Através de sinais, ele indicou que todos deveriam verificar suas espadas, shuriken e outras armas letais... não havia necessidade de palavras durante toda a operação. Todo o planejamento fora definido ao longo de vários dias. Haviam concordado que o ataque deveria ser desfechado em silêncio. Um olhar pela janela. O sol encostava no horizonte, o céu ainda era claro. Chegara o momento.
Solene, Saigo fez uma reverência para seus companheiros, que retribuíram. Ele tornou a se virar para os camponeses.
— Três homens estarão lá fora — avisou, em tom ríspido. — Qualquer sussurro de vocês, até eu voltar, e eles incendiarão tudo.
Outra vez o velho balbuciou um assentimento.
Saigo gesticulou para os outros. Todos o seguiram, inclusive o guarda lá fora, e o que se postava na esquina. Não era mais possível voltar atrás. Os que eram budistas murmuraram uma prece final diante de um santuário, enquanto os xintoístas acendiam um último bastão de incenso, juntando seus espíritos ao filete de fumaça, que representava a fragilidade da vida. Todos haviam escrito seus poemas de morte, que estavam nos bolsos das túnicas. Orgulhosos, indicaram seus feudos corretos, apenas os nomes eram falsos.
Na viela, dividiram-se em duplas, seguindo por caminhos separados. Logo assumiram suas posições, agachados entre o mato alto junto acerca do perímetro, nos fundos da estalagem, à vista uns dos outros, Saigo no canto sudeste. A cerca tinha três metros de altura, resistente, de bambus gigantes, com espigões no topo. Àquela altura, as sombras começavam a perder as formas face ao crepúsculo que se adensava.
Esperando. Coração batendo forte dentro do peito, palmas suadas, atentos ao menor ruído de uma patrulha inimiga. Um gosto estranho e forte em cada boca.
Pontadas de dor nas virilhas. Em algum lugar nas proximidades, um grilo iniciou seu chamado urgente de acasalamento, lembrando Saigo de seu poema de morte:
Um grilo com seu canto alegre,
Mesmo assim morre num instante,
Melhor partir alegre do que triste.
Ele sentiu os olhos se enevoarem, da mesma forma que acontecia com o céu. Era lindo experimentar tamanha felicidade e, ao mesmo tempo, uma tristeza tão profunda.
Podiam ouvir vozes no outro lado da cerca, servos, criadas, samurais ocasionais, o retinir de pratos de metal, pois a cozinha não era muito distante. Esperando. O suor escorria pelo rosto de Saigo. De repente ele ouviu o farfalhar quase imperceptível de um quimono e uma moça sussurrar:
— Arco-íris azul... Arco-íris azul.
Silêncio. E outros sons da estalagem. Saigo gesticulou para Tora, ao seu lado. O jovem se encaminhou apressado para as outras unidades, sem fazer qualquer barulho, transmitiu a senha e voltou. A um sinal de Saigo, cada dupla pegou a escada feita com antecedência, camuflada e escondida na vegetação, e a encostou na cerca. Saigo tornou a observar o céu. No momento em que a última réstia do sol desapareceu, outro sinal, e todos subiram, passaram por cima da cerca ao mesmo tempo, pularam para o chão no outro lado e ficaram agachados, imóveis, entre os arbustos bem cuidados, mas prontos para um ataque frontal imediato.
Por milagre, nenhum alarme ainda. Levantaram os olhos, cautelosos. À frente, a sessenta metros de distância, ficava a seção reservada ao xógum, os telhados de colmo aparecendo por cima das sebes altas e cerradas, os telhados dos aposentos e casas de banho centrais um pouco mais elevados. A entrada principal situava-se um pouco longe, as portas ainda abertas. Tudo exatamente como esperavam. Exceto pelos guardas, muito mais numerosos do que fora previsto. A bílis subiu a cada boca.
À direita ficava a cozinha principal, com enormes caldeirões fumegantes e uma concentração de servidores... com mais guardas ali. À esquerda e ao redor do conjunto havia diversos bangalôs de hóspedes, em outros jardins, com regatos e pontes, cada um com seu caminho de entrada bem cuidado, serpeando entre os arbustos. Silêncio ali, sem luzes no interior, apenas uma lanterna acesa na varanda da frente. Mais angústia, pois esperavam que aqueles bangalôs estivessem ocupados, para servir como cobertura e diversão necessária.
Karma, pensou Saigo. Mesmo assim, nossas posições foram bem previstas, assim como as do inimigo, o plano é bom, e conhecemos a senha. Durante as duas semanas anteriores, disfarçado como samurai comum a viajar, ele encontrara a cortesã apropriada e se insinuara em suas emoções, fazendo com que o conduzisse por uma excursão secreta pelo terreno... até mesmo aos lugares em que os augustos viajantes deveriam repousar.
— Por que não? — sussurrara ele. — Quem vai saber? Eles só chegarão daqui a alguns dias... ah, você é tão bela! Vamos nos unir onde um xógum e uma irmã do filho do céu vão deitar... será uma coisa que contaremos para nossos netos. Acho que nunca a deixarei...
Fora também fácil descobrir uma criada da casa de banho, que era adepta secreta dos shishi, e persuadi-la que não haveria risco em escutar e sussurrar umas poucas palavras para a noite.
Ele sentiu Tora tocar em seu braço. Ansioso, o jovem apontou. Uma patrulha passara pelos portões. Começava a circular pelos jardins. Pequenas poças de luz brilhavam sob as lanternas. Era inevitável que a patrulha viesse para aquele lado, passasse muito perto. O sinal de Saigo, o pio de uma ave noturna, deu a ordem.
No mesmo instante, todos abaixaram-se ainda mais entre as folhagens, cabeças curvadas, mal respirando. A patrulha aproximou-se e logo passou, sem avistá-los... como Katsumata previra, ao sugerir o plano de ataque:
— Inicialmente, será fácil passarem despercebidos no escuro. Nunca esqueçam que a surpresa está do lado de vocês. Sua infiltração será inesperada. Quem ousaria atacar o xógum, quando ele se encontra cercado por tantos homens? E numa estação de posta? Impossível! Lembrem-se de que num ataque furtivo, de surpresa e veloz, dois ou três de vocês alcançarão a parte central... e um só é suficiente.
Saigo observou o inimigo se afastar. Uma exultação maravilhosa dominou-o, toda a sua confiança voltou. Outra curta espera, até a patrulha inimiga sumir de vista, e ele gesticulou a fim de que os grupos de ataque se deslocassem para as posições predeterminadas. Protegidos pelos arbustos, quatro homens se esgueiraram para a sua direita, dois para a esquerda. Assim que todos se postaram nos lugares certos, ele respirou fundo, para ajudar a diminuir as batidas do coração. O sinal, outra vez o pio de uma ave noturna, deu a ordem para começar.
No mesmo instante, a dupla na extrema direita saiu dos arbustos para o caminho, ajustando os cordões das calças, e começou a se afastar, de braços dados, como amantes. Momentos depois, foram notados pelos guardas no ponto mais próximo da sebe.
— Alto, vocês dois!
Os dois jovens obedeceram e um deles gritou:
— Arco-íris azul, Arco-íris azul, lorde sargento.