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Uma gargalhada interrompeu-o e deixou todos os samurais ao longo dos muros ainda mais nervosos.

— Orientar? Orientar, você disse? A divindade ser orientada por Anjo Nori, Toyama, Adachi, e agora aquele retardado do Zukumura? Por tolos incompetentes, que prevalecem sobre você quando querem, fazem acordos estúpidos com os infames gai-jin, contra os conselhos de todos os daimios, acordos que expõem a terra dos deuses e todos nós à destruição? — O rosto de Ogama contraiu-se em raiva. — Ou ele deve esperar a orientação do menino Nobusada sobre a melhor maneira de tirar castanhas do fogo?

— Você e eu, Ogama-dono, não precisamos esperar — disse Yoshi, suavemente, sabendo que sua maior força era se manter calmo. — Vamos discutir isso em particular... só nós dois.

— Quando?

— Agora.

Desconcertado por um instante, Ogama hesitou. Olhou para Basushiro. O homenzinho sorriu apenas com o rosto.

— Eu diria que assuntos importantes devem ser discutidos em aberto, Sire, não que meus pobres conselhos sejam de algum valor. Os acordos particulares podem às vezes ser mal interpretados, por qualquer dos lados... esta era a regra de seu honrado pai.

Os olhos de Ogama tornaram a se fixar em Yoshi.

— A visita do xógum ao imperador, para demonstrar sua submissão, “pedir conselho”, pela primeira vez em todo o período Toranaga, isso nega a própria essência de sua estrutura Toranaga, não é mesmo? Pior ainda, prejudica qualquer futuro acordo entre o filho do céu e... futuros líderes, pois é claro que mortais governarão, não é mesmo?

— Em particular, Ogama-dono.

Ogama hesitou de novo, os olhos escuros se contraindo no rosto curtido. Contra a sua vontade, apesar de saber que aquele homem era o único que tinha o potencial de mobilizar oposição suficiente para impedi-lo de alcançar o prêmio que procurava, ele gostava da confrontação, do encontro cara a cara. Acenou com a mão, dispensando Basushiro, que obedeceu no mesmo instante, embora com uma desaprovação ostensiva. Akeda fez uma reverência e também se afastou, ainda mais vigilante pela esperada traição, sobre a qual fora alertado.

— So ha?

Yoshi inclinou-se um pouco para a frente, manteve a voz baixa, os lábios mal se mexendo, para o caso de Basushiro, que se postara além da possibilidade de ouvir, conhecer leitura labiaclass="underline"

— A votação do conselho foi de quatro a um a favor da visita do xógum. Fui o único contra. Claro que a visita é um grande erro, mas Anjo não pode e não quer compreender isso. O atual conselho votará como ele quiser, sobre qualquer assunto. Nobusada é um títere, até completar dezoito anos, daqui a dois, quando poderá formalmente promover muitas mudanças e criar diversos problemas, se assim desejar. Isso responde a todas as suas perguntas?

Ogama franziu o rosto, atônito com a franqueza do oponente.

— Disse “em particular”, Yoshi-dono, e o que me disser em particular relatarei mais tarde para meus conselheiros, e você fará a mesma coisa.

— Alguns segredos ficam mais bem guardados entre líderes do que... — Yoshi fez uma pausa, antes de acrescentar, incisivo: —... do que entre certos servidores.

— E o que isso significa?

— Você tem espiões... servidores... dentro dos meus portões, neh? De que outra forma poderia saber tão depressa da minha chegada? Não pensa que não tenho homens aqui e espiões dentro dos seus muros, não é mesmo?

A expressão de Ogama se tornou mais sombria.

— Que segredos?

— Segredos que devemos guardar. Por exemplo, Anjo está muito doente, e morrerá em um ano... ou no mínimo terá de renunciar.— Yoshi percebeu o lampejo imediato de interesse, que Ogama não foi capaz de ocultar. — Se quer uma prova, posso lhe dizer como seus espiões devem fazer para confirmar.

— Seria ótimo, obrigado — disse Ogama, registrando a informação para ação imediata, sem esperar por orientação. — Claro que eu gostaria de ter meios de confirmar uma notícia tão agradável. E daí?

Yoshi baixou a voz ainda mais:

— Durante esse ano... se fôssemos aliados... seria fácil garantir a sua designação para ancião. E depois, juntos, aprovaríamos os outros três.

— Duvido muito que pudéssemos concordar, Yoshi-dono — disse Ogama, com um sorriso irônico — nem sobre um conselho, nem sobre qual dos dois seria o tairo, o líder.

— Mas eu votaria em você.

— Por que seria tão estúpido? — indagou Ogama, impassível. — Deve saber que eu trataria de destruir seu xogunato, o mais depressa possível.

— Na forma como ele existe agora, concordo que devemos mesmo destruí-lo. Eu bem que gostaria de fazê-lo agora. Se tivesse o poder, já o teria feito, promovido reformas, aproveitando as sugestões de um conselho de todos os daimios, inclusive os lordes exteriores.

Ele percebeu o espanto de Ogama aumentar e compreendeu que estava prevalecendo.

— Mas não posso fazer nada agora, devo esperar que Anjo renuncie ou morra.

— Por que não mais cedo em vez de mais tarde, hem? Se ele é a pústula que o incomoda, fure-a! Não estão juntos no castelo em Iedo?

— Isso precipitaria a guerra civil que não quero, que não interessa a nenhum daimio. Concordo que o xogunato e o Bakufu devem ser reorganizados de uma maneira radical... suas opiniões e as minhas são bastante similares. Sem o seu apoio, eu não poderia efetuar as reformas. — Yoshi deu de ombros. — Pode ser difícil acreditar, mas isto é uma oferta.

— Com Anjo fora do caminho, você poderia fazer qualquer coisa que quisesse. Poderia atrair Sanjiro e o tolo de Tosa, talvez os dois juntos, não é mesmo? Se vocês três se aliassem contra mim, eu poderia me considerar um homem morto e meu feudo acabar. Depois, você os divide, e assume o poder total. — Os lábios de Ogama se contraíram num sorriso que não era um sorriso. — Ou, o que é mais provável, eles permanecem unidos contra você.

— Muito mais provável. Assim sendo, por que não ficar com o poder para nós, em vez de deixar para eles? Primeiro, juntos, esmagamos Tosa.

Outra vez a risada curta e ríspida.

— Não seria fácil, não com Sanjiro e suas legiões de Satsuma prontos para partirem em socorro de Tosa... ele nunca permitiria que esmagássemos Tosa, pois ficaria isolado e seria nosso alvo seguinte. Nem sequer permitiria que eu sozinho destruísse Tosa, o que poderia fazer, no momento oportuno, muito menos aceitaria uma aliança entre nós. Não é possível separá-los, embora se odeiem mutuamente. Ao final, conseguiríamos derrotá-los, mas não temos condições de manter uma guerra prolongada... ainda mais com os gai-jin em nossas praias, ansiosos em nos explorar.

— Vamos deixar os gai-jin de lado por enquanto, exceto para dizer que me oponho aos tratados, quero que todos os gai-jin sejam expulsos, quero... com todo o meu empenho... cumprir o desejo do imperador, quero que os anciãos sejam substituídos e a maioria do Bakufu dispensada.