— Prelos, por favor?
Babcott explicara:
— Muito em breve começaremos a imprimir coisas, e, se prometer escrever uma história de Choshu, prometo que darei uma cópia do meu dicionário só para você.
Uma semana antes, impressionado, Hiraga mostrara a Akimoto um exemplar do Yokohama Guardian.
— São as notícias do dia, do mundo inteiro, e eles preparam uma versão nova todos os dias, com quantas cópias quiserem... milhares, se for necessário...
— Impossível! — protestara Akimoto. — Nossos melhores blocos de impressão não podem...
— Vi eles fazerem, Akimoto. É tudo com máquinas. Arrumam as palavras no que eles chamam de tipos, em linhas, lêem da esquerda para a direita, o oposto de nós, que lemos da direita para a esquerda e para baixo nossas colunas de caracteres, coluna por coluna. É incrível. Vi o homem da máquina fazer palavras com símbolos individuais, chamados “letras romanas”... dizem que todas as palavras em qualquer língua podem ser escritas com apenas vinte e seis desses símbolos e...
— Impossível!
— Escute o resto. Cada letra ou símbolo sempre tem o mesmo som; assim, outra pessoa pode ler as letras individuais ou formar palavras com elas. Para fazer este “papel de notícias”, o impressor usa combinações de pequenas peças de ferro com o símbolo cortado na extremidade... desculpe, não é bem ferro, mas uma espécie de ferro que eles chamam de “aço”. O homem pôs as letras numa caixa, besuntada com tinta, passou o papel por cima, e apareceu uma nova página impressa, que continha uma coisa que eu escrevera um momento antes. E Taira leu exatamente! Um milagre!
— Mas como podemos fazer isso com a nossa língua? Cada palavra é um caractere especial, com até cinco ou sete maneiras diferentes de dizer, nossa escrita é diferente e...
— O doutor gigante escuta quando eu digo uma palavra japonesa, escreve em suas letras romanas, e depois Taira diz a palavra, só lendo os símbolos.
Fora preciso mais explicação de Hiraga para convencer Akimoto. Ao final, ele comentara, exausto:
— Tantas coisas novas, idéias novas, muito difícil para mim compreender, ainda mais explicar. Ori era um tolo por não querer aprender.
— Ainda bem, para nós, que ele morreu, foi enterrado e esquecido pelos gai-jin. Durante dias, pensei que estávamos perdidos.
— Eu também.
Hiraga encontrou a palavra em inglês que procurava, “reparações”. A tradução japonesa era a seguinte: “dinheiro a ser pago por um crime admitido”. Isso o deixou perplexo. O Bakufu não cometera nenhum crime. Dois Satsumas, Ori e Shorin, haviam apenas matado um gai-jin, agora ambos estavam mortos, dois por um gai-jin, nada mais justo. Por que deveriam exigir “reparações”, ele pronunciou a palavra em voz alta, o som mais próximo de que sua língua era capaz.
Levantou-se da mesa, para atenuar a pressão nos joelhos, já que era difícil sentar como um gai-jin durante o dia inteiro, e foi até a janela. Usava suas roupas ocidentais, mas tinha um tabe macio nos pés, pois ainda achava as botinas inglesas desconfortáveis demais. O dia ainda era bom, os navios ancorados, barcos pesqueiros e outras embarcações deslizando de um lado para outro. A fragata o atraía. Seu excitamento aumentou. Muito em breve conheceriam seu interior, veriam as grandes máquinas a vapor de que Taira lhe falara. Ele olhou para uma fotografia recortada de uma revista e pregada na parede, do Grande Navio, um enorme navio de ferro que estava sendo construído na capital britânica, Londres, o maior que ele já vira, vinte vezes maior do que a fragata na baía. Era enorme demais para se conceber... era-lhe impossível compreender até mesmo “fotografar”, quase uma forma de magia. Hiraga estremeceu, depois percebeu que a porta para o corredor se achava entreaberta e, no outro lado, ficava a porta de Sir William. Pelo que ele sabia, não havia ninguém na legação, todos tinham saído para assistir ao jogo de futebol, e não eram esperados até o final da tarde.
Sem fazer barulho, ele foi abrir a porta de Sir William. Havia muitos papéis em cima da escrivaninha requintada, meia centena de livros nas prateleiras desarrumadas, um retrato da rainha deles e outros quadros nas paredes. Uma coisa nova num aparador. Um retrato numa moldura de prata. Hiraga viu apenas feiúra, uma mulher gai-jin vestida de maneira esquisita, com três crianças, e concluiu que devia ser a família de Sir William, a qual Tyrer comentara que deveria chegar em breve.
Ainda bem que sou japonês, e civilizado, com um pai, mãe, irmãos e irmãs bonitos, e com Sumomo para casar, se o casamento for meu karma. Sentiu-se feliz ao pensar que ela se encontrava em sua casa, sã e salva, mas depois, parado ali diante da mesa, a boa sensação logo se dissipou. Recordou todas as ocasiões inquietantes e nauseantes em que se postara de pé diante do líder gai-jin sentado respondendo a perguntas sobre Choshu, Satsuma, Bakufu, Toranagas, as perguntas se estendendo a todos os aspectos de sua vida pessoal e da vida no Nipão, agora quase uma ocorrência diária, os olhos de peixe lhe arrancando a verdade, por mais que preferisse mentir e confundir.
Hiraga teve o cuidado de não tocar em nada, presumindo que havia uma armadilha qualquer à sua espera, como ele teria feito, se deixasse um gai-jin sozinho num lugar importante. Foi nesse instante que ouviu uma voz irada lá fora e voltou apressado à janela de Tyrer para espiar. Para seu espanto, avistou Akimoto no portão, fazendo uma reverência para o guarda, que gritava e lhe apontava seu fuzil com baioneta. Seu primo usava roupas de trabalhador gai-jin e era evidente que estava muito nervoso. Hiraga saiu apressado, com um sorriso no rosto, tirou o chapéu para o guarda.
— Bom dia, senhor sentinela, esse meu amigo.
O guarda conhecia Hiraga de vista, sabia que era uma espécie de intérprete, e tinha passe permanente para entrar e sair da legação. Respondeu em tom cáustico, com palavras incompreensíveis, acenou para que Akimoto se afastasse e ordenou a Hiraga que dissesse “a este macaco para tomar cuidado ou vai levar um tiro na cabeça”. O sorriso de Hiraga manteve-se firme.
— Eu levar ele embora, sinto muito.
Pegando Akimoto pelo braço, Hiraga levou-o apressado por uma viela, que se estendia até a aldeia.
— Você enlouqueceu? Vir aqui...
— Concordo. — Akimoto ainda não se recuperara do susto de uma baioneta a um centímetro de sua garganta. — Concordo, mas o shoya, o ancião da aldeia, pediu que eu viesse chamá-lo, com urgência.
O shoya gesticulou para que Hiraga sentasse no outro lado da mesa baixa. Aqueles aposentos particulares, por trás de sua loja deliberadamente pobre e desarrumada, eram impecáveis, o tatame e os papéis da janela de shoji da melhor qualidade. A gata se refestelava em seu colo, os olhos malignos fixados no intruso. Havia xícaras de porcelana branca e verde em torno de um pequeno bule de chá de ferro.