— Quantos samurais Ogama mantém aqui?
— Dizem que mais de dois mil, homens escolhidos a dedo, todos em casas de guarda fortificadas ao redor do palácio, perto dos guardas nominais em nossos portões. — Akeda tornou a sorrir, sem humor, ao ver os olhos de Yoshi se contraírem. — Todo mundo sabe que é contra a lei, mas ninguém lembrou a ele, ninguém resistiu. Ogama vem trazendo seus homens em grupos de dez e vinte desde que expulsou a raposa velha do Sanjiro, com Katsumata e seus Satsumas. Já sabe que eles escaparam de barco para Kagoshima?
Akeda arriou ainda mais na água, antes de acrescentar:
— Correm rumores que Ogama tem mais dois a três mil samurais de Choshu numa distância de dez ri.
— É mesmo?
— Seu controle sobre Quioto aumenta mais um pouco a cada dia, suas patrulhas dominam as ruas, exceto pelos bandos ocasionais de shishi, que lutam com qualquer um que eles imaginem que não respeita Sonno-joi, nós em particular, e todos os aliados do xogunato. São tolos, porque também nos opomos aos gai-jin e seus nefandos tratados, queremos que sejam expulsos.
— Os shishi estão muito fortes aqui?
— Estão, sim. Circulam rumores de que se preparam para algum golpe grande. Há cerca de uma semana alguns deles atacaram uma patrulha de Ogama, chamando-o abertamente de traidor. Ogama ficou furioso e, desde então, vem caçando-os. Há...
Uma batida na porta interrompeu-o. O capitão da guarda abriu a porta.
— Com licença, lorde Yoshi. Um emissário de lorde Ogama está no portão, solicitando uma audiência.
Os dois homens ficaram surpresos. Yoshi disse, irritado:
— Como ele descobriu que cheguei? Percorremos disfarçados as últimas cinqüenta ri. Esperei nos arredores de Quioto até escurecer, contornamos as barreiras, e não deparamos com nenhuma patrulha. Deve haver um espião aqui.
— Não há espiões aqui dentro — garantiu Akeda. — Juro por minha cabeça, Sire. Lá fora, há legiões, por toda parte, espiões de Ogama, os shishi, e outros... e não é um homem que consegue se disfarçar com facilidade, Sire.
Yoshi tomou uma decisão.
— Capitão, diga a ele que estou dormindo e não posso ser incomodado. Peça-lhe para voltar pela manhã, quando será recebido com todas as honras.
O capitão fez uma reverência, já começava a se retirar quando Akeda acrescentou:
— Ordene um alerta total para a guarnição inteira!
Assim que voltaram a ficar a sós, Yoshi disse:
— Acha que Ogama ousaria me atacar aqui? Seria uma declaração de guerra.
— Não estou interessado no que ele pode ousar, Sire, mas apenas na sua segurança. É minha responsabilidade agora.
O calor da água se infiltrava agora pelas articulações de Yoshi e ele se recostou, deixando que a sensação agradável o envolvesse, contente por Akeda estar no comando, tranquilizado por sua presença, embora não se influenciasse por suas opiniões. Não previra ser descoberto tão depressa. Ora, não importa, pensou ele, meu plano ainda é bom.
— Quem é o adepto subserviente de Ogama, seu intermediário na corte?
— O príncipe Fujitaka, primo em primeiro grau do imperador... o irmão de sua esposa é o camareiro imperial.
Yoshi soltou um assovio, e o general acenou com a cabeça, sombrio.
— Muito difícil romper um vínculo assim, a não ser com uma espada.
— Impensável! — sentenciou Yoshi, que pensou: a menos que seja possível. De qualquer forma, era uma estupidez dizer algo assim em voz alta, mesmo em particular. — Quais são as notícias sobre o xógum Nobusada e a princesa Yazu?
— São esperados dentro de uma semana e... Yoshi levantou os olhos abruptamente.
— Eles não deveriam chegar por mais duas ou três semanas.
A voz do velho soou ainda mais rouca:
— A princesa Yazu ordenou que a comitiva voltasse à Tokaidô e continuasse pelo caminho mais curto, sem dúvida ansiosa em ver o irmão, levar o marido para demonstrar sua submissão, contra toda a tradição... e acabar com o xogunato o mais depressa possível, entregar o comando a Ogama.
— Mesmo aqui, velho amigo, deve tomar cuidado com o que diz.
— Estou muito velho para me preocupar com isso agora... agora que seu pescoço se encontra entre as garras de Ogama.
Yoshi chamou as criadas para que trouxessem toalhas e enxugassem os dois, ajudando-os a vestir yukatas limpos. Pegou suas espadas e disse, por fim:
— Desperte-me ao amanhecer, Akeda. Tenho muito o que fazer.
Pouco antes do amanhecer, nos subúrbios ao sul, onde o rio fazia uma curva para o sul, na direção de Osaca e do mar, a vinte e tantas ri de distância, onde os caminhos, ruas e vielas eram irregulares e tortuosos, tão diferentes da rigidez das linhas retas da parte central da cidade, onde era intenso o cheiro de fezes, lama e vegetação em decomposição, Katsumata, o líder dos shishi de Satsuma e confidente de lorde Sanjiro, acordou de repente, saiu de baixo das cobertas e ficou de pé no aposento escuro, escutando com o máximo de atenção, a espada de prontidão.
Nenhum som de perigo. Lá de baixo vinham os sons abafados das criadas e servos, acendendo os primeiros fogos do dia, cortando legumes, preparando os alimentos. Seu quarto era no segundo andar, sob as vigas, na Estalagem dos Pinheiros Sussurrantes. Um cachorro latiu à distância.
Há alguma coisa errada, pensou ele.
E foi abrir a porta, sem fazer barulho. Havia mais quartos ao longo do corredor, três ocupados por outros shishi, dois em cada um. O último era para as mulheres da estalagem.
Num lado, havia uma pequena janela, dando para o pátio. Nada se mexia lá embaixo. Mais uma vez, seus olhos esquadrinharam a área, o portão, a rua além. Nada. De novo. Nada. E, de repente, um brilho, mais sentido do que visto. No mesmo instante, Katsumata abriu as portas e sussurrou a palavra código. Os seis homens levantaram-se de um pulo, o sono se dissipando por completo, e correram atrás dele, empunhando suas espadas. Desceram pela escada precária, atravessaram a área da cozinha, saíram pela porta dos fundos. Pularam a cerca para o jardim ao lado, numa retirada ensaiada com extremo cuidado, passaram para o jardim seguinte, e mais outro, até alcançarem a viela. Seguiram por ali, mas logo se desviaram por uma passagem entre duas choupanas. Na extremidade daquele beco sem saída, ele virou à esquerda e abriu uma porta. A lança do guarda alerta ameaçou sua garganta.