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— É normal, irmã mais nova — acrescentou Ah Tok.

— O que não é normal é que na manhã de ontem, quando levei seu chá e água quente para o banho, tive de bater várias vezes para despertá-la e ela não me deixou entrar, apenas gritou rudemente “Vá embora!”, através da porta, naquela sua voz vulgar, e depois... — Ah Soh pediu-lhe que baixasse a voz, numa atitude dramática. —... apenas poucos minutos mais tarde, Grande Nariz Pontudo, aquele outro tipo de demônio estrangeiro que os nossos demônios estrangeiros chamam de comedores-de-rãs, bateu de leve na porta, assim... — Ela bateu na mesa três vezes e, depois, uma quarta. — E ela o deixou entrar no mesmo instante!

Ah Tok piscou os olhos, surpresa.

— No mesmo instante? Ele? O francês? Ela deixou aquele homem entrar, mas não a você? E você viu isso?

— Vi, sim, mas ele não me viu.

— Foi muita esperta, irmã mais nova. Continue.

— Ele ficou lá dentro por alguns minutos e saiu carregando coisas embrulhadas num pedaço de seda marrom. Como um ladrão na noite mais escura. Mas não me viu a espioná-lo. — Ah Soh fez uma pausa, adorando, como todos os chineses, ser a mensageira de intrigas e segredos. — Também não me viu quando o segui.

— Por todos os deuses, grandes e pequenos, é mesmo? — Ah Tok serviu dois copos do madeira, que ambas saborearam. — Vida longa, irmã mais nova, que o seu portão de jade nunca a incomode. Continue.

— Ele desceu até a praia, entrou num bote e remou para o mar. Depois de algum tempo, eu o vi largar o que tirara do quarto na água.

— Não!

— É verdade. Ele voltou em seguida, mas não me viu. Em momento nenhum.

— O que podia ter sido?

Ah Soh inclinou-se mais um pouco.

— Quando miss me deixou entrar, olhei ao redor com a maior atenção. Sua cama e camisola estavam encharcadas de suor, e ela parecia ter sofrido um acesso da febre do Happy Valley. Suas toalhas íntimas se encontravam encharcadas também, mais pesadas do que habitualmente. Ela me mandou limpar tudo, trazer toalhas quentes, e não deixar ninguém entrar... nem mesmo o tai-pan. Assim que acabei o que era necessário, ela arriou na cama e voltou a dormir.

— Isso não é estranho, mas a presença de Nariz Pontudo é! — Ah Tok balançou a cabeça, ponderada. — É como bosta de burro, brilhante por fora, mas nem por isso deixa de ser bosta. É evidente que ele jogou fora alguma coisa por ela.

Ah Soh hesitou.

— Seu honrado filho... há alguma possibilidade de que ele tenha deitado com a miss?

Ah Tok soltou uma risadinha.

— Tenho certeza que tentou, mas Púbis Dourado não permitiu que seu talo celestial desfrutasse o rompimento de seu portão, embora ela o pavoneie sempre que pode. Ouvi-o balbuciando o nome dela no sono, pobre coitado. Uma coisa horrível. Se ela fosse uma pessoa civilizada, eu poderia acertar o preço e estaria tudo resolvido.

Ah Soh observou Ah Tok pegar um pedaço da cabeça do peixe com os pauzinhos, pensativa, limpar a espinha e cuspi-la na tigela. A mulher mais jovem teria com o maior prazer partilhado aquelas sobras, já que seu cozinheiro não era tão bom quanto o de Ah Tok.

— Como anda o seu cozinheiro agora? — perguntou ela, com um ar inocente.

— Melhorando. O cão vem da minha aldeia e por isso parecia prometer. Continuo a treiná-lo, é claro. — Ah Tok fez uma careta. — Desconcertante, irmã mais nova. Como está a imperatriz hoje?

— Irritada, como sempre. O fluxo continua, mais forte do que o normal.O gigante da medicina foi vê-la esta manhã, mas ela não o recebeu, pediu que eu o mandasse embora. Há alguma coi...

— Ela já viu meu filho?

— Vai se encontrar com ele esta tarde.

— Ótimo. Hoje a língua dele parece uma áspide, por causa da mãe. Nariz Pontudo e Púbis Dourado numa conspiração secreta? Isso cheira mau, muito mau. Mantenha os olhos e ouvidos bem abertos, irmã mais nova.

— Há mais uma coisa.

Ah Soh revirou os olhos em excitamento. Enviou a mão no bolso, pôs uma rolha em cima da mesa. A parte inferior tinha uma mancha púrpura, quase preta.

— Encontrei isto debaixo da cama, quando me abaixei para pegar o urinol. O rosto encarquilhado de Ah Tok contraiu-se ainda mais, em perplexidade.

— E daí?

— Cheire, irmã mais velha.

Ah Tok obedeceu. O odor era pungente, um pouco familiar.

— Oque é?

— Não tenho certeza... mas para mim o cheiro é de Escuro da Lua. Acho que o vidro que essa rolha tapava continha Escuro da Lua... junto com outras ervas.

A mulher mais velha soltou uma exclamação de espanto.

— O expulsor? Para causar um aborto? Impossível! Por que ela haveria de fazer isso?

— Seria terrível para seu filho ser chamado de pai antes do casamento, não é mesmo? Sabe como os demônios estrangeiros são com o casamento, escândalos e virgindade, nada de fornicação antes do casamento... o homem é sempre o culpado, uma tolice. Seria ruim para seu filho. Teria que dar explicações a tai-tai Tess e também ao mesquinho e vingativo deus dos demônios estrangeiros.

As duas mulheres estremeceram. Ah Tok tornou a farejar a rolha.

— Acha que Nariz Pontudo jogou o vidro no mar?

— Também está faltando um bule de chá, que pode ter servido para as outras ervas. Ela havia pedido também água quente e mel.

— Para tirar o gosto! É isso mesmo! — Solene, Ah Tok acrescentou:— Meu filho é... é bastante desequilibrado por essa mulher.

— O que devemos fazer?

— Agiu bem ao me contar. Escreveremos para ilustre Chen e mandaremos a rolha para ele, pela primeira correspondência. Ele saberá se você está certa e nos dirá o que fazer.

Trêmula, Ah Tok serviu mais vinho para ambas.

— Mantenha os olhos bem abertos, fique de boca fechada como uma ostra, e farei a mesma coisa... nem uma única palavra para ela, meu filho, ou qualquer outra pessoa, até que o ilustre Chen nos diga o que fazer.

Malcolm Struan claudicava pela High Street, a caminho do prédio Struan, apoiado em suas bengalas. O céu estava nublado, um vento fraco soprava do mar, a tarde era fria, e sua preocupação mais angustiante desaparecera. Vira Angelique, convencendo-se de que ela estava bem, mais adorável do que nunca, embora pálida e sonolenta, fizera isso. Permanecera em seu quarto por alguns minutos apenas, não querendo cansá-la.

Alguns mercadores montados pararam seus cavalos, polidamente, para deixá-lo passar, erguendo os chicotes em saudação.

— Bom dia, tai-pan — disse Lunkchurch, tão risonho quanto os outros. — Estará no clube ao pôr-do-sol?