— Katsumata-san! O que aconteceu?
— Alguém nos traiu — sussurrou Katsumata, ofegante, e gesticulou para um jovem de Choshu, também esguio, duro como aço, mas com metade de sua idade, dezenove anos. — Dê a volta, veja tudo e volte. Não se deixe observar, nem ser apanhado!
O jovem desapareceu. Os outros seguiram Katsumata para o interior da choupana. Havia vários cômodos lá dentro, a construção ligada às outras nos lados, abrigando mais shishi. Vinte, no total, todos armados, capitães de células de shishi na maior parte, agora alertas, prontos para o combate ou a retirada... inclusive Sumomo, a irmã de Shorin, noiva de Hiraga. Todos se agruparam em silêncio, aguardando as ordens.
Quando eles escapavam da estalagem, nenhum dos servidores ou criadas deu atenção à partida abrupta, continuando a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Todos ficaram paralisados alguns segundos mais tarde, quando uma patrulha de Ogama entrou pela porta da frente e começou a revistar os quartos, acordando hóspedes, as mulheres e a mama-san, enquanto outros subiam a escada para vasculhar os aposentos do segundo andar. Gritos de surpresa, medo e protesto, lamentos das mulheres que agora ocupavam os quatro quartos que antes alojavam os shishi... tudo parte do meticuloso planejamento de Katsumata.
No tumulto subsequente, aos berros e indignação da mama-san, o enfurecido oficial de Ogama perguntou para onde tinham ido os proscritos ronin, chegou a esbofetear alguns criados, foi tudo em vão. Todos tremiam, alegando inocência:
— Ronin? — bradou a mama-san. — Em minha respeitável casa, que nunca deixou de cumprir a lei? Jamais!
Assim que a patrulha se retirou e todos se encontravam seguros, a mama-san praguejou, os criados praguejaram, todos amaldiçoaram o espião que os traíra.
— Katsumata-san, quem foi?— indagou Takeda, um jovem de Choshu, vinte anos, corpulento, quase sem pescoço, parente de Hiraga, o coração ainda disparado da fuga por um triz.
Katsumata deu de ombros.
— Karma se o descobrirmos, karma se não descobrirmos. Prova apenas o que incuto em vocês: estejam preparados para a traição, a fuga a qualquer instante, a luta a qualquer instante, não confiem em homem ou mulher, exceto num shishi e em Sonno-joi.
Todos no pequeno aposento apinhado acenaram com a cabeça.
— E o que nos diz de lorde Yoshi? Quando vamos atacá-lo?
— Quando ele estiver fora dos muros.
A notícia da súbita chegada de Yoshi viera durante a noite, tarde demais para interceptá-lo.
— Mas temos partidários lá dentro, sensei — insistiu Takeda. — Seria o lugar certo para surpreendê-lo, aproveitar que ele se sente seguro, deixa a guarda relaxar.
— A guarda de Yoshi nunca relaxa. Jamais se esqueçam disso. Quanto ao nosso pessoal com ele, dentro dos muros, suas ordens são para permanecerem quietos e ocultos, já que sua presença e informações são valiosas demais para se arriscar. No evento improvável do xógum Nobusada escapar à nossa emboscada, eles se tornarão ainda mais necessários.
Muitos sorrisos sinistros, mãos apertando o punho da espada. A emboscada fora planejada para o anoitecer, dali a cinco dias, em Otsu, a última estação de posta antes de Quioto. Havia apenas umas poucas estalagens na estrada do norte e na Tokaidô consideradas lugares de descanso apropriados para pessoas tão augustas, com seus inúmeros guardas, criadas e servidores. Assim, era fácil conhecer as paradas noturnas e postar espiões nelas.
Dez shishi haviam sido designados para a missão suicida e já se encontravam em Otsu, preparando-se para o ataque. Cada um dos cento e sete shishi reunidos em várias casas seguras de Quioto suplicara sua inclusão na emboscada. Por sugestão de Katsumata, haviam tirado a sorte. Três Choshus, três Satsumas e quatro Tosas conquistaram a honra, já instalados perto do alvo, na Estalagem das Muitas Flores.
— Mais cinco dias apenas e, depois, Sonno-joi será uma realidade! — sussurrou Sumomo, excitada. — O Bakufu nunca vai se recuperar desse golpe.
— Nunca mesmo!
Katsumata sorriu para ela, apreciando-a, a melhor de todas as suas discípulas — como Hiraga era o melhor entre os homens, atrás apenas de Ori —, admirando sua bravura, determinação e habilidades. Ela também se oferecera para a emboscada, mas Katsumata proibira, considerando-a uma arma valiosa demais para desperdiçar numa iniciativa de alto risco. Ele sentia-se contente por ter ordenado que Sumomo esperasse aqui, prevalecendo sobre a ordem de Hiraga, que a mandara voltar para a casa do pai dele. Sumomo trouxera as últimas informações de Iedo: a confirmação dos rumores sobre uma trégua negociada entre o Bakufu e os gai-jin, o fracasso do ataque ao ministro-chefe Anjo, mas o êxito no assassinato de Utani, com o incêndio de sua mansão. E, mais importante ainda, a confirmação da divergência entre Anjo e Yoshi Toranaga.
— Não sei de onde veio essa informação — sussurrara ela para Katsumata —, mas a mama-san disse que era da fonte que você conhece.
Sumomo também relatara os fatos da morte de Shorin. Mas não sabia mais nada sobre Ori ou Hiraga, a não ser que o ferimento de Ori estava sarando, ambos se escondiam na colônia em Iocoama, junto com Akimoto, e Hiraga se tornara, por algum milagre, confidente de um dos líderes dos gai-jin.
— Tem toda razão, Sumomo, o Bakufu nunca vai se recuperar — concordou Katsumata. — Nosso próximo golpe encerrará o xogunato de Toranaga para sempre.
Logo depois da bem-sucedida eliminação do xógum Nobusada — deixando a princesa Yazu ilesa, a qualquer custo —, os shishi desfechariam um ataque em massa contra o quartel-general de Ogama, para assassiná-lo; ao mesmo tempo, Katsumata e outros capturariam os portões, hasteando o estandarte de Sonno-joi, declarando que o poder voltava ao imperador, a quem todos os verdadeiros daimios e samurais se apresentariam para prestar obediência.
— Sonno-joi — murmurou ela, exultante, como todos os outros. Exceto Takeda, um dos shishi de Choshu. Ele mudou de posição, inquieto.