— Estamos no Nipão, não na China. — Ogama deu de ombros. Não se sentia disposto a revelar seus planos para a defesa de Choshu. E pensou: minhas costas são escarpadas, infestadas de rochedos, difíceis de invadir, bastante defensáveis, muito em breve se tornarão inexpugnáveis, assim que todas as fortificações ficassem prontas e seus guerreiros ocupassem seus postos. — E nós não somos chineses.
— Minha opinião é de que precisamos de paz entre todos os daimios para ganhar tempo, manipular os gai-jin, descobrir tudo sobre seus canhões secretos, armas secretas, navios secretos, saber como o povo de uma ilha tão pequena e repulsiva, menor que a nossa terra, tornou-se o mais rico do mundo e domina a maior parte.
— Mentiras, mentiras espalhadas para assustar os covardes aqui.
Yoshi sacudiu a cabeça.
— Não acredito nisso. Primeiro, devemos aprender, depois poderemos destruí-los, o que é impossível agora.
— Não é, não. Esta é a terra dos deuses. Tenho uma fábrica de canhões em Choshu, em breve haverá outras. Satsuma tem três pequenos navios a vapor, o início de um estaleiro; logo terá outros. — O rosto de Ogama se contraiu. — Podemos destruir Iocoama e essa esquadra, e estaremos preparados quando os outros voltarem.
Yoshi ocultou sua surpresa pela veemência e intensidade do ódio, secretamente exultante por ter descoberto outra arma que podia usar.
— Concordo. É esse o meu objetivo. Como pode ver, Ogama-dono — disse ele, como se estivesse bastante aliviado —, pensamos da mesma maneira, embora talvez de pontos de vista diferentes. Vamos destruí-los, mas no momento certo, o momento que escolhermos, após extrairmos os seus conhecimentos, depois que nos derem os meios para frustrarmos seus planos e partirmos suas cabeças.
Uma pausa, e Yoshi acrescentou, a voz firme:
— Dentro de um ano, você e eu controlaremos o conselho e o Bakufit. Em três ou quatro anos, podemos comprar muitos fuzis, canhões e navios.
— Pagos como? Os gai-jin são gananciosos.
— Um meio é carvão para seus navios. Outro é ouro. Yoshi explicou seu esquema de exploração.
— Muito esperto — murmurou Ogama, os lábios se contraindo num estranho sorriso. — Temos em Choshu carvão, ferro e árvores para navios.
— E já uma fábrica de armamentos.
Ogama riu, uma boa risada, e Yoshi riu também, sabendo que conseguira uma abertura.
— É verdade, e minhas baterias aumentam a cada mês. — Ogama ajeitou o manto, sob a chuva crescente, e acrescentou, incisivo: — Assim como minha determinação em disparar contra os navios inimigos, no momento em que desejar. São essas todas as suas informações, Yoshi-dono?
— Por enquanto. Posso aconselhá-lo a relaxar um pouco a pressão no estreito... de qualquer forma, é seu para fazer o que bem quiser. Isso é tudo, por enquanto, mas como aliado você receberá todos os tipos de informações sigilosas.
— Como aliado, eu esperaria as informações sigilosas.
Ogama balançou a cabeça, meio para si mesmo. Olhou para Basushiro, depois mudou de idéia sobre consultá-lo. Yoshi tem razão, pensou ele, os líderes devem ter segredos.
— Já falamos o suficiente. Katsumata: perguntei o preço. Um ataque conjunto esta noite.
— O que um aliado muito importante ofereceria?
Ogama esticou-se para aliviar a tensão no pescoço e ombros, esperando por essa indagação... pois apesar de toda a sua bravata, nada tinha de tolo. Haveria tempo suficiente para mudar uma oferta, pensou ele, embora nenhum de nós dois jamais perderia a honra barganhando como os desprezados mercadores de arroz de Osaca.
— Você pode guarnecer os portões por um mês, apenas vinte homens em cada um dos seis portões, com duzentos de meus homens estacionados nas proximidades... — Ogama sorriu —... mas não bastante perto para embaraçá-lo. Qualquer pessoa entrando ou saindo receberá permissão de seu oficial nos portões, como é correto... depois de uma prévia e discreta consulta ao meu... ao meu oficial de ligação.
— Consulta?
— Consulta, como é de praxe entre aliados sigilosos, para que se possa chegar a um consenso sem maiores dificuldades. — O sorriso desapareceu. — Se mais de vinte de seus homens aparecerem, os meus homens recuperam a posse e todos os acordos são cancelados. Concorda?
Os olhos de Yoshi se tornaram impassíveis. Não havia necessidade de ameaças, pois era óbvio que qualquer manobra escusa de um dos lados cancelaria todos os acordos.
— Prefiro quarenta homens em cada portão... podemos aceitar sem problemas os detalhes da mudança da guarda... e eu guarneço os portões enquanto o xógum Nobusada e a princesa Yazu permanecerem lá dentro.
Ogama percebera a mudança.
— O xógum Nobusada, sim, mas não a princesa, que... que pode continuar lá dentro para sempre, não é mesmo? Quarenta? Está certo, quarenta em cada portão. E é claro que o irmão dela, o filho do céu, não revogará seu memorial, sua solicitação para que eu vigie os portões contra seus inimigos.
— O filho do céu é o filho do céu, mas duvido que haja cancelamento enquanto as forças do xogunato estiverem exercendo seus direitos históricos.
— Vamos esquecer essa conversa polida e falar às claras: aceitarei um artifício para salvar as aparências nos portões, em troca de Katsumata e todo o resto... seus homens se tornam a guarda de honra, seus estandartes podem ficar lá. Concordo com muito do que você disse, isso mesmo, com muita coisa, mas não renuncio à minha oposição aos “direitos históricos”, ao xogunato e ao Bakufu...
Ogama fez uma pausa; e porque queria de fato o que lhe era oferecido, fez outra concessão:
—... ao atual xogunato e Bakufu, Yoshi-dono. Por favor, desculpe minha franqueza. Seria ótimo se pudéssemos ser aliados. Eu não imaginava que seria possível, nem que pudesse concordar com qualquer coisa.
Yoshi acenou com a cabeça, ocultando seu júbilo.
— Sinto-me feliz por podermos concordar, e digo com franqueza que se podemos concordar em grandes mudanças, também chegaremos a um acordo nas pequenas. Por exemplo, se tal memorial viesse do imperador, seria uma falsificação.
O sorriso de Ogama agora foi genuíno, e ele achou que chegara a um acordo perfeito.
— Ótimo. Agora, vamos cuidar de Katsumata.
O ataque ao esconderijo dos shishi começou poucas horas antes do amanhecer. A surpresa foi perfeita. Katsumata, todos os sublíderes e muitos outros se encontravam no local. Inclusive Sumomo.
O primeiro momento em que os dois vigias perceberam o perigo foi quando uma das choupanas, quase no final da viela, lamacenta da chuva, irrompeu em chamas, aos gritos abafados de alarme dos ocupantes e vizinhos próximos. No mesmo instante, esses homens e mulheres — todos infiltrados em segredo pelo Bakufu —, saíram para a viela, num pânico simulado, a manobra diversionária ajudando a encobrir a aproximação furtiva da força atacante. Quando as sentinelas foram investigar, flechas zumbiram pela noite e as liquidaram. Um dos homens ainda gritou em advertência antes de morrer.