Recebi suas mal-avisadas cartas sobre o que vai fazer e o que não vai fazer, sobre seu “noivado”, Jamie McFay, miss Richaud, etc. — e sobre os cinco mil fuzis. Escrevi imediatamente e cancelei essa encomenda extravagante.
Chegou o momento para decisões às claras. Já que você não se encontra aqui, e não quer fazer o que peço, eu as tomarei. Para o seu conhecimento particular, tenho o direito de fazer isso.
Quando seu pai estava morrendo, pobre homem, não havia tempo de esperar pelo seu retorno, e por isso, quase que no último alento, ele me tornou tai-pan de fato, de acordo com todos os dispositivos no testamento e legado de Dirk —alguns deles terríveis —, todos os quais têm de ser aceitos, diante de Deus, e devem ser mantidos em segredo, de tai-pan para tai-pan. Na ocasião, era nossa expectativa que eu passaria o comando para você, assim que voltasse. Uma das leis fixadas por Dirk diz o seguinte: É dever do tai-pan jurar absoluta convicção na integridade de seu sucessor. Não posso fazer isso por você no momento. Tudo isso, mais o que se segue, repito, é apenas para seu conhecimento particular — prejudicaria a Struan, se fosse divulgado, e por isso deve destruir a carta depois de lê-la.
Pela correspondência de hoje para a Escócia, ofereci o posto de tai-pan a seu primo Lochlin Struan, filho de tio Robb, com quatro condições: primeiro, que ele venha imediatamente para Hong Kong, e passe três meses em treinamento aqui; como você sabe, ele é bem versado nas operações da companhia, mais do que você em tudo o que se refere à Grã-Bretanha, embora você seja de longe mais capacitado e melhor treinado; segundo, que ele concorde em manter tudo isso em segredo; terceiro, que ao final do período de experiência, diante de Deus, farei a escolha final entre vocês dois, e minha decisão será inapelável, é claro; quarto, que se você recuperar o juízo perfeito, ele concorda que eu devo escolhê-lo, mas ele será o seguinte, caso você não tenha filhos, com Duncan em terceiro.
Recuperar seu juízo perfeito, meu filho, significa voltar a Hong Kong de imediato, o mais tardar até o dia de Natal, sozinho, a não ser pela companhia de Jamie McFay (e do Dr. Hoag, caso queira que ele viaje junto), para conversar sobre seus planos futuros, assumir os deveres prementes e se preparar para a posição para a qual foi treinado durante toda a sua vida. Caso você demonstre ser satisfatório, eu o promoverei a tai-pan quando completar vinte e um anos, a 21 de maio.
Mostrei esta carta a Gordon Chen e pedi-lhe que comentasse o que julgasse necessário, pois nosso compradore deve, mas DEVE mesmo, pela Lei de Dirk, participar de todas as discussões sobre o poder. Sua mãe devotada. PS. Eu amo você, e um P.P.S.: Obrigada por sua informação sobre o Parlamento, mais uma manifestação da habitual estupidez deles (via o estranho canal do nosso arquiinimigo Greyforth. Tome cuidado com ele, é um homem que não nos deseja nada de bom, mas você já sabe disso melhor do que eu). Mas é verdade, ouvimos os rumores, embora o governador ainda negue qualquer conhecimento. Escrevi para os nossos parlamentares aos primeiros rumores, dizendo-lhes que acabassem com esse absurdo, se for verdade, e para Bengala, alertando todo mundo ali. Depois de sua carta, escrevi de novo. É realmente hora de você voltar para casa, assumir seu dever e enfrentar nossos crescentes problemas.
— Dever! — gritou Malcolm para a parede.
Ele amassou a carta numa bola, arremessou-a contra a parede com toda força, machucando-se com a própria violência. Levantou-se, cambaleando, claudicou até a cômoda. O vidro continha sua dose noturna. Ele tomou tudo, quebrou o vidro no tampo de carvalho, praguejando, e quase caiu, ao tatear de volta para a cadeira.
