— Diga a ela para melhorar até o pôr-do-sol! Não é de admirar que ela esteja doente, pois eu também me sinto mal! Que viagem horrível! Baka! Quantos dias na estrada? Deve ter sido no mínimo cinqüenta e três, e menos do que... por que toda a pressa...
O capitão da escolta esperava pelo camareiro no jardim. Era barbudo, experiente, na casa dos trinta anos, um mestre renomado com a espada. Seu aiudante de ordens se aproximou.
— Está tudo em ordem, senhor.
— Ótimo. Já deve ser rotina, a esta altura. — A voz soou cansada e nervosa. Ambos usavam armaduras leves de viagem, chapéu e duas espadas, por cima da túnica do xogunato. — Só mais um dia... e depois nossos problemas vão piorar. Ainda não posso acreditar que o conselho e o guardião tenham permitido uma viagem tão perigosa.
O ajudante-de-ordens ouvira o mesmo protesto todos os dias.
— Tem razão, capitão. Mas pelo menos estaremos em nosso quartel, com mais centenas de homens.
— Não é suficiente, nunca é suficiente. Não deveríamos ter partido. Mas aconteceu e karma é karma. Inspecione o resto dos homens e verifique se é correta a escala dos guardas. E mande o mestre dos cavalos dar uma olhada em minha égua, acho que o casco esquerdo partiu... — Ferrar cavalos era algo desconhecido no Japão na ocasião. — Ela quase refugou ao passar pela barreira, mas depois se recuperou. Volte para me apresentar um relatório.
O homem se afastou, apressado. O capitão sentia-se mais satisfeito do que o habitual. A inspeção da estalagem e do terreno, dentro das altas cercas de bambu do perímetro externo, e daquele setor em particular, cercado por sebes, com um único portão, deixara-o convencido de que o conjunto de bangalôs do xógum seria fácil de defender. A estalagem fora vedada a quaisquer outros viajantes naquela noite, as sentinelas conheciam a senha e todos se mantinham em alerta máximo. Ninguém podia se aproximar a menos de cinco metros do xógum e sua esposa sem permissão e ninguém, jamais, com qualquer arma... exceto o guardião, os anciãos do conselho e ele próprio, com os guardas que o acompanhassem. A lei era bastante conhecida, a punição para uma aproximação armada era a morte, tanto para o homem armado quanto para os guardas desatentos... a menos que fossem perdoados pelo xógum pessoalmente.
— Ah, camareiro! Houve alguma mudança de planos?
— Não, capitão. — O velho suspirou, coçou a testa, a papada tremendo. — Os augustos estão se lavando, como sempre; depois descansarão, como sempre; depois irão para o banho real e receberão uma massagem ao pôr-do-sol, como sempre; depois jantarão, como sempre; jogarão Go, como sempre, e irão se deitar. Tudo em ordem?
— Por aqui, sim.
O capitão tinha um destacamento de cento e cinqüenta samurais dentro do conjunto, que media cerca de duzentos metros quadrados. Uma unidade de dez homens guardava a única entrada, uma ponte sobre um regato, que levava aos portões ornamentados. Ao longo de toda a sebe do perímetro, havia samurais postados a intervalos de dez passos. Seriam substituídos por unidades dos seiscentos samurais nos alojamentos junto ao portão principal ou instalados em estalagens próximas. Patrulhas vasculhavam o jardim e a cerca, com extrema discrição, já que qualquer barulho e a presença óbvia de samurais irritavam a princesa e, em conseqüência, seu marido.
Acima deles, as nuvens pareciam engrossar, o sol enevoado ainda não alcançara o horizonte. Um vento alto tangia as nuvens. Fazia frio e tudo indicava que esfriaria ainda mais. Os servos acendiam lanternas entre os arbustos, a luz já refletida nos laguinhos, brilhando nas pedras umedecidas um momento antes para se obter esse efeito.
