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Excitado, Tyrer avaliou a oferta: Sir William com certeza vai concordar, mas apenas se as informações forem de fato valiosas, e apenas se vierem do interrogatório direto do próprio Nakama. Isso significa... oh, Deus, não posso! “Eu teria de revelar a Willie o segredo de que você fala inglês. Não há como evitá-lo e não posso dizer que tenho ocultado uma informação tão vital, pois seria demitido, sem a menor dúvida. Não posso assumir esse risco, não quando Willie se encontra num ânimo tão terrível!” Melhor seria que Nakama partisse antes de sua cabeça rolar e haver um incidente internacional.

— Desculpe — murmurou Tyrer, desesperado —, mas não é possível.

— Ah, sinto muito, talvez ter tempo. — Hiraga fez uma manobra final para ganhar tempo. — Ter mensagem de Fujiko... iii, Taira-san, fazer grande marca nela, agora Fujiko pensar você ser muito melhor amigo. Mama-san dizer sinto muito, mas Fujiko começar ontem doença de mulher, doença mensal, assim não poder receber você por um dia, dois dias.

Ele percebeu o desapontamento imediato de Tyrer, seguido pela resignação e a expectativa, em rápida sucessão.

Tonto de alívio, relaxou um pouco, ao mesmo tempo espantado mais uma vez, por constatar que um homem, ainda mais uma autoridade tão importante quanto Taira, se permitisse demonstrar seus sentimentos interiores de maneira tão ostensiva, em particular na presença de um inimigo. Aqueles bárbaros ficavam além da imaginação.

— Tome aqui — acrescentou ele, estendendo o leque com os caracteres que preparara. — Poema, Fujiko escrever: “Contando horas, muito triste. Horas passar depressa quando seu sol brilhar em mim, depois não triste, tempo parar.”

Ele observou Tyrer pegar o leque, reverente, satisfeito com sua escolha das palavras, embora tivesse se irritado com a incompetência de Fujiko na escrita. Mesmo assim, refletiu Hiraga, o efeito parece ser perfeito.

— Sobre chefe gai-jin, ter um plano, mas primeiro reunião com xógum, Taira-san, foi boa, sim?

Akimoto foi dominado por um acesso de risada, tão contagiante que Hiraga não pôde deixar de acompanhá-lo.

— Puxa, Hiraga-san, foi brilhante manipular o gai-jin desse jeito! Brilhante! Saquê, traga mais saquê!

Estavam refestelados no aposentado isolado no terreno da Casa das Três Carpas, as janelas de shoji fechadas contra os insetos noturnos. Ramos de bordo de outono num vaso verde decoravam o lugar. Lampiões a óleo. As espadas em prateleiras ao lado. Depois que a criada se retirou, eles tornaram a encher os copos, beberam, e Akimoto indagou:

— O que aconteceu em seguida?

— Depois que o peixinho Taira engoliu a isca, fomos nos curvar diante do grande mero, que engoliu nós dois. Eu disse a ele que, sem que Taira soubesse, falava um pouco de inglês, aprendido com os holandeses em Deshima...

— O que não é mentira — comentou Akimoto, tornando a encher os copos. Ele cursara a mesma escola para os talentosos samurais de Choshu, em Shimonoseki, mas não fora selecionado para o curso de línguas; em vez disso, recebera a ordem de se especializar em assuntos navais ocidentais, com aulas de um capitão holandês aposentado.

— Baka que eu nunca tenha aprendido holandês ou inglês. O que disse o líder dos gai-jin?

— Não muita coisa. Taira fingiu se mostrar também espantado, como havíamos combinado. Foi fácil desviar o homem com informações sem importância sobre Satsuma, Sanjiro e sua fortaleza em Kagoshima, um pouco de sua história, e assim por diante.

Hiraga falava descontraído sobre o encontro, que não transcorrera com tanta facilidade. As perguntas haviam sido objetivas e tivera alguma dificuldade para convencer o líder de que sua simulada sinceridade era genuína. Ansioso em obter permissão de ficar, ele dissera mais do que desejava, não apenas sobre a situação política dos lordes exteriores de Satsuma e Tosa, mas também sobre seu próprio feudo, Choshu, e até mesmo sobre os shishi.

Sentiu o estômago embrulhar mais uma vez ao recordar os olhos azuis e frios, parecidos com os de um peixe, que o fitavam fixamente, e conseguiram de alguma forma arrancar mais informações do que queria oferecer. Ao final, o comentário brusco:

— Vou considerar a permissão para que você continue aqui por mais alguns dias. Tornaremos a conversar amanhã. Enquanto isso, deve voltar à legação, como medida de segurança.

— Melhor eu ficar com shoya, Sir William.

— Vai se mudar para a legação esta noite e permanecer com o Sr. Tyrer. Só poderá sair com permissão dele ou minha. Quanto estiver na rua, tomará todo cuidado para evitar uma provocação a qualquer de nossos homens. Tem de obedecer sem hesitação ou será conduzido ao portão norte... imediatamente!

Mais uma vez, ele simulara submissão, desmanchara-se em agradecimentos abjetos, mas fervendo de raiva por dentro, pela ausência de boas maneiras do homem. Ainda sentia-se furioso, e mais determinado do que nunca a executar o plano de Ori, de incendiar a colônia... no momento em que julgasse mais oportuno. Todos os deuses, se é que existiam, amaldiçoavam todos os gai-jin.

Saquê? — indagou Akimoto, um filete escorrendo pelo queixo.

— Quero, sim, obrigado. — O rosto de Hiraga se contraiu em ira.— Ori. Baka que ele tenha morrido antes que eu pudesse matá-lo!

— Tem razão. Mas agora ele morreu, assim como Shorin. Os dois só serviam para criar problemas, como todos os Satsumas. Os homens — ele se apressou em acrescentar, lembrando a irmã de Shorin, Sumomo —, não as mulheres.

— Os Satsumas são difíceis, concordo — murmurou Hiraga, com expressão sombria. — Quanto a Sumomo, não sei onde devo procurar notícias suas, onde ela se encontra, se chegou em casa sã e salva... talvez ela tenha levado semanas para voltar e mais semanas se passariam antes que o pai enviasse notícias para cá. Teríamos de esperar por uns dois meses, talvez três.

— Pediu a Katsumata para velar por ela. Ele deve ter espiões daqui até Quioto. E Sumomo sabe cuidar de si mesma. Terá notícias em breve. — Akimoto coçou a virilha, irritado. Era desconcertante ver Hiraga tão perturbado. — Já deve saber que estamos quase acuados aqui. As patrulhas de vigilantes do Bakufu foram reforçadas e vagueiam por toda parte, ao acaso. Todas as mama-sans andam nervosas; depois do tumulto de hoje é possível que Raiko... não nos deixe ficar por muito mais tempo.