— Atacar!
Os seis homens se levantaram de um pulo e avançaram, Saigo e Tora na vanguarda. Haviam percorrido talvez a metade da distância quando soou um grito de advertência e os samurais cercando os corpos da primeira dupla correram de volta para interceptá-los. No mesmo instante, Ishii redobrou os esforços para escapar, gritando e se debatendo, para distrair aqueles que o seguravam, mas um punho cerrado acertou-o, lançando-o na inconsciência.
— Vocês dois fiquem aqui! — balbuciou o samurai, lambendo os dedos esfolados. — Não matem o filho de um cão. Vamos precisar dele vivo.
Ele se levantou, com alguma dificuldade, claudicou atrás dos outros, com um profundo corte de espada na coxa.
Alguns defensores estavam quase alcançando os seis shishi, que ainda corriam direto para a sebe.
— Agora! — ordenou Saigo.
No mesmo instante, a dupla à sua direita se virou, assumindo posições defensivas, com shurikens nas mãos. Cautelosos, os samurais reduziram o ritmo da corrida, desviando-se para a esquerda e direita, efetuaram fintas e depois atacaram, os shurikens encontrando alvos, mas sem ferir com maior gravidade, e logo outro combate começou, seis samurais contra os dois.
Reforços corriam do portão principal, outros do primeiro ponto de diversão, e todos, defensores e atacantes, convergindo para a estrela-guia — o portão para o refúgio do xógum. Quando os homens do portão principal da estalagem perceberam, horrorizados, que as sebes e a entrada haviam ficado completamente desguarnecidas — embora as portas estivessem fechadas —, com Saigo e os outros três correndo depressa, não muito longe da sebe, desviaram o curso, para se posicionarem entre os shishi e a entrada, deixando aos outros o encargo de atacá-los. Frenéticos, correram para proteger o portão. Por trás de Saigo e Tora, os dois guerreiros atacavam, recuavam, ainda cobrindo sua retaguarda. Ambos haviam sofrido ferimentos, mas dois samurais se contorciam de dor no chão. Quatro contra dois, com outros não muito longe.
— Agora! — ordenou Saigo.
A dupla à sua esquerda desviou-se para a entrada. Era certo que a alcançariam antes dos defensores, e isso fez com que outros avançando para Saigo também mudassem de direção, seguindo para a entrada. No mesmo instante, Saigo e Tora se viraram e foram se juntar ao combate logo atrás. A carga impetuosa derrubou dois dos quatro samurais restantes e ajudou a eliminar o resto do contingente inimigo... apenas Saigo e Tora, embora ofegantes, continuavam ilesos. No mesmo instante, Saigo ordenou:
— Agora!
Os dois homens entoaram “Sonno-joi!” e correram para apoiar o ataque à entrada, atraindo mais samurais, e deixando Saigo e Tora para retomar a carga na direção da sebe.
A primeira dupla de shishi atacando o portão alcançou a trilha estreita, correu para as portas. Um deles começou a abri-las. Nesse instante uma flecha se cravou na madeira e, logo em seguida, os dois atacantes foram atingidos, crivados de flechas disparadas por arqueiros entre os reforços. Gritaram, tentaram continuar, impotentes, e morreram de pé. A segunda dupla chegou ao caminho. Um correu para o samurai mais próximo entre os que se aproximavam, o outro para o portão, tropeçou nos cadáveres dos companheiros e morreu com quatro flechadas. Apenas uns poucos minutos haviam transcorrido desde o início.
O acesso ao caminho se encontrava aberto agora. Dentro em pouco, o mais veloz dos defensores alcançaria a entrada e, então, não haveria a menor possibilidade de que Saigo e Tora, quase ao final de sua corrida para a sebe, e devendo se desviar para o portão a qualquer instante, atingissem o seu objetivo. Por isso, os defensores diminuíram o ritmo, os arqueiros miraram sem pressa, confiantes na vitória. Para espanto de todos, no entanto, Saigo e Tora, em vez de correr ao longo da sebe, continuaram em linha reta e se lançaram contra a sebe, lado a lado.
O impulso fez com que passassem por ela, assim como a precisão do salto. Nos dias anteriores, Saigo descobrira que os galhos se entrelaçavam, mas os troncos eram separados por cerca de meio metro, e concluíra que um bom impulso, se efetuado no ponto correto, permitiria a passagem para o outro lado.
E foi o que conseguiram, embora os galhos os deixassem com o rosto e braços ensangüentados. Os dois se encontravam no ponto exato que Saigo planejara — o caminho sinuoso ao lado da varanda, que levava à casa de banho. Por um momento, não havia ninguém à vista, e depois vários servos e criadas apavoradas os contemplaram de uma porta, para desaparecer em seguida. Saigo seguiu à frente na corrida silenciosa pelo caminho, subiram os degraus, contornaram o canto da varanda. Dois homens ansiosos surgiram do nada, desarmados e despreparados, um deles o camareiro. Saigo golpeou os dois, o camareiro sofreu morte instantânea, o outro ficou ferido, e ele continuou a avançar. Tora acabou de liquidar o segundo homem, pulou sobre os corpos e foi em seu encalço.
Avançaram pela varanda, contornaram o canto, arremeteram pela tela leve de shoji para entrar na casa de banho. Criadas seminuas olharam para eles, em pânico: espadas ensangüentadas, os rostos cortados e pingando sangue, quimonos rasgados. O ar era quente, úmido, com uma suave fragrância.
Saigo soltou um berro de raiva. A banheira rasa e fumegante, alimentada por uma fonte de água quente, estava vazia, assim como as quatro caixas de vapor feitas de madeira e as mesas de massagem, exceto uma. Ele absorveu no mesmo instante cada detalhe da moça pequena e nua estendida ali, os olhos chocados, a boca entreaberta, dentes enegrecidos, os cabelos pretos torcidos numa toalha branca, mais toalhas por baixo do corpo, seios diminutos, mamilos de um marrom escuro, as curvas sedutoras, a pele dourada agora rósea do calor do banho, oleosa e fragrante... e a massagista cega, seminua, de pé ao seu lado, imóvel, a cabeça inclinada, escutando com total concentração.
Seria muito fácil matar a moça e todas as outras, mas suas ordens eram para não atacar a princesa, a qualquer custo. Mesmo assim, sua fúria por ter sido enganado — o momento que escolhera fora perfeito, as informações eram perfeitas, e o padrão do xógum nunca variava — fez com que sua cabeça parecesse que iria explodir. A fúria se transformou em desejo, e ele estremeceu, querendo aquela mulher, agora, depressa, brutalmente, de qualquer maneira, a esposa antes do marido, a morte para ambos, mas só depois de possuí-la.
Os lábios se afastaram dos dentes, e ele arremeteu pela distância que os separava. As criadas se dispersaram, uma desmaiou, a princesa ofegou, permaneceu imóvel, apavorada. Mas a obsessão pelo xógum prevaleceu, e Saigo passou por ela, continuou até a porta de shoji, contra a qual se lançou, e continuou a correr, determinado, com Tora logo atrás, por outras varandas, a caminho dos aposentos de sua presa, os jardins à direita, cômodos à esquerda — não era mais um homem racional, mas sim um animal enfurecido, empenhado em matar. Portas de shoji foram abertas, rostos apareceram. Criadas, damas de companhia e servos, atraídos pela comoção, vestidos ou semidespidos para a noite, a cama ou o banho, olharam aturdidos para eles.