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Passamos pela esquadra há dois dias, Sr. Malcolm, Jamie — disse o capitão do clíper, em tom jovial, disfarçando seu choque pela mudança em Malcolm, que conhecia desde que nascera, com quem rira e bebera apenas três meses antes, em Hong Kong; ele tinha agora as feições pálidas e encovadas, uma estranha expressão nos olhos, precisava de bengalas para andar ou mesmo ficar de pé. — Estávamos com todas as velas içadas, um vento de popa de força seis, navegando bem depressa, enquanto eles seguiam mais devagar, uma providência sensata, para não perder as barcaças de carvão que rebocavam.

Seu nome era Sheeling, e acabara de desembarcar de seu navio, o Dancing Cloud, cuja chegada fora inesperada. Tinha quarenta e dois anos, era alto, barbudo, o rosto curtido, trabalhava para a Casa Nobre há vinte e oito anos.

— Nós apenas os saudamos e continuamos em frente.

— Chá, capitão? — perguntou McFay, servindo automaticamente, sabendo por longa experiência que era a sua bebida predileta.

Enquanto estava no mar, ele sempre tomava chá com açúcar e leite condensado, de dia ou de noite. Estavam na suíte de Malcolm, sentados à mesa grande. Jamie, como o tai-pan, mal prestava atenção ao relato, os olhos fixados na bolsa de correspondência lacrada, com o emblema da Casa Nobre, sob o braço esquerdo de Sheeling.

O capitão tinha um gancho no lugar da mão esquerda. Quando era aspirante da marinha, durante uma viagem pelo rio Yang-tsé, negociando ópio, piratas da frota do Lótus Branco cercaram sua lorcha e, no combate, lhe cortaram a mão esquerda. Depois, ele fora enaltecido por sua bravura. Seu amado ídolo, Dirk Struan, trouxera-o de volta do abismo e o pusera para trabalhar com o comandante de sua frota, Orlov, o Corcunda, que recebera ordens para lhe ensinar tudo o que sabia.

— Claro! — exclamou Sheeling, sorridente. Ele tomou um gole enorme. — Excelente, Jamie! Preferia um uísque, como sabe muito bem, mas isso terá de esperar até Honolulu... planejo partir imediatamente, só vim...

— Honolulu? — disseram Struan e Jamie, quase ao mesmo tempo.

Não era uma escala habitual para os clíperes da companhia, atravessando o Pacífico até San Francisco e voltando o mais depressa possível.

— Qual é sua carga? — indagou Malcolm, quase acrescentando “tio Sheeley”, o nome que usava nos bons tempos de sua infância.

— As coisas de sempre, chá e especiarias para San Francisco. Mas tenho ordens para entregar correspondência a nossos agentes no Havaí.

— Ordens da mãe?

Sheeling acenou com a cabeça, uma expressão de simpatia nos olhos cinza. Ouvira rumores, e se encontrava a par de parte do problema entre mãe e filho — o noivado de Malcolm e a oposição da mãe eram o tema de todas as conversas em Hong Kong —, mas tinha instruções rigorosas para não mencionar o assunto.

— Como estão os negócios no Havaí? — perguntou Malcolm, sentindo nova pontada de ansiedade. — Ela disse?

— Não. A Sra. Struan apenas me ordenou que passasse por lá.

Uma rajada de vento sacudiu as persianas. Eles olharam pela janela. Na baía: o clíper de três mastros estava ancorado, balançando nas ondas, as velas prontas para serem içadas de novo, disposto a se lançar ao mar outra vez, para enfrentar os ventos, bons e maus, qualquer coisa que tivesse pela frente. Os três homens se enfunaram, como velas de orgulho, e Sheeling experimentou intensa satisfação por comandar aquele rei dos mares. Tornou a concentrar sua atenção em Malcolm, coçou o pescoço com o gancho, distraído.

— Recebi a ordem de vir até aqui pelo mesmo motivo: a correspondência. — Ele entregou a bolsa. — Podem me dar um recibo de entrega, por favor?

— Claro. — Malcolm acenou com a cabeça para Jamie, que começou a escrever o recibo. — Quais são as novidades em Hong Kong?

— Eu diria que a maior parte consta da correspondência, mas também trouxe os últimos jornais, de Hong Kong e de Londres... deixei lá embaixo, no seu escritório.

Sheeling tomou o resto do chá, ansioso em partir. Aquela seria sua quarta visita havaiana, ao longo dos anos, e conhecia a beleza de suas mulheres, a natureza excepcional, irradiando alegria, um lugar em que o dinheiro quase não era uma consideração, muito diferente de Hong Kong, Xangai ou qualquer outro porto em que já estivera. Desta vez comprarei alguma terra, em segredo. Sob um nome diferente. Irei para o Havaí no ano que vem, quando me aposentar, e ninguém precisa saber disso. O pensamento de largar a esposa, uma megera consumada, e os filhos vorazes, em Londres, papai me compra isto, papai me compra aquilo — não que os visse com freqüência —, deixou-o contente.

— Eu me referia às notícias locais de Hong Kong — explicou Struan.

— Ah, sim. Primeiro, sua família está muito bem, a Sra. Struan, seu irmão, suas irmãs, embora o jovem Duncan estivesse com outra gripe forte no momento em que parti. Quanto a Hong Kong, as corridas continuam sensacionais, assim como a comida, o estabelecimento da Sra. Fortheringill continua a prosperar, apesar de uma recessão, a Casa Nobre permanece em seu curso, como você já sabe melhor do que eu, bem como os rumores habituais de que sua situação não é das melhores, provavelmente espalhados pelos Brocks, mas isso também é habitual, nunca muda. — Sheeling levantou-se. — Agradeço todas as gentilezas, mas é melhor eu partir agora, aproveitar a maré.

— Não vai pelo menos ficar para almoçar?

— Não, obrigado. É melhor eu...

— Que rumores? — indagou Malcolm, em tom ríspido.

— Nada que valha a pena repetir, Sr. Malcolm.

— Por que não me chama de tai-pan, como todos os outros? — disse Malcolm, irritado, o medo do que podia haver na correspondência a corroê-lo. — Eu sou, não é mesmo?

A expressão de Sheeling não se alterou; gostava de Malcolm, admirava-o, lamentava pelo fardo que ele tinha agora de carregar.

— É, sim, e tem toda razão, chegou a hora de eu parar de chamá-lo de “Sr. Malcolm”. Mas, pedindo perdão, seu pai me disse exatamente a mesma coisa depois que se tornou o tai-pan, quando o tufão matou o... matou o tai-pan, Sr. Dirk. Como sabe, ele era muito especial para mim, e perguntei ao meu comandante, capitão Orlov, se podia conversar com o Sr. Culum. O capitão concordou, e eu disse ao seu pai que sempre chamaria o Sr. Dirk de tai-pan. E indaguei se, como um favor especial, poderia chamá-lo apenas de senhor, ou mister Struan. Ele disse que eu podia. Foi um favor especial. Poderia...

— Pelo que sei, o capitão Orlov chamava meu pai de tai-pan e meu pai também era especial para ele, talvez ainda mais.

— É verdade — murmurou o capitão, empertigando-se. — Quando o capitão Orlov desapareceu, seu pai me pôs no comando da frota. Servi a seu pai com todo o meu empenho, como também servirei a você, e a seu filho, se viver por tanto tempo. Como um favor especial, poderia tratá-lo da mesma maneira que a seu pai?

Sheeling era mais do que valioso para a Casa Nobre. Todos os três sabiam disso. E também conheciam sua inflexibilidade. Malcolm acenou com a cabeça, mas sentia-se magoado.