Poderiam me aproveitar? Claro, mas não como o homem principal. Na Brock? Claro, também, até pensei nisso nas profundezas da injustiça de Tess Struan, mas não serei o primeiro com Norbert aqui... mas se Malcolm o matasse, que golpe seria, que vingança! Lunkchurch? Com toda certeza, mas quem poderia querer trabalhar para aquele patife grosseiro? Que tal trabalhar por conta própria? Seria o melhor, todavia também o mais arriscado, e quem o patrocinaria? Precisaria de dinheiro. Tenho algum guardado, mas não o suficiente. Precisaria de muito para começar, muito para cumprir os prazos de espera, para cartas de crédito e seguros, tempo para arrumar agentes em Londres, San Francisco, Hong Kong, Xangai e toda a Ásia, Paris... e Londres, São Petersburgo. Não posso esquecer que os russos são grandes compradores de chá, negociarão zibelinas e outras peles, que proporcionam grandes lucros, e ainda têm contatos no Alasca russo e postos comerciais em toda a costa oeste sul-americana. Uma boa idéia, mas arriscada, um prazo prolongado entre a compra, a venda e o lucro, muitos riscos para os navios, as perdas no mar e para a pirataria...
Perto dali, Phillip Tyrer também tinha os olhos perdidos na distância. Pensava em Fujiko, e quase soltou um gemido alto. Na noite anterior, com seu amigo Nakama — Hiraga — para ajudá-lo, tentara iniciar as negociações para a sua exclusividade. Mama-san Raiko revirara os olhos, sacudira a cabeça, dizendo Sinto muito, duvido que seja possível, a moça é muito valiosa, procurada por muitos gai-jin importantes, com a insinuação de que até Sir William era cliente ocasional, embora nunca o mencionasse pelo nome, o que deixara Tyrer inquieto e ainda mais ansioso.
Raiko dissera que antes mesmo de discutir os detalhes financeiros e outros, teria primeiro de perguntar a Fujiko se consideraria a possibilidade, aumentando seu choque ao acrescentar que seria melhor se ele não tornasse a vê-la até e a menos que um contrato fosse acertado. Levara mais meia hora para se chegar a um compromisso, sugerido por Nakama: durante o período de espera, ele poderia se encontrar com Fujiko, mas nunca mencionaria a questão, nem discutiria o problema diretamente com ela, já que a responsabilidade era da mama-san.
Graças a Deus por Nakama, disse ele a si mesmo, num ímpeto de ansiedade, quase estraguei tudo. Se não fosse por Nakama...
Seus olhos focalizaram e ele viu Seratard e André Poncin absorvidos numa conversa particular; não muito longe, Erlicher, o ministro suíço, também mantinha uma conversa particular, com Johann, que se concentrava em cada palavra.
O que é tão urgente e importante para que esses homens discutam durante uma partida de futebol, especulou Tyrer, lembrando a si mesmo que era melhor não se entregar a devaneios, devia ser adulto e consciente de que nem tudo corria bem no Japão; tinha de cumprir seu dever para com a coroa e Sir William... Fujiko podia esperar até a noite, quando talvez obtivesse uma resposta.
Maldito Johann! Agora que o astuto suíço estava deixando seu posto como intérprete, seu fardo aumentava, deixando-lhe pouco tempo para dormir e se divertir. Ainda naquela manhã, Sir William tivera uma explosão, injusta, pensou Tyrer, amargurado:
— Pelo amor de Deus, Phillip, você tem de dedicar mais horas ao trabalho! Quanto mais depressa se tornar fluente, melhor para a coroa; quanto mais depressa Nakama for fluente em inglês, melhor para a coroa. Faça jus ao dinheiro que recebe, pare de relaxar, pressione Nakama, faça-o merecer o seu pão de cada dia ou ele irá embora!
Hiraga estava na legação, lendo em voz alta uma carta que Tyrer escrevera para Sir William, e que ele ajudara a traduzir, para ser entregue no dia seguinte ao Bakufu. Embora não entendesse muitas palavras, sua leitura vinha melhorando depressa.
