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— Já ressaltei que, embora o documento tenha sido assinado de forma correta, a assinatura foi lamentavelmente obtida por meios indevidos.

— Sinto muito, mas a resposta é não.

— Os portões devem retornar ao controle do xogunato.

— Neste caso, não temos mais nada a conversar.

Yoshi suspirou, os olhos contraídos.

— Neste caso, lamento dizer, haverá novo pedido do imperador... para você deixar os portões e abandonar Quioto, com todos os seus homens.

Com a mesma frieza, Ogama sustentou o olhar de Yoshi.

— Duvido.

— Eu, Yoshi Toranaga, garanto isso. Daqui a seis ou sete dias, o xógum Nobusada e sua esposa estarão dentro do palácio. Como guardião, tenho acesso imediato a ele... e a ela. Ambos aceitarão a correção dos meus argumentos... sobre os portões e muitas outras coisas.

— Que outras coisas?

— Os portões não deveriam ser um problema para você, Ogama-dono. Eu daria garantias de que não alardearia isso em seu detrimento, aceitando “agradecido o seu generoso convite para assumir o controle” e não os fortificaria contra você. O que é tão difícil assim? Os portões, de modo geral, não passam de um símbolo. Advirto-o formalmente: para manter a paz e garantir a ordem na terra, até a morte ou renúncia de Anjo, o xogunato deve ter o controle dos portões.

Ogama hesitou, num dilema. Yoshi podia facilmente providenciar outra “solicitação” do imperador, que ele teria de aceitar.

— Eu lhe darei uma resposta dentro de um mês.

— Sinto muito, mas o limite é daqui a seis dias, ao meio-dia.

— Por quê?

— Nobusada chega a Otsu daqui a cinco dias. Ao anoitecer do sexto dia, Nobusada passará pelos portões. Exijo a posse, mesmo que seja temporária, antes disso.

Yoshi falou com a maior gentileza, uma polidez extrema. Seus olhos tornaram a se encontrar. Em voz neutra, mas também polida, Ogama disse:

— Pensarei a respeito de tudo isso, Yoshi-dono.

Depois, ele fez uma reverência, Yoshi retribuiu, os dois foram para seus palanquins, e todos na praça suspiraram de alívio, porque a provação terminara e o esperado banho de sangue não se consumara.

31

Sexta-feira, 21 de novembro:

A estação de posta de Otsu estivera movimentada durante o dia inteiro, num crescendo de excitamento, a expectativa acompanhada pelo medo, nos preparativos finais para a escala naquela noite dos augustos visitantes, o xógum Nobusada e a princesa Yazu. Há semanas que os cidadãos varriam as ruas, limpavam todas as habitações e privadas externas... telhados, paredes, poços, jardins, novos ladrilhos, shojis, tatames. A estalagem das Muitas Flores, a melhor e a maior de Otsu, ainda se encontrava num estado de quase pânico.

Começara no momento em que se soubera que os abençoados visitantes haviam declinado a hospedagem no castelo próximo de Sakamoto, pertencente ao xogunato, que ornamentava a região antes mesmo de Sekigahara, preferindo a estalagem.

— Tudo deve ser perfeito! — gemia o proprietário, extasiado, mas ao mesmo tempo apavorado. — Qualquer coisa que não estiver perfeita valerá a degola ou no mínimo uma surra de chicote, quer seja homem, mulher ou criança! A história da honra que nos foi concedida nesta única noite será lembrada pelos tempos afora... o nosso sucesso ou fracasso! O lorde xógum em pessoa? Com toda a sua glória? E a esposa, uma irmã da divindade? Oh ko...

Ao final da tarde, velado, cercado por guardas e conselheiros, a salvo de qualquer observador, o xógum Nobusada deixou apressado seu palanquim e atravessou os portões para a área isolada da estalagem que lhe fora reservada, acompanhado pela princesa imperial e sua comitiva de guardas pessoais, servidores, damas de companhia e criadas. Havia quarenta bangalôs tradicionais, cada um com quatro cômodos, em torno do santuário interior dos aposentos e casa de banho do xógum. Muitos tinham varandas interligadas, num labirinto de agradáveis caminhos, pontes sobre laguinhos e regatos, que desciam das colinas, tudo cercado por uma sebe espessa e aparada.

O quarto era aconchegante e impecável, com novos tatames e braseiro polidos. Nobusada tirou o chapéu velado e as roupas externas, cansado e irritado. Como sempre, o palanquim fora desconfortável e houvera solavancos.

— Já detesto este lugar — disse ele a seu camareiro, cuja cabeça encostava no chão, ao lado de uma fileira de criadas. — É muito pequeno e fedorento. Sinto todo o corpo dolorido. Já aprontaram o banho?

— Já, sim, Sire, tudo como determinou.

— Otsu finalmente, Sire — disse a princesa Yazu, o tom jovial, entrando junto com algumas damas de companhia. — Amanhã chegaremos a casa e tudo será maravilhoso.

Ela tirou também o enorme chapéu velado e as roupas externas, jogando tudo ao chão. As criadas se apressaram em recolhê-las.

— Amanhã estaremos em casa! Em casa, Sire! Valeu a pena seguir pelo caminho mais rápido, neh?

— Claro que sim, Yazu-chan — murmurou Nobusada, sorrindo, contagiado pela exuberância da esposa.

— Vai conhecer todos os meus amigos, primos, tias, tios, irmã mais velha e irmã mais nova, meu querido meio-irmão Sachi, ele tem nove anos... — Ela rodopiou, na maior felicidade. —... e centenas de outros parentes. Dentro de poucos dias conhecerá o imperador, que o receberá como se fosse um irmão também, e resolverá todos os nossos problemas. Depois, poderemos viver em tranquilidade para sempre. Faz frio aqui. Por que não está tudo pronto? E o banho?

O camareiro, corpulento e grisalho, de cinqüenta anos, com poucos dentes e enorme papada, chegara um dia antes, com um grupo de criadas e cozinheiros, a fim de aprontar os aposentos e preparar os alimentos e frutas, com uma abundância de arroz polido, para o delicado estômago do xógum, e que a princesa exigia. Havia magníficos arranjos de flores, feitos por um mestre de ikebana. Mais uma vez, o camareiro fez uma reverência, enquanto a amaldiçoava no íntimo.

— Os braseiros extras já estão prontos, alteza imperial. O banho também, assim como a refeição leve que pediu, junto com o xógum Nobusada. O jantar já foi preparado, será suntuoso...

— Emiko! Nosso banho!

No mesmo instante, a principal dama de companhia se adiantou e levou-a pelo corredor, cercada pelas outras e por várias criadas, como a rainha que era. Nobusada lançou furioso olhar para o camareiro e bateu com o pé, bem pequeno.

— Por que me deixam esperando? Mostre-me o banho e mande chamar a massagista. Quero uma massagem nas costas agora. E providencie para que não haja qualquer barulho... proíbo o barulho!

— Pois não, Sire. O capitão dá essa ordem todos os dias. Mandarei a massagista para a casa de banho. Sako estará...

— Sako? Ela não é tão boa quanto Meiko... Onde está Meiko?

— Sinto muito, Sire, mas ela ficou doente.