Os samurais, preocupados, começaram a verificar a prontidão de suas armas e armaduras, os daimios e seus conselheiros de confiança tremeram com a notícia, avaliando suas posições, o que fazer, e como evitar qualquer ação decisiva, quando ocorresse o inevitável, a confrontação entre lorde Yoshi e lorde Ogama.
A atividade na rua diante dos portões do quartel do xogunato cessou no momento em que um cortejo armado saiu, com os estandartes de Yoshi à frente, soldados cercando um palanquim fechado, mais soldados na retaguarda. No mesmo instante, todos nas proximidades se ajoelharam, encostaram a cabeça no chão, os samurais permaneceram imóveis, fazendo uma reverência profunda, até o cortejo passar. Só depois que Yoshi e seus homens desapareceram é que ressurgiu um arremedo de normalidade. A não ser pelo fato de Katsumata e seus companheiros seguirem o cortejo, com extrema cautela.
A menos de um quilômetro dali, similar cortejo armado também deixou o quartel principal de Choshu, com os estandartes de Ogama à frente, e sob demonstrações de submissão ainda maiores. Há dias que ele fora alertado sobre a chegada de seu inimigo, assim como vinha monitorando o progresso do xógum Nobusada. Seus conselheiros haviam recomendado que emboscasse e destruísse Yoshi nos arredores de Quioto, mas Ogama não acatara a sugestão.
— É melhor que ele se torne meu peão. Depois que estiver aqui, onde poderá se esconder, para onde poderá fugir?
Os detalhes para a reunião urgente solicitada por Ogama haviam sido acertados pelos conselheiros de ambos. Deveria ocorrer no pátio vazio de um quartel neutro, eqüidistante dos dois quartéis-generais. Cada um levaria cem guardas. Apenas vinte estariam montados. Ogama e Yoshi iriam em palanquins blindados e protegidos. Um conselheiro para cada um. Chegariam ao mesmo tempo.
Em poucos momentos, espiões levaram a notícia para o palácio, para grupos de shishi e para os daimios, informando que os dois homens mais perigosos do Nipão haviam saído para as ruas em colunas armadas, no mesmo instante, por mais espantoso que isso pudesse parecer. Um espião logo encontrou Katsumata e sussurrou o local do encontro; quando os samurais de Ogama e Yoshi passaram pelos portões neutros, Katsumata e trinta homens se encontravam postados nas proximidades... para o caso de surgir a oportunidade de um ataque suicida.
O pátio tinha cem metros quadrados, com paredes de madeira leves, fáceis de romper, o alojamento de um só andar e o estábulo também eram de madeira, escurecida pelo tempo. Guardas dos dois lados ocuparam posições opostas e outros levaram quatro cadeiras dobráveis para o centro do pátio.
Os dois homens saíram juntos dos palanquins, encaminharam-se para as cadeiras e sentaram-se. Depois, o general Akeda e Basushiro, o principal conselheiro de Ogama, sentaram-se ao lado deles. Basushiro estava na casa dos quarenta anos, um samurai de olhos estreitos, estudioso, de uma família de chefes hereditários da burocracia de Choshu há gerações. Houve reverências formais, e em seguida os olhos dos dois líderes se encontraram.
Yoshi era dois anos mais moço que Ogama — vinte e seis anos — e alto, enquanto o outro era baixo e corpulento. Yoshi tinha o rosto raspado, em contraste com a barba cerrada negro-azulada de Ogama. A linhagem de Yoshi era mais nobre, embora a de Ogama fosse igualmente antiga, também renomada, os dois se equilibrando em determinação implacável, ambição e dissimulação.
Sem pressa, dispensaram o tempo necessário aos cumprimentos obrigatórios e perguntas polidas, com esquivas e evasivas, esperando pelo início... as mãos nos punhos das respectivas espadas.
— Sua vinda é uma agradável surpresa, lorde Yoshi.
— Tinha de vir para verificar pessoalmente que os rumores delirantes que ouvi não eram verdadeiros.
— Que rumores''
— Entre vários, o de que as forças de Choshu impedem os representantes do xogunato, os representantes legais, de assumirem suas posições em torno dos portões.
— Uma medida necessária para proteger a divindade.
— Desnecessária e contra a lei.
Ogama riu.
— A divindade prefere minha proteção ao traiçoeiro Conselho de Anciãos, que assinou os tratados com os gai-jin contra seu desejo e continua a negociar com eles contra sua vontade, em vez de expulsá-lo, como ele pediu. — Ele fez um sinal para Basushiro. — Por favor, mostre a lorde Yoshi.
O pergaminho, assinado pelo imperador, solicitava “ao lorde de Choshu para assumiro comando dos portões, até que seja resolvida a lamentável questão dos gai-jin”.
— Não é da competência da divindade decidir sobre problemas temporais. Esta é a lei... e devo lhe pedir que se retire.
— Lei? Está se referindo à lei de Toranaga, a lei do xogunato imposta à força pelo primeiro de sua linhagem, e que repudiou o direito antigo de o imperador governar, concedido pelo céu.
Os lábios de Yoshi contraíram-se numa linha fina e dura.
— O céu concedeu ao imperador o direito de interceder entre nós, mortais, e os deuses, em todas as questões espirituais. As questões temporais sempre estiveram na esfera de competência de mortais, de xóguns. O imperador concedeu ao xógum Toranaga e seus descendentes o direito perpétuo de cuidar de todas as questões temporais.
— Repito que o imperador foi forçado a concordar...
— E eu repito que esta é a lei da terra, que nos manteve em paz por dois séculos e meio.
— Não é mais válida. — Ogama acenou com o papel. — O que um imperador anterior foi obrigado a conceder, este imperador cancelou, por sua livre e espontânea vontade.
A voz de Yoshi tornou-se mais suave, mais perigosa:
— Um equívoco temporário. É evidente que o filho do céu recebeu conselhos indevidos de descontentes interesseiros, como em breve vai compreender.
— Está me acusando?
Os quatro homens apertaram o punho de suas espadas.
— Apenas ressalto, lorde Ogama, que seu pedaço de papel foi obtido por falsas informações e não está de acordo com a lei. A presença é e sempre foi cercada por homens ambiciosos... e mulheres também. Foi por isso que ele concedeu direitos perpétuos ao xógum Toranaga e ao xogunato para orientá-lo em todas as questões...