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— Talvez estejamos dando importância demais a esses tolos — comentou Yoshi, simulando desprezo.

Seus olhos se contraíram quando, por cima do ombro de Ogama, avistou Basushiro e alguns guardas dobrarem a esquina da viela enlameada e se aproximarem correndo. Ele tornou a fitar Ogama.

— Por que não deixar suas cabeças em chuços aqui? Por que lhes conceder a honra de um cartaz? Aqueles que quiserem saber o que aconteceu aqui logo tomarão conhecimento de tudo... e ficarão intimidados. Neh?

Ogama sentiu-se satisfeito com a solução diplomática.

— Excelente! Concordo. Vamos nos encontrar de novo ao pôr-do-sol, e... Ele parou de falar, ao perceber a aproximação apressada de Basushiro, suado e ofegante. Foi ao seu encontro.

— Mensageiro de Shimonoseki, Sire — balbuciou Basushiro.

O rosto de Ogama tornou-se uma máscara. Ele pegou o pergaminho, foi até uma tocha. Todos o observavam enquanto abria a mensagem... e Basushiro segurava um guarda-chuva sobre sua cabeça.

A mensagem era do capitão que comandava a guarnição no estreito, datada de oito dias antes, despachada com o máximo de presteza, os homens galopando dia e noite, com a mais alta prioridade:

Sire, ontem a esquadra inimiga retornou, consistindo em nave capitânia e mais sete navios de guerra, todos a vapor, alguns rebocando barcaças com carvão, entraram no estreito. Seguindo suas instruções, de que não deveríamos atacar navios de guerra inimigos sem suas ordens por escrito, deixamos passar.

Depois da passagem da armada, uma fragata a vapor, com a bandeira francesa, voltou, numa demonstração de arrogância, e disparou sucessivas cargas de artilharia contra nossas quatro baterias na extremidade leste do estreito, destruindo-as, antes de tornar a se afastar. Mais uma vez, abstive-me de retaliar, cumprindo suas ordens. Se atacado no futuro, solicito permissão para afundar o atacante.

Morte a todos os gai-jin, Ogama sentiu vontade de gritar, cego de raiva por toda uma esquadra inimiga ter passado ao seu alcance, como Katsumata, mas acabasse escapando à vingança... como Katsumata. Salpicos de saliva espumante surgiram nos cantos de seus lábios.

— Prepare novas instruções: ataque e destrua todos os navios de guerra inimigos.

Basushiro, ainda tentando recuperar o fôlego, murmurou:

— Permite-me sugerir, Sire, que considere “se mais de quatro ao mesmo tempo”? Sempre quis manter a surpresa.

Ogama limpou a boca, acenou com a cabeça, o coração batendo forte ao pensamento de tantos navios que poderia ter destruído. A chuva aumentara e tamborilava no guarda-chuva. Além de Basushiro, ele avistou Yoshi e diversos oficiais, esperando, observando-o, e avaliou se deveria tratar Yoshi como inimigo ou aliado, as implicações da esquadra, sua arrogância, e a própria impotência sufocando-o.

— Yoshi-dono!

Ele fez um sinal para Yoshi, e os dois, juntamente com Basushiro, afastaram-se para um ponte mais isolado.

— Leia; por favor.

Yoshi leu rapidamente. Apesar de todo o seu controle, a cor se esvaiu do rosto.

— A esquadra seguia para o mar interior, na dkeção de Osaca? Ou ia para o sul, na direção de Iocoama?

— Para o sul ou não, os próximos navios de guerra que passarem por minhas águas serão afundados! Basushiro, mande homens imediatamente para Osaca...

— Espere um instante, Ogama-dono — murmurou Yoshi, querendo tempo para pensar. — Basushiro, qual é a sua sugestão?

O homenzinho respondeu sem hesitar:

— Sire, no momento presumo que o destino é Osaca e que devemos nos preparar, juntos, para defendê-la. Já enviei espiões urgentes para descobrir o curso da esquadra.

— Ótimo. — Com a mão trêmula, Ogama limpou a chuva do rosto. — Toda a esquadra gai-jin em meu estreito... eu deveria estar lá!

Basushiro declarou:

— É mais importante que proteja o imperador contra seus inimigos, Sire, e seu comandante agiu certo ao não disparar contra um único navio. Com toda certeza, era um estratagema para verificar sua força. Ele tinha razão ao não revelar suas defesas. Agora que a armadilha está preparada, deseja acioná-la. Como apenas um navio de guerra inimigo voltou para bombardear algumas posições mais fracas e depois partiu às pressas, presumo que o comandante da esquadra estava com medo, não se encontrava preparado para um ataque total ou para desembarcar tropas, iniciando uma guerra que nós terminaremos.

— É verdade. Um estratagema? Concordo. Yoshi-dono — disse Ogama, decidido —, devemos iniciar logo a guerra. Um ataque de surpresa a Iocoama, quer eles desembarquem ou não em Osaca.

Yoshi não pôde responder de imediato, quase tonto com uma súbita apreensão, que tentava ocultar. Oito navios de guerra? Quatro a mais do que haviam partido para a China, o que significava que os gai-jin haviam reforçado sua esquadra. Por quê? Para retaliar pelos ataques de Satsuma e ainda pelos ataques de Ogama a seus navios. E agirão como fizeram na China. O navio gai-jin foi afundado no estreito de Taiwan, mas eles devastaram a costa chinesa, a centenas de léguas de distância.

Qual é o alvo mais fácil para eles no Nipão? Iedo.

Ogama compreendeu isso e seu plano secreto é justamente provocar os gai-jin. Se eu fosse o líder gai-jin, destruiria Iedo. Eles não sabem, mas Iedo é indivisível do nosso xogunato. Se Iedo acabar, o xogunato Toranaga também acaba, e a seguir a terra dos deuses ficará exposta a toda e qualquer violação.

Portanto, isso deve ser evitado, a qualquer custo.

Pense! Como conter os gai-jin, e também Ogama, cuja solução é oferecer nossas cabeças ao carrasco... mas não a dele?

— Concordo com seu sábio conselheiro, devemos nos preparar para defender Osaca — disse Yoshi, o estômago revirado. Depois, sua ansiedade pela segurança de Iedo prevaleceu. — Quer o destino seja Osaca, agora ou mais tarde, o fato é que uma esquadra de guerra voltou. A menos que tenhamos muito cuidado, a guerra será inevitável.

— Já chega de sermos cautelosos. — Ogama inclinou-se para Yoshi. — Eu digo que não importa se eles vão ou não desembarcar suas tropas em Osaca, devemos extirpar a pústula que tanto nos incomoda e exterminar Iocoama. Agora! Se você não quiser fazer isso, sinto muito, eu farei.

LIVRO TRÊS

32

IOCOAMA

Sábado: 29 de novembro: