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Ambos riram, simulando constrangimento por serem vistos, e continuaram a andar, de mãos dadas.

— Alto! Quem são vocês?

— Ah, sinto muito, apenas amigos, num passeio noturno — disse o jovem, em sua voz mais suave e gentil. — Arco-íris azul. Esqueceu a senha?

Um dos samurais soltou uma risada e comentou:

— Se o capitão os apanhar “passeando” pelas moitas por aqui, terão mais que um arco-íris azul e receberão outro tipo de carícias!

Mais uma vez, os dois jovens fingiram rir. Sem pressa, continuaram a andar, ignorando gritos mais estridentes para que parassem. O sargento acabou berrando:

— Vocês dois, venham até aqui imediatamente!

Eles fitaram-no por um momento, murmurando queixosos que não havia mal nenhum no que faziam. Saigo e os outros, aproveitando a manobra diversionária, deslocaram-se para as posições finais. Tensos no excitamento de não terem sido notados, descansaram por um segundo, sabendo que aquela diversão estava quase encerrada. O pio de ave noturna que Saigo emitiu desta vez foi bastante alto para alcançar os dois jovens.

Sem hesitação, eles fingiram rir e saíram correndo, joviais, para longe dos guardas, de mãos dadas, como se estivessem empenhados numa brincadeira. Passaram por um ponto de luz, o que permitiu que fossem vistos com clareza, pela primeira vez. Com um grito de raiva, o sargento e quatro homens partiram em seu encalço. Sentinelas no portão principal esquadrinharam a escuridão, para descobrir o que estava acontecendo, e os guardas ao longo da sebe, que podiam ver a cena, gritaram para outros, todos entrando em alerta.

Os dois shishi foram logo cercados. Costas contra costas, as espadas em posição, permaneceram em silêncio, sob uma barragem de perguntas; não havia nada de efeminado agora em suas posturas, ou na maneira como os lábios eram repuxados, deixando os dentes à mostra.

Enfurecido, o sargento deu um passo à frente. O jovem diante dele se preparou. A mão direita entrou pela manga, saiu com um shuriken e, antes que o sargento pudesse se esquivar, o círculo de aço de cinco pontas cravou-se em sua garganta. Ele caiu, sufocado no próprio sangue a borbulhar. Os dois shishi partiram para o ataque, mas não podiam romper o cerco, e embora lutassem bravamente, ferindo três samurais, não tinham como resistir aos outros, que queriam desarmá-los, capturá-los vivos, mas não conseguiram.

Um dos jovens recebeu um golpe de espada na parte inferior das costas e soltou um grito, ferido gravemente, mas não o suficiente para uma morte imediata. O outro virou-se para ajudá-lo e, nesse instante, sofreu um golpe fatal, caindo no chão, agonizante.

Sonno-joi — balbuciou ele.

Transtornado, o outro ouviu-o, fez uma última e impotente tentativa de se atracar com um atacante e depois, abruptamente, virou a ponta de sua espada para si mesmo e tombou por cima.

— Chamem o capitão! — ofegou um samurai, o sangue escorrendo de um corte de espada no braço.

Outro samurai saiu correndo, enquanto os demais se agrupavam em torno dos corpos, o sargento ainda a gotejar sangue, embora morresse depressa.

— Nada podemos fazer por ele. Nunca vi um shuriken ser lançado tão depressa.

Alguém virou os dois corpos de barriga para cima.

— Olhem só, poemas de morte! São shishi... e ambos Satsumas! Devem ter enlouquecido...

Sonno-joi! — murmurou outro. — Isso não é loucura.

— É loucura dizer em voz alta — advertiu-o um ashigaru de rosto calejado. — Se um oficial o ouvisse...

— Esses cães sem mãe sabiam a senha! Há um traidor aqui!

Todos se entreolharam, ainda mais nervosos. À direita, o pessoal da cozinha estava paralisado, sem saber o que acontecia. Muitos samurais haviam deixado seus postos na sebe e olhavam aturdidos para os corpos, proporcionando a oportunidade que Katsumata e Saigo haviam planejado.

Saigo fez outro sinal. Seus dois guerreiros mais fortes deixaram as moitas na extrema direita e correram para o canto sudeste. Foram avistados quase que no mesmo instante. Praguejando, os dois samurais mais próximos correram para interceptá-los, enquanto outros partiam em sua ajuda. E começou um violento combate corpo a corpo, a escuridão auxiliando os atacantes. Um defensor soltou um grito e caiu, com o braço quase todo cortado. Mais samurais foram atraídos da sebe, bem na frente de Saigo. Pouco antes que os samurais subjugassem os dois guerreiros, eles interromperam o combate, numa manobra coordenada, e fingiram correr em desordem para a cerca, perto da cozinha, afastando-se do local em que se encontravam Saigo e as outras três duplas. Enquanto corriam, desenrolaram cordas que levavam na cintura, com ganchos na extremidade. Ao se aproximarem da cerca, arremessaram as cordas para o alto, com extrema habilidade, prendendo os ganchos no topo. Começaram a subir, com os perseguidores redobrando seus esforços.

A esta altura, toda a atenção se concentrava naqueles dois. Os guardas perto da entrada e no outro lado do complexo do xógum, ainda sem saber exatamente o que acontecia, exceto que havia dois ronin à solta na área, e agora tentando escapar por cima da cerca, correram para interceptá-los. Outros também dispararam pelo lado de fora da cerca, a fim de esperá-los ali.

Um dos shishi alcançou o alto da cerca, mas antes que pudesse transpô-la, uma faca empalou-o, e ele caiu para trás, entre as moitas. O outro homem abandonou sua corda, saltou para o lado do amigo e apenas teve tempo de vê-lo enfiar a própria faca na garganta, para evitar a captura vivo, antes de tombar sob uma chuva de golpes. Virou-se e lutou com extraordinária força, mas foi logo desarmado e imobilizado no chão por quatro samurais.

— Quem são vocês? — indagou um samurai, esbaforido. — Quem são vocês e o que pretendiam fazer?

Sonno-joi... obedeçam a seu imperador — balbuciou o homem, e tentou de novo se desvencilhar das mãos que o seguravam, mas não conseguiu.

Outros se agrupavam ao seu redor e ele sentiu-se confiante de ter cumprido seu papel no ataque, satisfeito por ser capaz de continuar a manobra diversionária por mais algum tempo, sem medo da captura, pois tinha um frasco com veneno na gola do quimono, ao alcance dos dentes.

— Sou Hiroshi Ishii, de Tosa, e exijo falar com o xógum!

Do lugar em que se escondiam, Saigo e seus outros cinco homens podiam ouvir o companheiro, mas a atenção deles se concentrava na sebe em frente e na entrada no outro lado. Os poucos guardas remanescentes haviam se afastado para o cerco ao homem condenado, e agora, finalmente, o alvo se encontrava aberto.