento de me apoiar em tudo... mas tudo mesmo.
— Mas isso é maravilhoso! Não imagina como me sinto satisfeita. Pouco antes de sua vinda, Jamie McFay pedira para lhe falar.