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Por um momento, Yoshi Toranaga não disse nada. Fitou Ogama, que sustentou seu olhar, sem medo, esperando, pronto para lutar, se fosse necessário. Depois, Yoshi suspirou, removeu as gotas de chuva da beira do chapéu de aba larga.

— Quero que sejamos aliados. E aliados devem se ajudar mutuamente. Talvez eu chegue a um acordo, mas primeiro lhe darei algumas informações especiais: Katsumata está aqui, em Quioto.

O sangue afluiu ao rosto de Ogama.

— Não é possível. Meus espiões teriam me avisado.

— Ele está aqui e há algumas semanas.

— Não há homens de Sanjiro em Quioto, muito menos esse. Meus espiões teriam...

— Sinto muito — insistiu Yoshi, a voz insinuante —, mas ele se encontra aqui em segredo, não como batedor e espião de Sanjiro, pelo menos não abertamente, Katsumata é shishi, um sensei de shishi, e o líder dos shishi aqui, com o codinome de Corvo.

Ogama estava aturdido.

— Katsumata é o líder shishi?

— Isso mesmo. E um pouco mais. Pense por um momento: ele não é o conselheiro e tático mais antigo e de maior confiança de Sanjiro? Não o enganou, por conta de Sanjiro, com seu falso pacto e a manobra para frustrá-lo em Fushimi, permitindo que Sanjiro escapasse? Isso não significa que Sanjiro de Satsuma é secretamente o verdadeiro líder dos shishi, e que todos os assassinatos fazem parte de seu plano geral de derrubar a todos nós, a você em particular, para se tornar o xógum?

— Esse sempre foi o objetivo de Sanjiro, não resta a menor dúvida — murmurou Ogama, confuso, percebendo que muitas ocorrências até então inexplicadas agora se ajustavam nos lugares devidos. — Se ele controla também todos os shishi...

Ogama fez uma pausa, subitamente furioso por Takeda nunca lhe ter contado. Afinal, Takeda não é meu espião, um verdadeiro vassalo secreto?

— Onde está Katsumata neste momento?

— Uma de suas patrulhas quase o emboscou na Estalagem dos Pinheiros Sussurrantes, há poucos dias.

A cor voltou ao rosto de Ogama.

— Ele se encontrava ali? Fomos informados que alguns shishi dormiam ali, mas eu nunca soube...

Mais uma vez, ele quase sufocou de raiva por Takeda não ter avisado que seu odiado inimigo estava ao seu alcance. Por quê? Ora, não importa, seria fácil cuidar de Takeda. Primeiro, porém, Katsumata. Não esqueci que Katsumata frustrou meu ataque de surpresa a Sanjiro. Se não fosse por Katsumata, Sanjiro teria morrido, eu me tornaria o lorde de Satsuma e não haveria a menor necessidade de conversar com Yoshi Toranaga... ele se poria de joelhos diante de mim.

— Onde ele está neste momento? Sabe o local?

— Sei onde é a casa segura em que ele esteve ontem à noite, onde talvez apareça também esta noite. — Uma pausa, e Yoshi acrescentou, a voz bem suave:— Há mais de cem shishi em Quioto. Eles já planejam um ataque em massa contra você.

Ogama sentiu um calafrio, sabendo que não existia nenhuma defesa eficaz contra um fanático assassino que não tinha medo de morrer.

— Quando?

— Deveria ser amanhã, ao crepúsculo... se o ataque contra o xógum fosse bem-sucedido. Depois que você morresse, com a ajuda de partidários entre suas tropas, eles tomariam os portões.

Ogama precisou recorrer a todo seu controle para não revelar a Yoshi que deveria ter uma reunião secreta com Takeda, no dia seguinte, ao crepúsculo, momento perfeito para um ataque de surpresa.

— E agora que foi um fracasso?

— A informação que recebi foi de que os líderes se reunirão esta noite para decidir. Agora, formalmente, você se encontra no topo da lista, logo depois do meu nome e de Nobusada.

— Por quê? — indagou Ogama, veemente. — Eu apoio o imperador, apoio a luta contra os gai-jin.

Yoshi absteve-se de sorrir, sabendo o que era melhor.

— Vamos juntar nossas forças esta noite. Sei onde fica o ponto de reunião, onde Katsumata e a maioria dos líderes devem se encontrar esta noite... há um toque de recolher do amanhecer ao anoitecer naquela parte da cidade.

Ogama exalou.

— E o preço?

— Primeiro, tenho mais uma informação que afeta bastante a nós dois.

Aumentando a apreensão de Ogama, Yoshi relatou os detalhes da reunião dos anciãos com Sir William e os outros ministros, falou de seu espião Misamoto, da ameaça de Sir William de efetuar em breve uma incursão armada a Quioto, assim que sua esquadra voltasse, e como a ameaça e o pagamento haviam sido protelados por um estratagema.

— A esquadra deles não passará por Shimonoseki... se eu assim ordenar.

— Podem fazer o percurso mais longo, contornando a ilha do Sul.

— Percurso mais longo, percurso mais curto, não faz diferença. Se desembarcarem em Osaca, ou nas proximidades, eu... ou nós vamos destruí-los.

— Na primeira vez. Com grandes perdas, mas conseguiremos, os gai-jin serão rechaçados. Há dois dias, no entanto, recebi um relatório secreto do departamento do Bakufu que lida com as informações da China. — Yoshi estendeu o pergaminho. — Leia você mesmo.

— O que diz? — perguntou Ogama, bruscamente.

— Que a esquadra de Iocoama, enviada para punir o afundamento de um único navio britânico, devastou vinte léguas da costa da China, ao norte de Xangai, incendiando todas as aldeias, afundando todas as embarcações.

Ogama cuspiu.

— Piratas. Ninhos de piratas.

Ele sabia bastante sobre a região. No passado, fora uma política histórica embora secreta de Choshu — e também de Satsuma — enviar atacantes à costa da China para saquear implacavelmente, de Xangai, para o sul, além de Hong Kong, até o estreito de Taiwan. Os chineses chamavam-nos de wako, piratas, odiando-os e temendo-os tanto que por séculos os imperadores da China haviam proibido que qualquer japonês desembarcasse em suas praias; todo o comércio entre as duas terras era conduzido apenas por não-japoneses.

— Piratas, sim, mas aquela escória nada tem de covarde. Não faz muito tempo, um exército desses mesmos gai-jin humilhou toda a China, pela segunda vez, incendiou o palácio de verão do imperador e Pequim a seu capricho. Suas esquadras e exércitos possuem tremendo poder.