— Ela não pode fazer isso! Não pode! Aquela... aquela desgraçada não pode fazer isso... não pode! “Voltar sozinho” significa sem Angel... não farei isso e ela não vai interferir...
Malcolm continuou a meio pensar e meio falar, as imprecações se sucedendo, até que o opiato entrou na corrente sanguínea e começou a proporcionar o alívio letal.
Depois de algum tempo, ele notou a outra carta, do compradore, Gordon Chen meio-irmão de seu pai, um dos muitos filhos ilegítimos de Dirk Struan.
— Conhecemos no mínimo três — disse ele, em voz alta.
Meu querido sobrinho: Já escrevi para dizer o quanto lamento sua desventura, os ferimentos, o acidente. Lamento ainda mais saber que há uma desavença entre você e sua mãe, que pode se tornar perigosa e até desintegrar a Casa Nobre — portanto, é meu dever comentar e aconselhar. Ela me mostrou a carta que escreveu para você. Não lhe mostrei a minha, nem mostrarei. Na minha, tratarei apenas da posição de tai-pan, e darei o meu conselho muito particular sobre a moça: seja chinês.
Fatos: embora você seja formalmente o herdeiro de meu meio-irmão, sua mãe alega corretamente que não passou pela cerimônia obrigatória, confirmações, juramentos e assinaturas determinados pelo testamento e legado de meu honrado pai, que são necessários antes que se torne tai-pan. Para que tudo seja válido, deve ser testemunhado pessoalmente e confirmado por escrito pelo atual compradore, que deve ser do meu ramo da casa de Chen. Só assim o escolhido vira o tai-pan.
Antes de morrer, seu pai designou sua mãe para tai-pan. Foi feito da maneira correta, com todos os detalhes obrigatórios. Eu testemunhei. Ela é tai-pan, legalmente, e tem o poder sobre a Casa Nobre. É verdade que seu pai e sua mãe esperavam que o cargo fosse transmitido logo para você, mas ela também está certa ao dizer que uma das obrigações do tai-pan é atestar diante de Deus a integridade de seu sucessor, e também é verdade que a Casa Nobre só é dirigida por quem o tai-pan, seja homem ou mulher, decidir escolher, cabendo-lhe também determinar o momento da sucessão. Meu único conselho é o seguinte: seja sensato, engula seu orgulho, volte imediatamente, submeta-se, aceite um período de “experiência”, volte a ser um filho obediente, honrando seus ancestrais, para o bem da Casa. Obedeça à tai-pan. Seja chinês.
Malcolm Struan ficou olhando fixamente para a carta, seu futuro em ruínas, tudo mudado. Então ela é tai-pan! A mãe! Se tio Gordon assim o diz, é verdade! Ela me privou do meu direito hereditário, a mãe fez isso comigo!
Mas não é o que ela realmente queria, ao longo dos anos? Não foi ela quem sempre adulou, suplicou, conspirou, fez tudo o que era necessário, para dominar o pai, a mim, a todos nós? Suas irritantes orações familiares todos os dias, a igreja duas vezes aos domingos, nós a seguindo, quando uma única vez é mais do que suficiente. E a bebida? “A embriaguez é uma abominação”, citações da Bíblia o dia inteiro, ao ponto da insanidade, sem qualquer diversão em nossas vidas, a quaresma respeitada ao pé da letra, jejum, censuras à exuberância de Dirk Struan, que Deus o amaldiçoe, sempre dizendo como era terrível ter morrido tão jovem... nunca dizendo que ele morreu no tufão com a amante chinesa nos braços, um fato que era e ainda é o escândalo da Ásia... sempre com sermões sobre os males da carne, a fraqueza do pai, a morte de minha irmã e dos gêmeos...
Subitamente, ele se empertigou na cadeira. Insanidade? É isso mesmo! Eu poderia interná-la num hospício? Talvez ela seja insana. Será que tio Gordon me ajudaria... Pare! Eu é que estou louco. Eu que...