Ogama deixou que seu espanto prevalecesse, mais uma vez, incapaz de acreditar nos próprios ouvidos.
— Tais pensamentos particulares, pensamentos letais, expressos com tanta franqueza, não permanecerão em segredo por muito tempo. Se forem verdadeiros.
— São verdadeiros, mas apresentados em particular, entre nós. Eu me arrisco com você, sem dúvida. Mas há um propósito: o Nipão. Proponho uma aliança secreta: juntos, podemos controlar todo o poder. Você é um bom líder, domina os estreitos de Shimonoseki. Mas seus canhões não podem deter os navios gai-jin até conseguirmos comprar ou construir uma esquadra igual, além de modernizar nossos exércitos... navios, canhões, fuzis dos gai-jin, tudo o que precisarmos. E você é bastante forte e bastante inteligente para perceber os problemas com que nos defrontamos.
— Quais são esses problemas?
— Os cinco principais: um xogunato fraco, estúpido e ultrapassado, apoiado por um Bakufu ainda mais estúpido; segundo, a nação está dividida; terceiro, os gai-jin e nossa necessidade de modernizar, antes que seus navios, canhões e rifles nos escravizem, como fizeram com a China; quarto, como eliminar todos os shishi, cuja influência cresce, apesar de ainda serem poucos; e quinto, a princesa Yazu.
— Concordo com os quatro primeiros. Mas por que ela é um problema?
— Nobusada é um menino, impertinente e simplório, e creio que continuará assim. Por outro lado, ela é forte, instruída e astuciosa... uma astúcia além dos seus anos.
— Mas é uma mulher — interrompeu-o Ogama, irritado. — Não tem exército, não tem recursos e depois que se tornar mãe todas as suas energias serão consumidas com os filhos. Está vendo fogo numa tigela com água.
— Mas digamos que o marido dela seja impotente.
— Como?
— É isso o que os médicos dele me contam. E digamos que ele esteja totalmente sob o encantamento da mulher... acredite em mim, a princesa possui toda a astúcia e insídia de uma mulher-lobo! Esta visita é idéia dela, o início de seu plano, de submeter o marido e, por seu intermédio, todo o xogunato às garras dos sicofantas da corte, que não têm qualquer experiência temporal, dariam conselhos errados à divindade e arruinariam a todos nós.
— Ela jamais conseguiria isso, por mais esperta que seja — declarou Ogama. — Nenhum daimio aceitaria tamanha loucura.
— Primeiro passo: a visita. Segundo passo: o xógum fixa residência permanente no palácio. Daí por diante, com o apoio dos pedidos do imperador, irmão dela, as decisões são tomadas por todos os amigos da princesa, um dos quais é seu príncipe Fujitaka.
— Não acredito nisso!
— Claro que ele nunca vai admitir. Posso lhe apresentar provas, dentro de algum tempo, de que ele na verdade não trabalha por você, mas sim contra você. — Yoshi continuava a falar em voz baixa, impregnada de sinceridade. — Depois que Nobusada ficar para sempre dentro dos muros, ela é quem vai governar. É por isso que constitui um problema.
Ogama suspirou, recostou-se, avaliando mais uma vez as palavras de seu adversário, muitas das quais eram verdadeiras, especulando até que ponto podia confiar nele. Sem a menor dúvida, uma aliança secreta oferecia boas possibilidades, se o preço obtido fosse bastante alto.
— A solução para ela é romper o casamento — murmurou ele. — Foi pedida a aprovação do imperador para o casamento, não é? Talvez o imperador tenha o maior prazer em solicitar a anulação. Assim, você a neutraliza e recupera o apoio dos muitos que detestam a ligação com Toranaga como uma grosseira impertinência... o que não é minha opinião.
Ele acrescentou a última frase ao perceber um súbito rubor em Yoshi. Não queria um choque ostensivo por enquanto, ainda restava muito para ouvir e decidir. Depois de um momento, Yoshi acenou com a cabeça.
— Uma boa idéia, Ogama-dono. Não havia me ocorrido. — E não ocorrera mesmo. Quanto mais pensava a respeito, mais atraentes pareciam as possibilidades. — Isso deve ter prioridade. Excelente.
No outro lado da praça, um cavalo relinchou, irrequieto, empinou. Os dois observaram, enquanto o soldado acalmava o animal. Ogama especulou, em seu coração mais secreto, se depois que eliminasse Yoshi, em seguida Nobusada, o resto dos Toranagas e seus aliados, tornando-se o xógum, deveria herdar também a princesa imperial. Nenhuma mulher jamais seria um problema para mim, ela geraria filhos tão depressa que até os deuses sorririam.
— Qual é sua proposta? — perguntou ele, a cabeça fervilhando com os caminhos espetaculares que uma aliança temporária lhe abririam.
— Fazemos um acordo secreto a partir de hoje, para juntar forças, exercer influência e formular planos: primeiro, para esmagar os shishi; segundo, para neutralizar Anjo e Sanjiro de Satsuma; terceiro, para um ataque de surpresa a Tosa, como prioridade. No momento em que Anjo morrer ou renunciar, proporei seu nome para substituí-lo como ancião e garanto sua escolha. Ao mesmo tempo, Zukumura renuncia e poremos em seu lugar alguém que escolheremos de antemão. Três a dois. Conservo Toyama e Adachi é substituído por seu indicado. Eu voto para que você seja o líder do conselho.
— Com o cargo de tairo.
— Para ser ministro-chefe do conselho, já é suficiente.
— Talvez não. Em troca de quê?
— A partir de hoje, os feudos de Tosa e Satsuma são considerados inimigos. Você empenhará todas as forças necessárias para um ataque conjunto a Tosa, assim que for viável. Dividimos o feudo.
— Como ele é um lorde exterior, suas terras devem ir para para um lorde exterior.
— Talvez sim, talvez não — disse Yoshi, tranquilo. — Você concorda que nunca vai se aliar com Tosa e Satsuma contra mim, nem contra o xogunato. Se por acaso Tosa ou Satsuma o atacarem, juntos ou separados, eu me comprometo a apoiá-lo de imediato, com uma força maciça.
— O que mais? — indagou Ogama, impassível.
— Você concorda que não vai tomar partido contra mim, assim como eu concordo que não tomarei partido contra você.
— O que mais?
— De hoje em diante, discretamente, cada um à sua maneira, trabalhamos para anular o casamento.
— O que mais?
— Por último: os portões. Você concorda que forças legais e legítimas do xogunato recuperem o controle, a partir do alvorecer de amanhã.
Ogama amarrou a cara.
— Já lhe mostrei que sou o representante legal e legítimo da divindade.