— Oh, Deus! -— Struan estava transtornado, Jamie roxo e Dmitri em choque. — Como vamos negociar com a China? Ópio por prata, e...
— O Parlamento não se importa com o nosso triângulo celestial — comentou Norbert, sombrio. — Não se interessa pela Ásia, a China ou o comércio, só se preocupa em permanecer no cargo. Querem replantar toda a área com chá.
Ele tornou a guardar o papel na pasta, sentou de novo à mesa, sabendo que os outros adorariam conhecer a veracidade do documento e o que mais continha.
— O velho mandou dizer a vocês que temos um informante próximo do gabinete do primeiro-ministro, que suas revelações sempre se mostraram autênticas no passado, e essa é a verdade de Deus. Declarou também que temos de afastar essa dupla, e depressa. Dmitri, você deve pressionar pelo seu lado. Tyler garante que faremos tudo o que for necessário, e pede a vocês para agirem da mesma forma. Concordam?
— Claro que concordo — respondeu Dmitri. — Não dá para acreditar.
— Eu também concordo. — Struan ergueu seu copo, especulando onde estaria a armadilha de Tyler Brock. — Que eles venham a arder no inferno.
Solenes, os outros beberam junto com ele. Norbert tornou a encher os copos. Seu rosto se contraiu ao focalizar Struan.
— O próximo assunto: todos estão a par do nosso duelo. Não preciso de padrinhos e marcamos para o amanhecer de quarta-feira. Sinto muito, mas parto no Ocean Witch esta noite, por ordem de Tyler. Portanto, a quarta-feira está cancelada. Sugiro...
— Por que adiar, se ainda resta bastante claridade agora?
As palavras saíram antes que Malcolm pudesse contê-las e ele sentiu-se satisfeito por ter reagido com tanta rapidez e firmeza, embora tivesse a súbita impressão de que o cérebro se dilatara. Jamie empalideceu, o silêncio prolongou-se.
— Não agora. — Os olhos faiscando, escondendo seu divertimento, Norbert virou-se para Jamie e Dmitri, os padrinhos formais de Malcolm. — Sugiro que adiemos, num acordo de cavalheiros, até meu retorno, daqui a umas três semanas, está bem? Poderá então ser no dia seguinte, ou em qualquer outra data que escolherem.
— Acho melhor assim — disse Jamie. — Concorda, tai-pan? Depois de um momento, a pressão na cabeça de Struan se dissipou.
— Concordo.
Ele não se sentia satisfeito, nem desapontado, apenas contente por haver reiterado o desafio. Não notou que Jamie e Dmitri disfarçavam seu alívio. Terminaram seus drinques e se retiraram.
Assim que ficou a sós, Norbert pegou a carta de Tyler Brock e releu-a, as palmas suadas. A primeira parte versava sobre as informações do espião e finalizava assim: “Leve o seu rabo para o Ocean Witch e parta com a primeira maré cheia, só você, sem outros passageiros. Traga seus livros, o contrato de exploração de ouro com os japas e todos os lingotes em seu poder. Vamos nos encontrar em Xangai, em segredo. — é o primeiro porto de escala do Witch, embora o manifesto diga que seguirá direto para Hong Kong —, Morgan, eu e você, o mais depressa possível, sem que ninguém saiba. Quando voltar a Iocoama, talvez passe a dormir no quarto de Malcolm Struan, é isso mesmo, com a língua de sua prostituta babando em você, se isso for do seu agrado... pois muito em breve ela também estará à venda. Acabamos de saber que o pai dela fugiu de Bangkok, como já havia fugido de Hong Kong, após cometer mais fraudes e trapaças. Desta vez são as autoridades franceses que estão à sua procura. E vão capturá-lo, julgá-lo e depois a guilhotina... os franceses não são como os nossos peelers, sempre delicados. Missus manda lembranças.”
30
QUIOTO
Domingo, 16 de novembro:
Muito depois do escurecer, Yoshi e sua guarda, em silêncio e disfarçada com roupas de soldados comuns, seguiam cansados pelas ruas desertas da cidade adormecida, a antiga capital, onde os imperadores e a corte imperial haviam vivido por séculos.
A cidade fora construída ao estilo chinês, com ruas retas, as ruas transversais formando ângulos retos, com o vasto palácio proibido e seus jardins na área central. Apenas os telhados podiam ser avistados por trás dos muros altos... com seis portões. Yoshi evitou-os com o maior cuidado, querendo se esquivar às patrulhas de Ogama e aos samurais que guardavam os portões. Ao chegar ao complexo do xogunato, sem ser anunciado, ele foi direto para seus aposentos, e logo afundou agradecido num banheira fumegante, em que oito pessoas caberiam com a maior facilidade.
— Quantos guerreiros tenho em Quioto, Akeda? — perguntou ele, as dores dos dias de marcha forçada começando a desaparecer.
Com expressão sombria, o velho general arriou na água, com apenas um metro de profundidade, ao seu lado. A casa de banho situava-se no reduto interior, todas as criadas haviam sido dispensadas, e sentinelas postadas nos acessos.
— Oitocentos e dois, dos quais oitenta estão doentes ou se recuperando de ferimentos, todos jurados a você, todos de confiança, todos montados. Mais os dezoito que você trouxe.
No momento em que Yoshi chegara, Akeda dobrara a guarda. Era um hatomoto vigoroso, de uma família que servia há gerações ao clã Toranaga, e agora comandava sua guarnição em Quioto.
— Não é o suficiente para protegê-lo — acrescentou ele, em sua voz rouca.
— Estou seguro aqui.
Pela lei do legado, aquele era o único complexo defensável em Quioto, capaz de alojar cinco mil homens, se fosse necessário, todos os outros daimios restritos a um máximo de quinhentos homens — com não mais que dez daimios juntos em Quioto em qualquer momento, suas idas e vindas controladas com rigor. O tempo e o fraco Conselho de Anciãos reduziram o efetivo do xogunato a menos de mil.
— Duvida disso, Akeda?
— Dentro dos nossos muros, não. Referia-me ao exterior.
— Aliados? Com quantos daimios posso contar?
Akeda deu de ombros, irritado.
— Foi um grande erro se sujeitar a tamanho risco, viajando com poucos guardas, e ainda mais perigoso vir para Quioto. Se eu tivesse sido avisado antes, poderia sair para encontrá-lo com um destacamento e escoltá-lo até aqui. Se seu pai estivesse vivo, teria proibido essa...
— Mas meu pai não está vivo. — Os lábios de Yoshi se contraíram numa linha dura. — Aliados?
— Se erguesse seu estandarte em Quioto, Sire, seu estandarte pessoal, a maioria dos daimios e a maioria dos samurais correriam para o seu lado, aqui e por toda a terra, mais do que o suficiente para impor qualquer coisa que quisesse.
— Isso pode ser interpretado como traição.
— Sinto muito, mas a verdade é, em geral, traiçoeira no seu nível, lorde... e muito difícil de se encontrar. — O rosto velho e enrugado se desmanchou num sorriso. — A verdade: se erguer a bandeira do xogunato, não terá o apoio de quase nenhum dos daimios daqui contra Ogama de Choshu, não enquanto ele controlar os portões.