— É lindo — murmurou o capitão. — De longe a melhor, embora a maioria das outras estalagens também fosse boa.
Era a primeira vez que ele realizava uma viagem assim. Durante toda a sua vida estivera dentro ou nos arredores do castelo de Iedo, com Nobusada ou nas proximidades, ou junto do xógum anterior.
— Não resta a menor dúvida de que é lindo, mas eu preferia ter o lorde xógum e sua esposa no castelo Sakamoto. Você deveria ter insistido.
— Bem que tentei, capitão, mas... mas ela decidiu.
— Ficarei mais contente quando estivermos em nosso quartel e eles dentro dos muros do palácio... e ainda mais contente quando voltarmos, sãos e salvos, ao castelo em Iedo.
— Eu também — disse o camareiro, em particular cansado do xógum e da princesa, sempre encontrando defeitos, impertinentes e petulantes. Ainda assim, pensou ele, as costas doendo, querendo também um banho e uma massagem, e as atenções de seu jovem amigo, acho que eu seria igual, se fosse tão exaltado quanto eles, tão mimado, e tivesse apenas dezesseis anos. — Posso perguntar qual é a senha, capitão?
— Até a metade da noite será “arco-íris azul”.
A duzentos metros dali, na margem leste da aldeia, havia uma velha casa de camponeses, meio em ruínas, ao final de uma viela, não muito longe da Tokaidô e da barreira de Otsu. Lá dentro, o líder do grupo de ataque dos shishi, um jovem de Choshu chamado Saigo, olhava ameaçador para o camponês, sua esposa, quatro filhos, pai e mãe, irmão e uma criada, ajoelhados num canto, apavorados. Aquele era o único cômodo, e servia tanto como área de comer quanto para dormir. Umas poucas galinhas esqueléticas, numa gaiola de ripas, cacarejavam nervosas.
— Lembrem-se do que eu disse. Vocês não sabem de nada, não viram nada.
— Sim, lorde, claro, lorde — balbuciou o velho.
— Cale-se! Fiquem de costas, virados para a parede, e fechem os olhos, todos vocês! Cubram os olhos com suas faixas!
Todos obedeceram no mesmo instante.
Saigo tinha dezoito anos, era alto e forte, com um rosto bonito e rude, usava uma túnica escura curta e calça iguais às dos samurais na estalagem, duas espadas, sandálias de vime, sem armadura. Após se certificar de que os camponeses se encontravam bem vendados, além de dóceis, foi sentar-se ao lado da porta, espiou pelos rasgões no papel da parede, e pôs-se a esperar.
Podia avistar a barreira e as casas da guarda com toda a nitidez. Ainda não era o pôr-do-sol, por isso a barreira continuava aberta para os retardatários. Ele e seus homens haviam levado vários dias para encontrar aquele lugar, ideal para seus propósitos. A porta dos fundos dava para um labirinto de vielas e passagens, perfeito para uma retirada súbita. Naquela tarde, no momento em que a comitiva do xógum passara pela barreira, ele tomara posse da casa.
Passos. Sua mão ajeitou a espada, depois relaxou. Outro jovem entrou, em silêncio, seguido por mais um, de uma direção diferente. Logo havia mais sete lá dentro. Um permanecia de guarda lá fora, outro na esquina da viela com a Tokaidô, com um outro escondido na aldeia, para atuar como mensageiro e partir a galope, a fim de transmitir a boa notícia do êxito do atentado a Katsumata, em Quioto, o que seria o sinal para atacar Ogama e os portões. Eram jovens determinados, vestidos como ele, sem armadura ou identificação, antigos goshi — o grau mais baixo de samurai — e agora ronin, todos mais ou menos da mesma idade, de dezenove a vinte e dois anos. Apenas Saigo, com dezoito anos, e Tora, com dezessete, o segundo no comando, eram mais novos. A aragem que entrava pelas frestas da janela fazia-os estremecer... isso e mais a tensão.