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— Eu lhe desejo uma viagem segura, capitão.

— Obrigado, senhor. E... e boa sorte, Sr. Struan, em tudo. E a você também, Jamie.

Enquanto ele se encaminhava para a porta, Malcolm rompeu o primeiro lacre. Antes que o capitão tocasse na maçaneta, a porta foi aberta pelo outro lado. Era Angelique. Touca, vestido azul marinho, luvas, sombrinha. Todos os três homens prenderam a respiração por sua radiância.

— Oh, desculpe, chéri. Não sabia que estava ocupado...

— Não tem problema, pode entrar. — Malcolm levantou-se com dificuldade. — Quero apresentá-la ao capitão Sheeling, do Dancing Cloud.

— Ah, monsieur, é um lindo navio! Tem muita sorte.

— Também acho, miss. Obrigado — disse Sheeling, retribuindo o sorriso. Por Deus, pensou ele, nunca a tendo visto antes, quem pode culpar Malcolm? — Bom dia, miss.

Ele bateu continência e se retirou, embora não desejasse sair agora, pelo menos por mais algum tempo.

— Desculpe interromper, Malcolm, mas disse que eu viesse buscá-lo para o almoço, que será com Sir William... e espero que não tenha esquecido que marquei uma aula de piano com André esta tarde e combinei para tirarmos nosso daguerreótipo às cinco horas. Olá, Jamie.

— Nosso retrato?

— Isso mesmo. Lembra daquele italiano engraçado que chegou com o último navio de correspondência, procedente de Hong Kong, para passar uma temporada aqui? Ele faz retratos e garante que vamos ficar muito bonitos!

A maior parte da preocupação de Malcolm se dissipou e ele sentiu toda a presença de Angelique, babando por ela, embora a tivesse visto apenas uma hora antes — café em sua suíte às onze horas, um hábito que ela instituíra, e que ele adorava. Durante as últimas duas ou três semanas, a disposição amorosa de Angelique parecia ter desabrochado ainda mais, apesar de ela consumir muito do seu tempo em passeios a cavalo, prática de arco e flecha, aulas de piano, planejando saraus, ou escrevendo seu diário ou cartas, o que era um modo de vida para todos. Mas, a cada momento que passava em sua companhia, ela era tão atenciosa e terna quanto uma mulher podia ser. O amor e a necessidade que sentia dela cresciam a cada dia, sufocando-o com seu poder.

— O almoço será a uma hora, querida, e passa um pouco de meio-dia —disse Malcolm e, por mais que não quisesse que ela se retirasse, acrescentou: — Pode nos dar alguns minutos?

— Claro.

Com extrema graça, Angelique pareceu dançar até ele, beijou-o e foi para sua suíte, ao lado. Seu perfume perdurou como uma lembrança deliciosa.

Os dedos de Malcolm tremeram ao romperem o último lacre. Havia três cartas lá dentro. Duas de sua mãe, uma para ele, outra para Jamie. A terceira carta era de Gordon Chen, o compradore da companhia e seu tio.

— Tome aqui — murmurou ele, entregando a carta para Jamie.

Seu coração batia forte, desejando que Sheeling não tivesse chegado. As outras duas cartas ardiam em seus dedos.

— Vou deixá-lo sozinho — disse Jamie.

— Não. As más notícias precisam de companhia. — Malcolm levantou os olhos. — Abra a sua.

Jamie obedeceu e leu rapidamente. Seu rosto ficou vermelho.

— É particular, Jamie?

— Diz o seguinte: “Caro Jamie”... é a primeira vez que ela usa esse tratamento em muito tempo... “você pode mostrar esta carta a meu filho, se assim o desejar. Estarei enviando Albert MacStruan, assim que puder providenciar, do nosso escritório em Xangai. Deve aceitá-lo como seu sub e lhe ensinar tudo o que puder sobre a nossa operação japonesa, para que, a menos que duas coisas aconteçam, ele possa assumir o comando, quando você deixar a companhia. A primeira coisa é o retorno de meu filho a Hong Kong até o Natal. A segunda é você acompanhá-lo.” — Jamie fitou-o, desolado. — É isso. E mais a assinatura.

— Não, não é isso! — exclamou Malcolm, sentindo que o próprio rosto se tornava quente. — Assim que Albert chegar, terá de voltar no mesmo navio.

— Não há mal nenhum em deixá-lo ficar por alguns dias, dar uma olhada nas coisas. É um bom sujeito.

— A mãe... nunca imaginei que ela pudesse ser tão crueclass="underline" se eu não obedecer e me submeter, você está despedido...

Os olhos de Malcolm desviaram-se para a cômoda. Durante as últimas semanas, fizera um imenso esforço para limitar seu consumo a uma vez por dia, mas houvera ocasiões em que fracassara.

— O láudano com moderação, Malcolm — dissera o Dr. Babcott —, é uma panacéia para a dor.

Ele pedira que Malcolm lhe mostrasse o medicamento, não para tirá-lo, apenas para verificar o conteúdo.

— É uma poção bastante forte. Lembre-se de que não é uma cura e, para algumas pessoas, se torna um vício.

— Não para mim. Preciso disso por causa da dor. Acabe com a dor e eu deixarei de tomar.

— Lamento, meu amigo, mas eu bem que gostaria de poder. Seus órgãos internos foram bastante lesionados, não demais, graças a Deus, mas mesmo assim levará algum tempo para uma cura completa.

Tempo demais, pensou Malcolm agora, ou estou pior do que Babcott quer admitir? Ele olhou para as duas cartas, relutando em abri-las. Era muita sordidez usar Jamie como arma.

— Uma indignidade.

— Sua mãe tem certos direitos — murmurou Jamie.

— Ela não é tai-pan, eu é que sou. O testamento do pai foi claro. — A voz de Malcolm era apática, os pensamentos em turbilhão. — Acho que o velho tio Sheeley tinha razão, você tem de fazer jus ao título, não é mesmo?

— Você é o tai-pan. — Jamie falou com extrema gentileza, embora soubesse que não era verdade. — É estranho que Sheeling tenha se referido a Orlov. Há anos que eu não pensava nele. Eu me pergunto o que aconteceu com ele.

— Eu também — disse Malcolm, distraído. — O pobre coitado se tornou um homem marcado depois que explodiu em pleno mar o filho número um de Wu Sung Choi. Deve ter sido seqüestrado pelos piratas do Lótus Branco. Macau é um lugar perigoso, de fácil acesso à China, e o Lótus Branco tem espiões por toda parte. Eu detestaria estar na lista deles...

A voz definhou. Ele baixou os olhos para as cartas, absorto em seus pensamentos. Jamie esperou um pouco e depois disse:

— Dê-me um grito, se eu puder ajudar. Vou examinar o resto da correspondência.

Ele saiu. Malcolm não ouviu a porta fechar. Havia o pós-escrito “eu amo você” na carta da mãe, o que indicava que não continha nenhuma mensagem secreta:

Meu querido mas pródigo filho: Eu planejava viajar no Dancing Cloud, mas decidi contra isso no último minuto, já que Duncan passava mal, com o crupe outra vez. Talvez o que eu tenha a dizer seja melhor por escrito, pois assim não haverá equívocos.