Выбрать главу

— Ficaremos enquanto pudermos pagar. E, enquanto o túnel permanecer seguro, poderemos escapar pelo mar, se for necessário. Maldito Ori!

— Esqueça-o — disse Akimoto, impaciente. — O que devemos fazer?

— Esperar. Os gai-jin nos proporcionarão cobertura... Taira dará um jeito.

— Por causa de Fujiko? O homem é louco. O que ele vê naquela porca? Não consigo entender. Ela não passa de uma porca. — Akimoto soltou uma risada, passou os dedos pelos cabelos que começavam a crescer. — Acho que vou experimentá-la um dia desses, só para ver se ela tem algo especial... embora esteja contaminada.

— Experimente-a esta noite, se quiser. Taira não vai usá-la.

— Raiko já deve tê-la entregue a outros clientes... é gananciosa demais.

— Só que Fujiko já está paga.

— Como assim?

— Meu novo acordo é que Raiko não oferecerá Fujiko a outros sem que ela e eu concordemos primeiro... a fim de que eu possa mantê-la disponível para Taira a qualquer momento, em caso de necessidade. Experimente-a, se quiser. Ela é muito barata.

— Ainda bem. Preciso de todo o dinheiro que me resta. Raiko me arrancou um adiantamento, resmungando sobre a extensão do meu crédito. — Akimoto sorriu, esvaziou o saquê do frasco em seu copo. — Quero subornar um dos pescadores para me levar até a fragata... talvez eu consiga subir a bordo de um navio de guerra, fingindo vender peixe. Preciso conhecer o interior de uma casa de máquinas, de um jeito ou de outro.

O estômago tornou a se contrair quando ele pensou em sua própria visita.

— Talvez eu possa convencer Taira a me levar de novo, junto com você desta vez. Posso fingir que você é filho de um importante mercador de Choshu, construtor de navios, ansioso em fazer negócios com eles... mas todos os negócios devem ser mantidos em segredo do Bakufu.

Segredo? Por quanto tempo mais permaneceremos em segredo aqui? Um tremor percorreu o corpo de Hiraga.

— Faz frio esta noite — murmurou ele, para disfarçar o medo.

E Akimoto, mais uma vez, fingiu não perceber.

A poucos metros dali, Raiko, em seus aposentos, terminava de se maquilar e de se vestir para a noite. Decidiu pôr o novo quimono rosa. Uma garça enorme ornamentava as costas, bordada com filamentos de ouro. Cobiçara-o por muitos meses. Agora era seu, pago com parte do lucro imenso obtido na venda dos brincos de pérolas. Descobrira, ao final, que eram mais valiosos do que estimara.

O kami e os deuses que velam pelas mama-sans olhavam por mim naquele dia, pensou ela, feliz. Um grande negócio, todo o lucro lhe cabendo, menos a parte de Furansu-san. O dinheiro para o medicamento mal podia ser levado em consideração, embora ela tivesse registrado um débito substancial em seus livros. Raiko sorriu para si mesma. O custo nada representava, mas o conhecimento da planta, quem podia colhê-la, em que momento correto, como preparar a infusão, ah, tudo isso valia qualquer coisa que o mercado pudesse pagar.

— A princesa gai-jin será um valioso trunfo, a longo prazo — murmurou ela, contente, satisfeita com o que via no espelho de corpo inteiro.

Era o único moderno em toda a Yoshiwara, presente de um cliente, importado da Inglaterra especialmente para ela. Sua testa se franziu um pouco ao pensar nele: Kanterberri, o gai-jin que fora morto na Tokaidô por aqueles tolos, Ori e Shorin. Baka! Era um bom cliente, o que mais apreciava meus serviços para lhe oferecer a amante perfeita, Akiko, cujo nome é agora Fujiko... é muito conveniente para nós que nossos gai-jin ingleses raramente partilhem suas mulheres, preferindo fornicar em segredo, com uma única mulher, mantendo-a sem que ninguém mais saiba em nosso mundo flutuante, que se baseia na discrição e sigilo.

Taira não sabe de nada, Fujiko tem uma nova vida, um novo amante. É melhor para todos.

— O gai-jin Furansu-san acaba de chegar.

— Obrigada.

Raiko certificou-se de que a poção estava correta e colocou-a na mesa ao seu lado. Depois de manter André à espera pelo tempo apropriado, nem de menos, nem de mais, ela mandou chamá-lo.

— Ah, Furansu-san, seja bem-vindo à minha humilde casa. — Ela serviu seu melhor saquê em copinhos que pareciam dedais e fez um brinde. — Está com uma ótima aparência.

— Saúde! Dez mil verões — disse André, polido.

Raiko discorreu sobre o tempo e os negócios, só depois entrando no assunto principal.

— Sua escolna dos brincos foi mais perfeita do que eu imaginava e sua parte é pouco mais que o dobro do que pediu.

Os olhos de André se arregalaram.

— Tanto assim?

— É, sim.

Ela serviu mais saquê, exultante com sua perspicácia por conta de ambos depois que um acordo de negócios era acertado, tornava-se uma questão de honra fazer com que fosse cumprido de uma forma rigorosa.

— Meu banco, o Gyokoyama, encontrou o cliente certo, um mercador chinês de seda e ópio de Xangai, em visita a Kanagawa. — Outro sorriso e ela acrescentou suavemente: — Ele avisou que teria mercado para todas as jóias que eu possa fornecer.

O sorriso de André foi igual ao dela, ele tomou o saquê, estendeu o copo para uma nova dose, e fez um brinde:

— Às futuras jóias!

— A próxima coisa...

— Antes da próxima, Raiko. Por que ele pagou tanto?

— Em tempos difíceis, um homem sábio põe parte de sua riqueza em coisas pequenas, que possa carregar na manga. Ele não é tolo... cheguei até a pensar em ficar com os brincos, pelo mesmo motivo.

O interesse de André fora aguçado.

— Os tempos são difíceis na China?

— Ele disse que toda a China se encontra em revolta, a fome prevalece, os negócios dos gai-jin em Xangai são menores do que os habituais, mas agora que a esquadra inglesa devastou a costa de Mirs, afundando muitas embarcações dos piratas do Lótus Branco, as rotas marítimas se tornarão mais seguras, pelo menos por algum tempo, e o comércio ao longo do Yang-Tsé deva aumentar na primavera. Pelo que ouvi dizer, Furansu-san, eles afundaram centenas de juncos e massacraram milhares de pessoas, muitas aldeias viraram cinzas. — O medo de Raiko era evidente. — O poder de matança dos ingleses é terrível.

Ela estremeceu, sabendo que os japoneses podiam desprezar os chineses como fracos, mas partilhavam a mesma fobia: o temor aos gai-jin e a obsessão em mantê-los longe de suas terras para sempre.