Não havia guardas naqueles cômodos. Ainda.
Nem qualquer oposição. Ainda.
Mais alguns cômodos para ultrapassar, portas, rostos, e depois ele viraria o último canto, a última varanda. A expectativa de Saigo aumentou ainda mais, pois o caminho era coberto e magnífico, jardins à direita e esquerda, sem ter mais de se preocupar com outros cômodos e guardas à espera, e ao final os aposentos do xógum, onde ele próprio deitara em segredo, com sua cortesã.
Todos os sentidos alertas para o perigo esperado, Tora poucos passos atrás, correndo na mesma velocidade, os sons de inimigos se aproximando. Passaram por outro cômodo. Só mais uma porta, o derradeiro perigo. Rostos na porta, um médico e um jovem tossindo, fitando-os chocados, depois ele virou a curva e iniciou a carga final, junto com Tora.
Os dois homens estacaram abruptamente. Seus corações pararam. Diante deles, um oficial e três samurais saíram pela porta do santuário, empunhando suas espadas, à espera. Uma hesitação mínima e depois Saigo correu para a morte, a sua ou a deles, Tora com o mesmo empenho, pois apenas aqueles quatro homens se interpunham entre eles e o xógum que protegiam.
— Sonno-joi!
O capitão sustentou a primeira carga, aparou o golpe, as espadas se juntaram, e depois ele virou a sua, atacou Saigo, enquanto dois outros samurais avançavam para Tora, o último permanecendo de reserva, como fora ordenado. Outra sucessão de violentos golpes e contragolpes, Saigo com uma confiança absoluta, tão perto do sucesso, pressionando no ataque, sentindo-se um super-homem, e sua lâmina parecendo imbuída de vontade própria, procurando a carne inimiga, como destruiria, dentro de mais alguns segundos, o menino xógum...
Houve um clarão ofuscante por trás de seus olhos, o latejar na cabeça aumentou, e ele viu de repente o médico e o menino, lembrou que alguém lhe dissera que havia um rumor de que o xógum sofria de uma tosse seca constante... não havia retratos dele, é claro, e nenhum dos shishi jamais o vira.
— Se não o encontrarem na casa de banho — dissera Katsumata, — poderão reconhecê-lo pelos dentes enegrecidos, a tosse, a proximidade da princesa, a qualidade de suas roupas... e lembrem-se de que tanto ele quanto a princesa detestam guardas por perto.
Com uma força tremenda, aumentada ao máximo, uivando como uma besta selvagem, Saigo atacou o capitão, que escorregou no chão envernizado e por um instante ficou desamparado. Mas Saigo não desfechou o golpe fatal; em vez disso, virou-se para o menino... e o último samurai encontrou a oportunidade por que esperava, segundo as ordens. Sua espada penetrou fundo no flanco de Saigo, que nada sentiu, e golpeou impotente o fantasma do xógum à sua frente, várias vezes, resvalou para o chão ainda atacando, já morto, mas sem o saber.
O capitão levantara-se de um pulo e correu para atacar Tora, acertou-o em cheio e depois, guerreiro experiente, retirou a espada e decapitou-o de um só golpe.
— Façam a mesma coisa com ele — balbuciou o capitão, apontando para Saigo.
Seu peito arfava, enquanto tentava recuperar o fôlego. Correu de volta pela varanda. Encontrou ali homens que vinham da entrada, liderados por seu segundo no comando. O capitão xingou-o, empurrou-o para o lado, seguiu em frente, dizendo:
— Cada homem neste turno deve se apresentar na praça diante da estalagem, desarmado e de joelhos! Você também!
O coração batendo forte, ele sentia uma fúria intensa, ainda não controlara seu pânico. Pouco antes do pôr-do-sol, Nobusada mandara chamá-lo e dissera, impertinente:
— Tire todos os guardas do lado interno da sebe. É um absurdo tê-los aqui. Os aposentos são pequenos e horríveis. Será que você é tão impotente e inepto que nem é capaz de garantir a segurança nesta estalagem pequena e sórdida? Temos de nos banhar com guardas, dormir com guardas, comer com eles nos olhando? Quero que se retirem. Esta noite proíbo todos os guardas aqui!
— Mas devo insistir, Sire...
— Não vai insistir em nada. Não haverá guardas no lado de dentro da sebe esta noite. A reunião está encerrada!
Não havia nada que o capitão pudesse fazer, mas também não havia necessidade de se preocupar. Claro que tudo estava seguro.
Ao ouvrir os primeiros ruídos distantes e abafados do ataque, ele efetuava um circuito final e satisfatório pelo lado interno da sebe, acompanhado por quatro homens — a sebe também funcionava como uma barreira para o som. Ao chegar à entrada, ele ficara consternado ao ver quatro homens correndo para a sebe, e dois para o portão. Seu primeiro pensamento fora o xógum, e partira para a casa de banho, encontrando no caminho o camareiro, que lhe perguntara:
— O que está acontecendo?
— Alguns homens nos atacam! Tire o xógum do banho!
— Ele foi falar com o doutor...
Outra corrida em pânico, passando pela casa de banho, até os aposentos, para descobri-los vazios, uma criada assustada informando que o lorde xógum se encontrava num dos aposentos ao lado da varanda, e depois a saída para o corredor, deparando com dois homens atacando, sem meios de proteger o xógum, mas concluindo que se os atacantes corriam para cá é porque talvez tivessem perdido seu suserano...
O capitão sabia agora que não sobreviveria se não encontrasse o xógum vivo. O que não demorou a acontecer. Nobusada tossia e tremia, ainda assustado, cercado por várias pessoas, que aumentavam o tumulto. O capitão logo verificou que a princesa estava ilesa, embora também histérica. Seu pânico se dissipou. Ignorou o acesso de raiva de Nobusada e disse, numa voz gelada, que intimidou todos os soldados nas proximidades:
— Mandem um mensageiro e quatro homens a toda velocidade para levarem um relatório antecipado. Exceto pelos homens deste turno, todos os guardas entram de serviço agora, dentro do conjunto, cinqüenta homens em torno dos aposentos, dois homens no canto de cada varanda. E dez homens sempre à vista do lorde xógum, até que ele esteja são e salvo dentro dos muros do palácio.
No meio da manhã seguinte, dentro dos muros do palácio, Yoshi atravessava apressado o círculo exterior de jardins, sob uma chuva leve. O general Akeda caminhava ao seu lado.
— É perigoso demais, Sire — disse ele, com medo que cada moita, por mais bem cuidada que fosse, pudesse esconder um inimigo.
Os dois usavam armaduras leves e espadas, um fato raro ali, onde todos os samurais e todas as armas eram proibidos, exceto pelo xógum no poder e uma guarda imediata de quatro homens, o líder dos anciãos e o guardião do herdeiro.
Era quase meio-dia. Os dois estavam atrasados e nem notaram a beleza ao redor, lagos e pontes, arbustos floridos, árvores podadas e cuidadas ao longo dos séculos. Sempre que um jardineiro os via, fazia uma reverência e se mantinha na posição até que sumissem de vista. Usavam mantos de palha por cima das armaduras, para se protegerem da chuva. Uma chuva intermitente caíra durante toda a manhã. Yoshi acelerou os passos.