— As esquadras gai-jin vão nos atacar quando voltarem?
— Vão, sim, Raiko, se o Bakufu não pagar o dinheiro das reparações. Haverá guerra. Não aqui, em Iocoama, mas em Iedo.
Raiko estudou seu copo por um momento, especulando como poderia se proteger ainda mais, e converter aquela informação em lucro, mais do que nunca convencida de que deveria, de alguma forma, livrar-se de Hiraga e Akimoto, antes que descobrissem que estava implicada no desastre de Ori, já que o abrigara, e aos outros dois, por mais justa que fosse a causa de Sonno-joi. Uma onda de apreensão a invadiu e ela se abanou, queixando-se de que o saquê era muito forte.
— Karma — murmurou ela, trocando o “pode ser” pelo “é”. — Agora, as boas notícias. Há uma moça que eu gostaria que você conhecesse.
O coração de André deu a impressão de que parava por um instante; quando recomeçou, estava mais fraco do que antes.
— Quando?
— Deseja vê-la antes de discutirmos as questões de negócios ou depois?
— Antes, depois, não faz diferença. Pagarei o que pedir, se ela me agradar.
Outra vez um dar de ombros gaulês, e o desespero patente e ostensivo. O que não deixou Raiko nem um pouco comovida. A fome de yang por yin é a essência do nosso mundo e, sem isso, o mundo flutuante não mais flutuaria.
É estranho que a obsessão de yang em se juntar a yin — entrando e saindo, arremetendo no portão, mais dor do que prazer, desespero ao final, desespero para continuar, se terminar nunca é suficiente, se não terminar é gemer pela noite afora — seja tão transitória, yin nunca absorvendo tudo. Nesse ponto, as mulheres são abençoadas, embora os deuses, se é que existem deuses, tenham conferido aos mortais um destino cruel.
Por três vezes tentei seguir adiante, sempre porque minha yin ansiava pelo possuidor de um yang em particular — quando um yang é sempre mais ou menos a mesma coisa —, sempre escolhas inúteis, que nada proporcionaram, além de sofrimento, sem qualquer futuro, e por duas vezes minha paixão não foi correspondida. Que absurdo! Por quê? Ninguém sabe.
E não importa. Agora, o anseio da yin pode ser saciado com a maior facilidade e para uma mama-san é até uma diversão. Sempre é fácil contratar um yang, ou harigata, ou convidar uma das damas para a sua cama. Fujiko, por exemplo, que parece apreciar a diversão, e cujos beijos podem ser celestiais.
— Raiko me conhece bem, não é mesmo? — indagou André.
Ela pensou: Claro que conheço.
— E eu conheço Raiko. Na verdade, não conhece.
— Somos velhos amigos, e amigos sempre se ajudam.
É verdade, tem toda razão, só que nós dois não somos velhos amigos — não no antigo sentido asiático — e nunca seremos. Afinal, você é um gai-jin.
— Furansu-san, velho amigo. Arrumarei um encontro, você e essa dama. André sentiu-se ansioso e tentou esconder.
— Está certo. Obrigado.
— Será em breve. Por último, o medicamento.
Raiko inclinou-se para o lado da mesa. O pequeno pacote fora amarrado com perfeição, num quadrado de seda castanho-avermelhada, uma apresentação sedutora, como se fosse um presente dispendioso.
— Escute com todo cuidado.
Mais uma vez, suas instruções foram explícitas. Ela fez André repetir, até ter certeza de que ele entendera tudo.
— Raiko-san, por favor, diga a verdade: o medicamento é perigoso, sim ou não?
— A verdade? Não sou uma pessoa séria? Sou Raiko das Três Carpas. Já não lhe disse tudo? É claro que pode ser perigoso e é claro que não é perigoso! Trata-se de um problema comum, que acontece durante todo o tempo, com todas as mulheres, e a cura raramente constitui um problema. Sua princesa é jovem e forte, e por isso deve ser fácil, sem problemas.
— Princesa? — André assumiu uma expressão brutal. — Sabe para quem é?
— Foi fácil adivinhar. Quantas mulheres existem na colônia, bastante especiais para que você as ajude? Não se preocupe, velho amigo. Segredo é segredo comigo.
Depois de uma pausa, ele perguntou:
— Qual é o problema possível?
— Dor de estômago e nenhum efeito, apenas muito enjoo. Neste caso, devemos tentar uma segunda vez, com um medicamento mais forte. Se isso não der certo, então há outro meio.
— Qual?
— Haverá tempo suficiente para falar disso mais tarde. — Confiante, Raiko afagou a seda. — Isto deve ser tudo o que é necessário.
28
— Você compreendeu tudo, Angelique?
— Claro, André — respondeu ela, os olhos fixados no embrulho de seda. Sua salvação estava ali, em cima da mesa de André Poncin. Falavam em voz baixa, apesar de manter a porta da sala fechada, como precaução contra ouvidos indesejáveis.
O relógio bateu dez horas da noite. Ele tornou a fitá-la, inquieto.
— A mama-san disse que seria melhor se você estivesse em companhia de sua criada.
— Isso não é possível, André. Não posso confiar em Ah Soh, nem em qualquer outra pessoa... não disse isso a ela?
— Disse, mas foi o que ela falou.
Da outra extremidade do corredor vinham os sons abafados de homens rindo, à mesa de jantar, da qual ela acabara de se retirar — Seratard, Vervene, Dmitri e uns poucos oficiais franceses — alegando cansaço e que queria se deitar cedo. Indo para sua suíte por acaso avistara André em sua sala, conforme a combinação anterior.
— Acho que nós... é melhor verificarmos se está tudo aí.
Ele não fez o menor movimento para abrir o embrulho. Em vez disso, limitou-se a ajeitar um canto, com evidente nervosismo.
— Se Ah Soh não estiver presente para ajudar, quem... quem vai dar um jeito... jogar fora os vidros e ervas... você não pode deixar tudo no quarto, e ainda precisará de alguém para fazer a limpeza.
Por um momento, o cérebro de Angelique ficou confuso, pois não considerara esse problema.
— Hum... não precisarei de ajuda, não haverá... nada além dos vidros e ervas... e toalhas. Não posso confiar em Ah Soh, é óbvio que não posso confiar nela, nem em qualquer outra pessoa, exceto você. Não precisarei de ajuda.
Sua ansiedade em iniciar o tratamento e acabar com aquilo para sempre prevalecia sobre todas as preocupações que a angustiavam.
— Não se preocupe. Trancarei a porta e... direi a ela que vou dormir até tarde e não quero que ninguém me incomode. Afinal, tudo deve terminar em poucas horas, até o amanhecer, não é mesmo?