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Abruptamente, a sua parte de médico desapareceu. Não posso culpar aquele ronin, nem Malcolm, nem qualquer outro homem, por ser louco por ela, pois também a desejo.

— É curioso o que aconteceu com sua cruz — murmurou ele, a voz meio rouca, nem um pouco envergonhado por isso. — Mas também a vida é uma sucessão de curiosidades, não é mesmo? Boa noite, minha cara. Duma bem.

A primeira cólica arrancou-a de um sono irrequieto, povoado por demônios aprisionados, grosseiros, estupradores com olhos negros como carvão, as mulheres grávidas, os homens com chifres, afastando-a de Tess Struan, que montava guarda sobre Malcolm como um espírito maligno. Uma segunda cólica veio logo em seguida, e despertando-a para a realidade, para o que estava acontecendo.

O alívio por ter começado ofuscou as horas anteriores de apreensão, que lhe pareceram uma eternidade antes de conseguir adormecer. Passava um pouco das quatro horas da madrugada agora. Eram quase duas e meia na última vez em que consultara o relógio. Outra cólica, mais forte do que a anterior, sacudiu todo o seu corpo, levando-a a se concentrar na seqüência.

Os dedos trêmulos tiraram a rolha do segundo vidro. Outra vez ela engasgou com o gosto pútrido e quase vomitou o líquido, mas conseguiu mantê-lo no estômago, que se contraía em repulsa, com a ajuda de uma colher de mel.

Recostou-se nos travesseiros, ofegando. Um fogo parecia se espalhar, a partir do estômago. Em poucos momentos, o suor porejou por todo o corpo. Mas logo passou, deixando-a inerte, encharcada, mal respirando.

Esperando. Como antes, nada. Apenas uma inquietação nauseante, a mesma que experimentara antes, após horas de ansiedade, ao mergulhar no sono perturbado. Sua consternação aumentou.

— Santa Mãe, faça com que funcione — balbuciou ela, em meio às lágrimas. Mais espera. Ainda nada. Os minutos foram passando.

E então, ao contrário de antes, uma cólica surpreendentemente diferente quase a dobrou. Outra. Apenas suportável. Mais, ainda suportável. Ela se lembrou da segunda metade da infusão, sentou na cama, começou a tomá-la, aos goles. O gosto era ruim, mas não tanto quanto o líquido nos vidros.

— Graças a Deus não tenho mais que beber aquilo — murmurou ela. Tomou outro gole. E mais outro. Depois de cada gole, uma mordida no chocolate...

Outras cólicas, mais fortes agora. Num ritmo crescente. Não se preocupe, tudo está acontecendo conforme André explicou, pensou ela. Os músculos da barriga começavam a parecer distendidos e doloridos. Mais goles, mais cólicas, e depois o último gole desceu por sua garganta. O pote de mel quase vazio... o resto do chocolate, mas agora nem mesmo sua doçura podia se sobrepor ao gosto bilioso. Uma aragem passou por baixo da porta do boudoir, balançando a chama do lampião na mesa ao lado da cama, fazendo com que as sombras na parede mudassem e dançassem. Com o maior estoicismo, Angelique recostou-se, contemplou-as, as mãos comprimindo a barriga contra as pontadas de dor, os músculos contraindo-se e relaxando, cada vez mais tensos, saltando sob seus dedos.

— Observe as sombras, pense em coisas boas — sussurrou ela. — O que você vê?

Navios e velas, os telhados de Paris, arbustos, ali está a guilhotina, não, não a guilhotina, mas um caramanchão, coberto por roseiras por que é o nosso chalé no campo, perto de Versailhes, para onde iríamos na primavera e o verão, enquanto crescíamos, meu irmão e eu, a querida mamãe, há tanto morta, e o pai, que só Deus sabe onde se encontra, a tia e o tio nos amando, mas não sendo capazes de substituir a queri...

— Oh, Mon Dieu! — balbuciou ela, quando o primeiro dos violentos espasmos a dominou.

Soltou um grito no seguinte, enfiou parte do lençol na boca, frenética, a fim de sufocar os berros, que saíam contra a sua vontade, e teriam atraído todo mundo na legação, para bater na porta trancada.

E foi então que começaram os calafrios. Pingentes de gelo em suas entranhas. E mais violência, vinte vezes pior do que em suas piores cólicas mensais. O corpo estremecia sob a pressão, pernas e braços se agitavam no ritmo das ondas de tormento que subiam da virilha para a cabeça.

— Vou morrer... vou morrer... — gemeu Angelique, os dentes rangendo no lençol, abafando os gritos.

Mais e mais espasmos, mais e mais calafrios, até que tudo cessou. Abruptamente.

A princípio, ela pensou que morrera de fato, mas logo os sentidos recuperaram o foco e percebeu que o quarto parara de girar, a chama do lampião se tornara baixa, mas ainda ardia, pôde ouvir o tiquetaque do relógio. Os ponteiros indicavam 5:42 h.

Angelique fez um esforço para sentar na cama, sentindo-se horrível. Uma olhada no espelho de mão assustou-a. O rosto pálido, cabelos grudados na cabeça pelo suor, lábios descoloridos pelo medicamento. Enxaguou a boca com um pouco do chá verde, cuspiu no urinol, que tornou a empurrar para baixo da cama. Encontrou a maior dificuldade para tirar a camisola suja, usou uma toalha úmida para limpar o rosto e o pescoço da melhor forma que podia, escovou os cabelos e tornou a se estender na cama, exausta, mas sentindo-se melhor pelos cuidados que se dispensara. Foi só nesse momento que notou a mancha vermelha na camisola, jogada ao acaso no tapete puído.

Um rápido exame confirmou que o sangue continuava a escorrer. Ela ajeitou uma toalha limpa entre as pernas e recostou-se mais uma vez, perto do amanhecer, quase afundando no colchão de fadiga. Um calor espalhou-se pelo corpo cansado. O fluxo aumentou.

29

Domingo, 9 de novembro:

Ilustre Chen disse para lhe contar tudo o que possa afetar o tai-pan, irmã mais velha — Ah Soh sentiu-se apreensiva. — Uma noite antes de Púbis Dourado iniciar sua purgação do mês, ela...

— Ah, então foi por isso que ela ficou na cama e não viu meu filho — comentou Ah Tok. Estavam em seu quarto, no final do corredor, a salvo de ouvidos bisbilhoteiros. — Ele ficou como uma criança na dentição durante o dia inteiro, pior esta manhã. É tempo de voltarmos para casa.

— Tem razão. Mas escute o resto: ela diz que é a purgação do mês, mas conheço suas datas tão bem quanto as minhas. Não parece possível. Normalmente, ela é como qualquer jovem virgem civilizada, regular, mas...— Ah Soh puxou sua bata, nervosa. —... mas agora me lembro, a última foi bastante escassa, quase como se a tivesse perdido.

A mulher mais velha arrotou, levou um palito aos dentes.

— Perder, ou ter pouco, ou ser irregular, com toda a ansiedade pelos ferimentos de meu filho, e pelos bárbaros infames e assassinos que nos cercam aqui, é uma coisa comum, não há nada de excepcional.

Na mesa entre as duas havia várias tigelas, com os restos do almoço de Ah Tok: sopa agridoce, ensopado de legumes fritos, peixe com gengibre e soja, iscas de carne de porco em molho de feijão preto, camarões ao alho e arroz.