— Você tem aptidão para o inglês, meu caro Nakama — dissera Tyrer, várias vezes.
Isso o agradara, embora normalmente os elogios ou críticas de um gai-jin não tivessem a menor importância. Ao longo das semanas, a maior parte de suas horas acordado fora consumida em absorver palavras e frases, repetindo-as muitas vezes, a tal ponto que a linguagem de seus sonhos se tornara misturada.
— Por que quebrar a cabeça, primo? — perguntara Akimoto.
— Devo aprender o inglês o mais depressa possível. Há muito pouco tempo, o líder gai-jin é grosseiro e destemperado, e não faço idéia de por quanto tempo mais poderei ficar aqui. Mas, se conseguir aprender a ler, Akimoto, quem sabe quantas informações poderei obter? Não pode acreditar no quanto eles são estúpidos em relação a seus segredos. Há centenas de livros, panfletos e documentos por toda parte. Tenho acesso a tudo, posso ler qualquer coisa e Taira sempre responde às minhas perguntas mais óbvias.
A conversa ocorrera na noite anterior, na casa segura que tinham na aldeia, e ele estava com uma toalha molhada em torno da cabeça dolorida. Não mais se encontrava confinado à legação. Podia agora ficar na aldeia, se assim desejasse, embora em muitas noites se sentisse cansado demais para sair, e dormisse numa cama extra no bangalô que Tyrer partilhava com Babcott. Por necessidade, George Babcott tivera de saber tudo a seu respeito.
— Maravilhoso! Nakama poderá me ajudar também com meu japonês e com o meu dicionário! Vou organizar as aulas, fazer um curso intensivo!
O sistema de Babcott era bastante radical. Aprender era uma diversão, e logo quase se desenvolvera num jogo, um jogo hilariante para determinar quem podia aprender mais depressa, um estilo novo para Hiraga e Tyrer, que encaravam o estudo como uma coisa séria, a ser absorvida pela decoração e repetição.
— As aulas se tornam muito rápidas, Akimoto, e fica mais fácil a cada dia... faremos a mesma coisa em nossas escolas quando sonno-joi assumir o poder.
Akimoto rira.
— Mestres gentis e bondosos? Sem surras? Nunca! Mais importante, o que me diz da fragata?
Ele dissera a Akimoto que Tyrer prometera pedir a um capitão amigo permissão para levar os dois a bordo, explicando que Akimoto era filho de um rico construtor de barcos de Choshu, viria visitá-lo por alguns dias e poderia ser um amigo valioso no futuro.
Pela janela aberta, Hiraga ouvia os gritos da multidão no campo em que se jogava a partida de futebol. Suspirou e pegou o dicionário escrito a mão de Babcott Era o primeiro dicionário que ele já vira e o primeiro inglês-japonês e japonês-inglês que já existira, Babcott o fizera com listas de palavras e frases recolhidas por ele próprio, por mercadores e sacerdotes, tanto católicos quanto protestantes, e com outras traduzidas de equivalentes holandês-japonês. No momento, o dicionário ainda era pequeno. Mas aumentava a cada dia, e o fascinava.
Pelo que se dizia, cerca de dois séculos antes um padre jesuíta chamado Tsukku-san escrevera uma espécie de dicionário português-japonês. Antes disso, jamais existira um dicionário japonês de qualquer tipo. Com o passar do tempo, haviam aparecido uns poucos dicionários holandês-japonês, guardados com o maior cuidado.
— Não precisa trancar isto, Nakama — declarara Babcott no dia anterior, deixando-o espantado. — Esse não é o estilo britânico. Temos de espalhar as informações, deixar que todos aprendam; quanto mais pessoas instruídas, melhor será para o país. — Ele sorrira, antes de acrescentar: — É claro que nem todos concordam comigo. Seja como for, na próxima semana, com a ajuda de nossos prelos...