— Por favor, um pouco de chá, Otami-san, lamento pela inconveniência — disse ele, usando o nome indicado por Hiraga. Serviu o chá, depois afagou a gata, suas orelhas tremeram, numa reação nervosa. — Por favor, peço desculpas por interrompê-lo.
O chá era aromático, de boa qualidade. Hiraga fez um comentário polido a respeito, sentindo-se contrafeito na presença do shoya com suas roupas européias. Era difícil sentar com aquele traje, e a ausência das espadas o perturbava. Depois das cortesias costumeiras, o shoya balançou a cabeça, meio para si mesmo, e fitou seu convidado, os olhos impassíveis na máscara de amabilidade.
— Chegaram notícias de Quioto, e achei que deveria ser informado imediatamente.
A inquietação de Hiraga aumentou.
— Que notícias?
—Parece que dez shishi de Choshu, Satsuma e Tosa atacaram o xógum Nobusada, em Otsu. A tentativa de assassinato fracassou e todos foram mortos.
Hiraga fingiu desinteresse, mas sentiu um calafrio por dentro. Quem seriam os dez e por que haviam fracassado?
— Quando foi isso?
O shoya nada vira para indicar se Hiraga sabia ou não do ataque.
— Há oito dias.
— Como pôde saber em tão pouco tempo?
Para seu espanto, o shoya enfiou a mão na manga e tirou um pequeno cilindro. Lá dentro havia um rolo de papel muito fino.
— Isto chegou hoje. Nossa zaibatsu da Gyokoyama tem pombos-correios para notícias importantes. — A mensagem chegara no dia anterior, mas ele precisara de tempo para decidir como lidaria com Hiraga. — Importante ter informações rápidas e acuradas, neh?
— Foram mencionados nomes?
— Não, nenhum nome, sinto muito.
— É a única informação?
Os olhos faiscaram. Para choque de Hiraga, ele acrescentou:
— Na mesma noite, em Quioto, lorde Yoshi e lorde Ogama, com suas forças, atacaram o quartel-general shishi, surpreendendo a todos e massacrando-os. Quarenta cabeças foram espetadas em chuços diante das ruínas. — O homem mais velho manteve o sorriso fora do rosto. — Otami-sama, quarenta seriam uma porcentagem grande dos nossos bravos shishi?
Hiraga deu de ombros, disse que não sabia, torcendo para que o shoya não pudesse determinar se mentia. Sua cabeça doía ao especular quem teria morrido, quem sobrevivera, quem os traíra, e como inimigos que nem Yoshi e Ogama Podiam agir juntos.
— Por que está me contando tudo isso?
Por um momento, o shoya baixou os olhos para a gata, seus olhos se abrandaram, os dedos começaram a afagar sua cabeça, a gata fechou os olhos em prazer, as unhas se estendendo e retraindo, sem ameaça.
— Parece que nem todos os emboscados foram liquidados — murmurou ele. — Dois escaparam. O líder, às vezes chamado de Corvo, cujo nome verdadeiro é Katsumata, conselheiro de confiança de Sanjiro de Satsuma, e um líder shishi de Choshu chamado Takeda.
Hiraga ficou bastante abalado ao descobrir que se sabia tanto, seus músculos se contraíram, pronto para atacar, matar com as próprias mãos. A boca se abriu mas ele não disse nada.
— Por acaso conhece essa Takeda, Otami-sama?
Hiraga teve um ímpeto de raiva pela impertinência, sentiu que o rosto corava, mas conseguiu manter algum controle.
— Por que me pergunta isso, shoya?
— Meu superior na Gyokoyama mandou, Otami-sama.
— Por quê? O que tudo isso representa para mim?
O shoya, para acalmar os próprios nervos — embora tivesse uma pequena pistola carregada na manga — serviu mais chá para os dois, sabendo que era um jogo perigoso e que não se devia brincar com aquele shishi. Mas ordens eram ordens, e o zaibatsu de Gyokoyama determinara que qualquer coisa fora do normal, em qualquer uma das centenas de sucursais, devia ser comunicada imediatamente. Em particular na sucursal de Iocoama, mais importante agora que a de Nagasáqui, já que se tratava da principal base dos gai-jin, e portanto o melhor posto de observação dos estrangeiros... e ele fora o escolhido para esse cargo de destaque. Por obrigação, enviara através de pombos-correios a notícia da chegada daquele homem, da morte de Ori, de todos os eventos subseqüentes e das ações que ele efetuara... todas as quais haviam sido aprovadas.
— A Gyokoyama...
Ele seguia as instruções, mas com extremo cuidado, pois podia perceber que Hiraga ficara nervoso com as revelações, e fora justamente esse o propósito. Seus superiores em Osaca haviam escrito: Trate de deixar desequilibrado esse shishi, cujo nome verdadeiro é Rezan Hiraga, o mais depressa possível. Os riscos serão grandes. Esteja armado e converse quando ele não estiver...
— ...meus superiores acharam que talvez lhe possam ser úteis, assim como você poderia ser de grande valor para eles.
— Úteis para mim? — Hiraga se encontrava prestes a explodir, a mão direita procurando nervosamente o punho da espada, que não estava ali. — Não posso ordenar impostos. Não tenho nenhum koku. Que proveito tenho para parasitas, pois os emprestadores de dinheiro não passam disso, para a grande Gyokoyama?
— É verdade que os samurais acreditam nisso, sempre acreditaram. Mas temos dúvidas se o seu sensei Taira concordaria.
— Como? — Hiraga ficou aturdido de novo. — O que Taira tem a ver com tudo isso?
— Criada! Saquê! — Tornando a se virar para Hiraga, o shoya acrescentou: — Peço sua paciência, mas meus superiores... Sou um velho.
Ele falava em tom de humildade, autodepreciativo, sabendo que seu poder na Gyokoyama era grande, que seu yang ainda funcionava com perfeição, e que se necessário poderia atirar naquele homem, deixá-lo entrevado e entregá-lo aos vigilantes do Bakufu, que ainda guardavam os portões.
— Sou um velho e vivemos em tempos perigosos.
— É mesmo — murmurou Hiraga, através dos dentes semicerrados.
O saquê chegou num instante, a criada serviu depressa e se retirou logo. Hiraga bebeu, e sentiu-se satisfeito por isso, embora simulasse o contrário, aceitou mais, tomou tudo.
— O que há com Taira? E melhor explicar direito.
O shoya respirou fundo e se lançou ao que sabia que seria a maior oportunidade de sua vida, com várias implicações para o zaibatsu, e todas as suas futuras gerações.
— Desde que chegou aqui, Otami-sama, tem especulado como e por que os gai-jin ingleses dominam grande parte do mundo além de nossas praias, embora sejam de uma pequena ilha-nação, até menor do que a nossa, pelo que ouvi dizer...