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— Não tenho certeza sobre o assassinato de Ogama. Ele é um bom daimio, um bom líder... impediu que Sanjiro tomasse o poder, impediu que Tosa tomasse o poder, é o único daimio a cumprir a ordem do imperador de expulsar os gai-jin. Afinal, não foi Ogama quem determinou o fechamento dos estreitos de Shimonoseki? Só nossos canhões se opõem aos navios gai-jin... apenas as forças de Choshu se mantêm na linha de frente, não é mesmo?

— É verdade, Takeda — disse um renomado shishi de Satsuma. — Mas o que sensei Katsumata sempre nos lembrou? Que Ogama mudou, agora que roubou o controle. Se ele respeitasse o imperador, seria muito simples, agora que controla os portões, declarar Sonno-joi e devolver todo o poder ao imperador. E isso o que faremos quanto tivermos os portões.

— Eu sei, mas...

— Muito simples para ele, Takeda. Mas o que Ogama fez? Apenas usou o poder para manipular a corte em seus caprichos. Quer ser o xógum. Nada menos.

Soaram murmúrios de concordância e depois Sumomo declarou:

— Por favor, Takeda, desculpe-me, mas Ogama é uma grande ameaça. Todos sabem que sou uma Satsuma, assim como o sensei Katsumata, concordamos que Sanjiro tem feito algumas coisas boas, mas nada por Sonno-joi. Por isso, ele deve renunciar ao poder, de bom grado ou pela força, e é o que vai acontecer. O mesmo se aplica a Ogama. Reconheço que ele fez algumas coisas boas, mas agora está errado. A verdade é que nenhum daimio com o controle dos portões, tão perto de se tornar o xógum, renunciará ao poder de bom grado.

— E se pedíssemos a Ogama? — sugeriu Takeda.

— Desculpe-me, por favor, mas tal petição não teria o menor valor. Quando tomarmos posse dos portões, a fim de evitar a guerra civil e a possibilidade de algum daimio se sentir tentado outra vez, devemos ir além e solicitar ao imperador a abolição do xogunato, do Bakufu e de todos os daimios.

Em meio a comentários surpresos diante de proposta tão radical, Takeda explodiu:

— Mas isso é uma loucura! Sem o xogunato e sem os daimios, quem vai governar? Haverá o caos! Quem paga nossos estipêndios? Os daimios! Os daimios possuem todos os koku de arroz...

Katsumata interveio:

— Deixe-a concluir, Takeda, e depois poderá dizer o que quiser.

— Sinto muito, Takeda, mas essa é uma idéia de Hiraga-san, não minha. Hiraga disse que, no futuro, os daimios serão apenas chefes nominais, e só os bons, que o poder será exercido por conselhos de samurais, de todos os níveis, baseados na igualdade, e esses conselhos decidirão tudo, dos estipêndios a que daimio é digno, e quem o sucederá.

— Nunca dará certo — insistiu Takeda. — É uma péssima idéia.

Muitos discordaram, a maioria apoiou Sumomo, mas Takeda ainda não se convencera. Ao final, ela perguntou:

— Sensei, é uma péssima idéia?

— É uma boa idéia, se todos os daimios concordarem — respondeu Katsumata.

Ele sentia-se satisfeito por constatar que seus ensinamentos davam frutos, que os shishi queriam chegar ao futuro pelo consenso. Como os outros, Katsumata estava acocorado, falando pouco, sua mente concentrada na traição, fervendo de raiva por aquele novo atentado contra a sua vida, e a fuga por um triz.

Por bem pouco desta vez, pensou ele, o gosto de bílis outra vez na boca. O cerco se aperta. Quem é o traidor? Só pode estar aqui. Nenhuma das outras unidades de shishi sabia que eu passaria a noite na estalagem dos Pinheiros Sussurrantes. O traidor se encontra aqui. Quem é ele... ou ela? Quem?

— Continue, Sumomo.

— Eu só queria acrescentar... Takeda-san, você é Choshu, assim como Hiraga-san, há outros de Tosa, o sensei, eu e muitos mais de Satsuma, inúmeros dos outros feudos, mas acima de tudo somos shishi, com deveres que prevalecem sobre a família, sobre o clã. Na Nova Ordem, esta será a lei... a primeira lei para todo o Nipão.

— Se essa vai ser a lei... — murmurou um dos homens, coçando a cabeça. — Sensei, quando o filho do céu recuperar o poder, o que iremos fazer, todos nós?

Katsumata olhou para Takeda.

— O que você acha?

— Não estarei vivo e, assim, isso não tem a menor importância. Sonno-joi é suficiente, a única coisa que me interessa.

— Alguns de nós devem sobreviver para participar da nova liderança — disse Katsumata. — Mais importante por enquanto: Yoshi Toranaga. Como eliminá-lo?

— Quando ele sair de seu refugio, devemos estar preparados — propôs alguém.

— Isso é claro — disse Takeda, irritado. — Mas ele estará cercado por guardas; duvido muito que consigamos sequer nos aproximar de sua pessoa. O sensei disse que não podemos acionar nossos homens lá dentro. Portanto, terá de ser no lado de fora, mas será muito difícil.

— Meia dúzia de nós, com flechas, nos telhados?

— Uma pena não termos um canhão — comentou outro. Continuaram ali, à claridade crescente, cada um imerso em seus pensamentos, visando Yoshi como o troféu maior. Mas os cinco dias de expectativa eram mais importantes, depois o ataque a Ogama... a única maneira de conquistar os portões.

— Talvez seja mais fácil para uma mulher se infiltrar no bastião de Toranaga, neh? — sugeriu Sumono. — E uma vez lá dentro...

Ela sorriu, sem concluir a frase.

Nuvens cobriam o céu agora. A tarde era sombria. Mesmo assim, as ruas largas nos arredores do quartel do xogunato estavam apinhadas de moradores da cidade, comprando e vendendo no mercado em frente à entrada principal, junto com sacerdotes budistas vestidos de laranja, as inevitáveis tigelas de esmolas estendidas, samurais desfilando de um lado para outro, sozinhos ou em grupos. As patrulhas de Ogama eram proeminentes, cada homem com a insígnia do feudo bordada na roupa. Katsumata, Sumomo e meia dúzia de shishi circulavam entre a multidão, disfarçados, usando enormes chapéus cônicos. Donas de casa, criadas, servos, varredores de rua, coletores de adubo noturno, carregadores e vendedores ambulantes, emprestadores de dinheiro, escritores de cartas, adivinhos, palanquins e pôneis para samurais e bem-nascidos, mas nunca, em parte alguma, um veículo com rodas.

Todas as pessoas que passavam pelos portões do xogunato, abertos agora, mas com uma forte guarda, faziam uma reverência polida, de acordo com as respectivas posições, e seguiam adiante, apressadas. A notícia de que o guardião do herdeiro chegara, sem qualquer pompa, o que era inacreditável, correra num instante por toda a cidade... e isso, somando-se aos rumores sobre a iminente visita, sem precedentes na memória histórica, do próprio xógum, árbitro da Terra, personagem aterrador, envolto por mistério, quase tanto quanto o filho do céu, e até casado, segundo se dizia, com uma das irmãs da divindade, era quase demais para se suportar.