Ele fez uma pausa, divertido com a súbita impassibilidade no rosto de Hiraga.
— Ah, sinto muito, mas já devia saber que ouviram as conversas com seu amigo, agora morto, e com seu primo. Mas posso lhe assegurar que suas confidências estão seguras, seus objetivos e os dos shishi são os mesmos da Gyokoyama. Pode ser importante para você... Acreditamos que conhecemos um importante segredo que você procura.
— É mesmo?
— É, sim. Estamos convencidos de que o grande segredo deles é emprestar dinheiro, os serviços de financia...
Sua voz foi abafada quando Hiraga teve um paroxismo de riso desdenhoso. A gata foi arrancada de sua tranqüilidade, suas garras passaram pelo quimono do shoya, foram se cravar na carne. Cauteloso, ele removeu as garras, começou a acalmá-la, controlando sua fúria, ao mesmo tempo em que desejava incutir um pouco de juízo naquele jovem insolente. Mas isso acabaria lhe custando a vida... pois teria depois de enfrentar Akimoto e outros shishi. Obstinado, ele esperou, sabendo que a missão de que fora incumbido por seus superiores era impregnada de perigos: “Sonde esse jovem, descubra quais são seus verdadeiros objetivos, seus verdadeiros pensamentos, desejos e fidelidades, use-o, pois ele pode ser um instrumento perfeito...”
— Você está louco. É tudo conseqüência de suas máquinas, canhões, riquezas e navios.
— Exatamente. Se tivéssemos essas coisas, Hiraga-sama, poderíamos... — No instante em que usou o nome verdadeiro, o que fora deliberado, ele viu todo o riso desaparecer e os olhos entrarem em foco, ameaçadores. — Meus superiores disseram para usar seu nome apenas uma vez, só para que soubesse que merecemos confiança.
— Como eles sabem?
— Mencionou a conta de Shinsaku Otami, o nome em código de seu honrado pai, Toyo Hiraga. Como não podia deixar de ser, isso está escrito nos livros de registros mais confidenciais.
Hiraga foi dominado por uma raiva intensa. Nunca lhe ocorrera que os emprestadores de dinheiro pudessem ter livros confidenciais; como todos, dos mais baixos aos mais altos, precisavam de seus serviços de vez em quando, eles teriam acesso aos conhecimentos mais sigilosos, sempre registrados, sempre perigosos, que podiam usar como instrumento de pressão para obterem novas informações, a que não deveriam ter acesso... como poderiam descobrir alguma coisa sobre os nossos shishi, a não ser por meios escusos... e como esse cão ousa usar isso contra mim? Com toda razão, os mercadores e emprestadores de dinheiro são desprezados, não merecem a menor confiança e devem ser exterminados. Quando sonno-joi se tornar um fato concreto, nosso primeiro pedido ao imperador será uma ordem para a destruição de todos eles.
— Cale-se!
O shoya estava preparado, consciente de que a fronteira entre um súbito ataque desvairado e a sanidade se encontrava esticada ao ponto de rompimento, que nunca se podia confiar num shishi e, por isso, mantivera a mão no bolso na manga. Falou numa voz suave, embora fosse evidente a ameaça ou promessa:
— Meus superiores mandaram lhe dizer que seus segredos e os de seu pai, honrados clientes, embora registrados, são confidenciais, absolutamente confidenciais... entre nós.
Hiraga suspirou, inclinou-se para trás, a ameaça purificando sua cabeça da raiva inútil, e analisou tudo o que o shoya lhe dissera, a ameaça — ou promessa — e todo o resto, o perigo que o próprio homem representava, a Gyokoyama e similares, avaliou sua possível decisão, a herança e o treinamento em jogo.
As opções eram simples: matar ou não matar, escutar ou não escutar. Quando ele era pequeno, a mãe lhe dissera:
— Tome cuidado, meu filho, e jamais se esqueça de uma coisa: matar é fácil, desmatar é impossível.
Por um momento, a mente se fixou na mãe, sempre sábia, sempre o acolhendo com a maior alegria, sempre com os braços estendidos... mesmo quando passara a sentir dores nas articulações, que a deixaram mais e mais entrevada a cada ano.
— Muito bem, shoya, vou escutar, só uma vez.
Foi a vez do shoya suspirar, uma profunda ravina transposta. Ele serviu mais saquê.
— A sonno-joi e aos shishi!
Os dois beberam. Ele tornou a encher os copos.
— Por favor, Otami-sama, seja paciente comigo, mas estamos convencidos de que podemos ter tudo o que os gai-jin possuem. Como sabe, no Nipão o arroz é uma moeda, os mercadores de arroz são banqueiros, emprestam dinheiro a plantadores contra futuras colheitas, para comprar sementes, e assim por diante, sem o dinheiro não haveria colheitas na maioria dos anos e, em conseqüência, também não haveria impostos a coletar; eles emprestam aos samurais e daimios para sua subsistência, contra pagamentos futuros, estipêndios futuros, tributos futuros, e sem esse dinheiro a vida seria difícil. O dinheiro torna qualquer modo de vida possível. O dinheiro, sob a forma de ouro, prata, arroz ou seda, até mesmo esterco, o dinheiro é a roda da vida, faz as engrenagens funcionarem e...
— Vamos direto à questão. O segredo.
— Ah, sinto muito. A questão é que de alguma forma, por mais incrível que possa parecer, os emprestadores de dinheiro gai-jin, os banqueiros... é uma profissão honrada no mundo deles... encontraram um meio de financiar todas as suas indústrias, máquinas, navios, canhões, prédios, exércitos, tudo e qualquer coisa, com lucro, sem usar ouro de verdade. Não poderia haver tamanha quantidade de ouro no mundo inteiro. De algum modo, eles podem efetuar vastos empréstimos usando a promessa de ouro, ou fingir que é ouro, e só isso os torna fortes, pois tudo indica que fazem isso sem aviltar sua moeda, como acontece com os daimios.
— Fingir que é ouro? Mas do que está falando? Seja mais explícito!
O shoya removeu uma gota de suor do lábio, excitado agora, o saquê ajudando sua língua, ainda mais porque, agora, começava a acreditar que era possível que aquele jovem pudesse ajudar a resolver o enigma.
— Desculpe se sou complicado, mas sabemos o que eles fazem, embora ainda não como fazem. Talvez o seu Taira, esse gai-jin que é uma fonte de informações, que você drena com tanta habilidade, talvez ele saiba, e possa explicar como fazem isso, as artimanhas, os segredos. Depois, você nos conta tudo, e poderemos tornar o Nipão tão forte quanto cinco Inglaterras. Quando vocês alcançarem sonno-joi, nós e os outros emprestadores de dinheiro poderemos nos unir para financiar todos os navios e armas de que o Nipão vai precisar...
Cauteloso, ele discorreu sobre o tema, respondendo às perguntas com eloqüência, guiando Hiraga, ajudando-o, lisonjeando-o, enchendo-o de saquê e informações, impressionado com sua inteligência, ao longo das horas, atiçando sua imaginação, até o pôr-do-sol.
— Dinheiro, hem? Eu ad... eu admito, shoya — disse Hiraga, a voz um pouco engrolada, meio tonto do álcool, a cabeça quase explodindo com tantas idéias novas e inquietantes, que conflitavam com muitas convicções profundas — admito que o dinheiro nunca me inte... nunca me interessou. E jamais entendi direito o dinheiro, apenas sua falta.