— Malcolm, está na hora do almoço.
Ele levantou os olhos e se descobriu a falar com Angelique, dizendo como ela estava bonita, mas será que se importaria de ir sozinha, pois ainda havia umas poucas coisas importantes a serem decididas, cartas a escrever — não, nada que a afetasse, apenas problemas de negócios —, durante todo tempo recordando o “volte sozinho” e “submeta-se, ela é tai-pan” martelando em sua mente.
— Por favor, Angelique.
— Claro, se é isso o que você quer. Mas tem certeza de que se sente bem, meu amor? Não está com febre, não é?
Malcolm permitiu que ela pusesse a mão em sua testa, puxou-a para seu colo, beijou-a, Angelique retribuiu, soltou uma risada alegre, ajeitou o corpete, disse que voltaria depois da aula de piano, que ele não precisava se preocupar, e deveria usar um traje de noite para o retrato, garanto que vai ficar impressionado com o meu novo vestido de baile.
E depois ele voltou a ficar sozinho, com seus pensamentos, as mesmas palavras remoendo no cérebro: “volte sozinho... Ela é tai-pan.” Como a mãe ousa cancelar a encomenda dos fuzis... o que ela sabe deste mercado?
Tai-pan legalmente. Portanto, ela é quem manda. Com toda certeza, até eu completar vinte e um anos, e mesmo depois. Até que ela não seja mais. Até...
Ah, essa é a solução? Foi o que tio Gordon quis dizer ao escrever “seja chinês”? Ser chinês como? Apenas ser paciente? Como um chinês enfrentaria minha situação?
E pouco antes de mergulhar em seu sono especial, Malcolm sorriu.
Era sábado, uma tarde agradável, e uma partida de futebol fora marcada. A maior parte da colônia foi assistir, com as brigas e histeria habituais, um delírio quando um lado ou outro marcava um gol, exército contra marinha, cinqüenta homens de cada lado. O placar era exército 2 marinha 1, e o primeiro tempo ainda não terminara. As substituições e brigas eram permitidas, quase tudo era permitido, e o único objetivo era forçar a bola a passar entre as estacas do adversário.
Angelique, sentada à altura do campo, entre Sir William e o general, estava cercada pelos demais convidados do almoço — Seratard e os outros ministros, André e Phillip Tyrer —, que haviam decidido assistir ao jogo. Havia ainda ali, disputando sua atenção, oficiais britânicos e franceses, inclusive Settry Pallidar e Marlowe, o único oficial da marinha britânica. Jamie sentava perto. Quando ela voltara apressada para dizer a Malcolm que cancelara a aula de piano, o que era outra desculpa para não ter de ficar sentada com ele, e perguntar se não gostaria de ir ao jogo, encontrara-o dormindo. Por isso, pedira a Jamie para acompanhá-la.
— É melhor mesmo deixá-lo dormir... escreverei um bilhete — dissera Jamie satisfeito por qualquer pretexto para distraí-lo do desastre iminente. — É uma pena que ele não possa assistir ao jogo. Malcolm era um entusiasta dos esportes, como sabe, um grande nadador, excelente no críquete e também no tênis. É triste que ele esteja... que não seja mais como antes.
Angelique percebera que Jamie estava tão sombrio quanto Malcolm, mas não tinha importância, pensara ela, os homens em geral são sérios demais, e era ótimo ter uma companhia, para frustrar os outros. Desde o grande dia, quando a coisa que crescia em seu ventre deixara de existir, e recuperara a saúde e o vigor, sentindo-se melhor do que nunca, ela concluíra que seria uma insensatez ficar a sós com qualquer um deles. Exceto André. Para sua satisfação, ele mudara, não era mais ameaçador, nem se referia à ajuda que lhe prestara, o que ela preferia esquecer. Também não a fitava mais com grosseria, com olhos em que se podia perceber facilmente a crueldade, embora a crueldade ainda espreitasse em seu íntimo.
Era importante mantê-lo como amigo, pensou Angelique, consciente de sua vulnerabilidade. Escute, mas seja cautelosa. Algumas coisas que ele diz são boas: “Esqueça o que aconteceu antes, pois nunca aconteceu.”
André tem razão. Nada aconteceu. Nada, exceto que ele está morto. Amo Malcolm, gerarei seus filhos, serei a esposa perfeita, uma grande anfitriã, e nosso salão em Paris será...
Uma gritaria atraiu sua atenção. Um bando de jogadores da marinha forçara a passagem da bola entre os postes do adversário, mas os homens do exército tiraram a bola lá de dentro, e agora começara um tumulto geral, a marinha insistindo que fora gol, o exército contestando. Dezenas de marujos entraram no campo para se juntar à confusão, seguidos pelos soldados, e logo a briga se tornou generalizada, mercadores e outros aplaudindo e rindo, apreciando o espetáculo, enquanto o árbitro, Lunkchurch, tentava desesperadamente permanecer fora da luta e ao mesmo tempo restabelecer um pouco de ordem no campo.
— Ei, olhem só... o pobre coitado está sendo chutado até a morte!
— Não precisa se preocupar, Angelique, é apenas uma brincadeira mais rude — disse o general. — É claro que não foi gol.
O homem era da marinha e por isso não o interessava. Sir William, no outro lado de Angelique, também se encontrava tão excitado quanto os outros, pois não havia nada como uma boa briga para alegrar os espíritos. Mesmo assim, consciente da presença de Angelique, inclinou-se para o general e disse:
— Não acha que devemos continuar com o jogo, Thomas?
— Tem toda razão. — O general gesticulou para Pallidar. — Acabe com essa briga, por favor... argumente com eles.
Pallidar, dos Dragões, entrou no campo, sacou seu revólver e disparou para o ar. Todos ficaram paralisados.
— Escutem bem! — gritou ele, atraindo a atenção geral. — Todos fora do campo, à exceção dos jogadores. A ordem do generaclass="underline" outra confusão e a partida está cancelada; os envolvidos serão disciplinados. Vamos logo!
O campo começou a se esvaziar, muitos claudicando, os feridos sendo arrastados por seus companheiros.
— E agora, senhor árbitro, foi gol ou não?
— Bom, capitão, sim e não...
— Foi gol ou não?
O silêncio era opressivo. Lunkchurch sabia que qualquer coisa que dissesse seria errada. Decidiu que a verdade era melhor:
— Um gol da marinha!
Entre aplausos e vaias, ameaças e contra-ameaças, Pallidar voltou, empertigado, muito satisfeito consigo mesmo.
— Oh, Settry, que bravura! — exclamou Angelique, com tanta admiração que Marlowe e os outros sentiram-se roídos de ciúme.
— Bom trabalho, meu caro — comentou Marlowe, relutante, enquanto o jogo, a luta, recomeçava, sob aplausos, abafados por vaias e imprecações.
— Um bom jogo, Thomas, não acha? — disse Sir William.
— É evidente que não foi gol. O árbitro...
— Conversa fiada! Cinco guinéus dizem que a marinha vai ganhar.
O pescoço do general assumiu uma tonalidade vermelha mais escura, o que deixou Sir William satisfeito e ajudou-o a superar o mau humor. Ultimamente só havia brigas e discussões na colônia e na cidade dos bêbados, cartas irritantes, protestos do Bakufu e da alfândega, e ele não esquecera a estupidez do general durante o motim.