— Eu... perdi uma assim... tem certeza que é minha? Onde a encontrou?
— Pendurada no pescoço do intruso.
— No pescoço dele? Mas... que coisa estranha!
Angelique ouviu sua voz, observou a si mesma, como se fosse outra pessoa, forçando-se a manter o controle, embora sentisse vontade de gritar bem alto, pois sabia que se encontrava de novo numa situação crítica... enquanto seu cérebro, frenético, procurava por uma explicação plausível.
— Pendurada no pescoço daquele homem?
— Isso mesmo. Eu a tirei do cadáver. Na ocasião, não pensei duas vezes a respeito, só me ocorreu que ele era um convertido católico. Depois, quase que por acaso, vi a inscrição... mal dá para notar. — Uma risada curta e nervosa. — Minha visão é melhor do que a de Hoag. “Para Angelique, de Mama, 1844.”
A boca de Angelique murmurou:
— Pobre mamãe... ela morreu ao dar à luz meu irmão, apenas quatro anos depois.
Ela viu seus dedos pegarem a cruz, os olhos examinarem-na, meio contraídos à luz do lampião a óleo, incapazes de ler com clareza a inscrição mínima... e amaldiçoando a escrita. O instinto logo a dominou, e ela disse:
— Eu a perdi, ou pensei ter perdido, na Tokaidô, talvez em Kanagawa, na noite em que fui visitar Malcolm, lembra?
— Claro que lembro. Uma noite terrível, depois de um dia terrível. — Babcott levantou-se, hesitante. — Eu... hum... achei que devia devolvê-la.
— Obrigada. Fico contente por tê-la de volta. Muito contente mesmo. Mas, por favor, sente-se de novo, fique mais um pouco — convidou Angelique, por mais que quisesse que ele fosse logo embora. — Quem era ele... aquele homem, como encontrou a cruz? E onde?
— Nunca saberemos, não agora. — Babcott observou-a por um momento. -— Malcolm lhe contou que achamos que era um dos demônios assassinos da Tokaidô, embora nem ele nem Phillip tivessem certeza?
Apesar do seu medo, debatendo-se naquela nova armadilha, Angelique experimentou um impulso quase irresistível de cair numa gargalhada histérica e dizer: Ele não era um demônio, não para mim, não na primeira vez, deixou-me viver naquela ocasião, e também não foi um demônio depois que lhe tirei a roupa. Não me matou, embora eu soubesse que era essa a sua intenção, tenho certeza de que faria isso, um momento antes de eu persuadi-lo a partir... Não, não era um demônio, mas mesmo assim merecia morrer, tinha de morrer...
Mon Dieu, ainda nem sei o seu nome, fiquei tão confusa que me esqueci de perguntar... devo estar enlouquecendo por pensar nessas coisas.
— Quem era ele?
— Ninguém sabe. Ainda. O rei de Satsuma pode dizer o seu nome, agora que ele morreu, mas é bem provável que dê um nome falso. São todos mentirosos... não é bem assim, acontece apenas que aquilo a que chamamos de mentira parece ser um modo de vida para eles. O homem deve ter encontrado a cruz em Kanagawa. Não lembra exatamente quando descobriu que a perdera?
— Não, não lembro. Só percebi quando voltei para cá. — Ela tornou a constatar que os olhos de Babcott a sondavam bem fundo, e sua mente bradou: Minha pulsação ou pulsações lhe revelaram a minha verdadeira condição? — Mas foi encontrada, graças a Deus. Não tenho palavras para agradecer. Mas por que ele a usava é uma coisa que não consigo entender.
— Concordo que é muito estranho. O silêncio foi se tornando opressivo.
— O que o Dr. Hoag acha?
Babcott fitou-a nos olhos, mas ela não foi capaz de ler o que ele de fato pensava.
— Não perguntei. Preferi não conversar a respeito com ele, nem com Malcolm. — Seus olhos tornaram a se fixar nos de Angelique, deram a impressão de que assumiam uma cor mais profunda. — Hoag é um homem da Struan... e sua tigela de arroz vem de Tess Struan. Não sei por que, mas achei que deveria conversar com você primeiro.
Outra vez um silêncio prolongado. Angelique desviou os olhos, sem confiar em si mesma, desejando poder confiar no médico, querendo confiar em mais alguém além de André — o fato de ele saber já era bastante terrível —, mas convencida de que isso era impossível. Tinha de se ater ao plano: estava sozinha, devia se salvar por si mesma.
— Talvez... não, com certeza, ele deve ter encontrado minha cruz em Kanagawa, deve ter me visto ali, e talvez... — Ela fez uma pausa, e logo acrescentou, apressada, persuadindo-o, inventando enquanto falava: — Talvez ele a tenha guardado para se lembrar de mim... não sei realmente... para quê?
Babcott comentou, contrafeito:
— Obviamente, minha cara, com a intenção de atacá-la, de possuí-la, de uma forma qualquer, para matá-la. Desculpe, mas deve ser essa a verdade. Pensei a princípio, como todos os outros, que ele era apenas um desses proscritos chamados ronin, mas sua cruz mudou essa perspectiva. No momento em que descobri que pertencia a você... como disse, ele deve tê-la visto na Tokaidô, seguiu Malcolm e Phillip Tyrer até Kanagawa, junto com o outro, pretendendo liquidá-los, talvez para evitar a identificação. Foi então que tornou a vê-la, encontrou a cruz e decidiu guardá-la, só porque era sua. Perseguiu-a até aqui, tentou entrar em seu quarto, querendo... desculpe ter de dizer de novo... querendo possuí-la a qualquer custo. Não se esqueça de que seria fácil para um homem assim sentir-se atraído por uma mulher como você, ficar completamente obcecado.
Pelo modo como ele falou, deixou claro que também se encontrava sob o encantamento de Angelique. Ainda bem que ele compreendeu a verdade, pensou ela, aliviada por outro risco ter sido eliminado. Sua mente desviou-se para os vidros e para o dia seguinte, quando estaria purificada, pronta para iniciar uma vida nova, com um futuro maravilhoso.
— Os japoneses são curiosos — continuou Babcott. — Diferentes. Acima de tudo, diferentes num ponto importante, o de não terem medo de morrer. Quase que dão a impressão de que procuram a morte. Você teve muita sorte em escapar. Bom, acho melhor eu ir agora.
— Muito obrigada por tudo. — Ela pegou a mão de Babcott, comprimiu-a contra seu rosto. — Vai contar a Malcolm e ao Dr. Hoag? Assim acabaremos logo com isso.
— Deixarei Malcolm aos seus cuidados. — Por um instante, ele pensou em pedir a ajuda de Angelique para o problema do vício em ópio de Malcolm, mas concluiu que ainda não era uma coisa urgente; além do mais era responsabilidade sua, não dela. Pobre Angelique, já sofreu demais. — Quanto a Hoag, por que isso seria da sua conta ou dos intrometidos e intrigantes de Iocoama? Não é da conta deles, nem da minha, não é mesmo?
Ele contemplou os olhos claros de Angelique, no rosto risonho e radiante, a pele translúcida, toda ela irradiando juventude e saúde, com a sensualidade magnética e inconsciente que sempre a envolvia, e que parecia ter aumentado de poder, contra todas as expectativas médicas. Espantoso, pensou Babcott, sentindo a maior admiração por tamanha flexibilidade. Eu gostaria apenas de conhecer seu segredo, descobrir por que algumas pessoas vicejam em adversidades que destruiriam a maioria das outras.