Um arroto quase o sufocou, e ele continuou:
— Mas acho que posso entender agora e creio que Taira vai me contar tudo.
Hiraga tentou se levantar, mas não conseguiu.
— Posso lhe oferecer um banho e mandar chamar uma massagista?
O shoya persuadiu-o a aceitar com a maior facilidade, chamou um servo para ajudá-lo e entregou Hiraga a mãos fortes e gentis... que logo o fizeram roncar, mergulhar no esquecimento.
— Bom trabalho, Ichi-chan — sussurrou sua esposa, quando era seguro, fitando-o com uma expressão radiante. — Você foi perfeito, neh?
O shoya também se mostrava radiante e falou baixinho:
— Ele é perigoso, sempre será, mas demos o primeiro passo, e essa é a parte mais importante.
Ela acenou com a cabeça, satisfeita porque o marido acatara seu conselho de chamar Hiraga naquela tarde, estar armado, e não ter medo de usar a ameaça. Ambos conheciam os riscos, mas também, ela lembrou a si mesma, o coração ainda batendo forte de escutar a confrontação, esta é uma oportunidade enviada pelos deuses, e os ganhos são proporcionais aos riscos. Com o êxito, refletiu ela, rindo para si mesma, ganharemos a posição de samurais, nossos descendentes serão samurais, e meu Ichi será um dos superiores da Gyokoyama.
— Foi muito sensato ao dizer que apenas dois escaparam, não três, e ao não revelar o que mais sabemos.
— É importante manter alguma coisa em reserva. Para controlá-lo ainda mais.
Ela acariciou o marido, numa atitude maternal, tornou a dizer como ele era esperto, e não o lembrou que isso também fora sugestão sua. Deixou que sua mente vagueasse por um momento, ainda perplexa pela partida dos dois shishi para Iedo, assim se arriscando à captura ou traição. E ainda mais desconcertante era o motivo pelo qual a moça, Sumomo, a possível futura esposa de Hiraga, ingressara na casa de Koiko, a mais famosa cortesã de Iedo, agora a dama de prazer de lorde Yoshi. Não dava para entender. Um pensamento errante desabrochou.
— Ichi-chan — disse ela, suavemente —, uma coisa que falou antes me deixou com vontade de perguntar: se esses gai-jin são tão espertos, banqueiros tão mágicos, não seria sensato para você iniciar um empreendimento cuidadoso com um deles, de maneira discreta, bem discreta?
Os olhos do marido fixaram-se nos seus, ela percebeu o início de um sorriso de intensa satisfação, e acrescentou:
— Toshi tem dezenove anos, o mais esperto dos nossos filhos, e poderia ser o nosso representante, neh?
33
Segunda-feira, 1o de dezembro:
Norbert Greyforth saiu para o tombadilho do navio de correspondência, contornando o promontório. Vinha de Hong Kong, com escala em Xangai, e agora chegava a Iocoama. Ele acabara de fazer a barba, usava cartola e sobrecasaca contra o frio do amanhecer, e viu o capitão e outros na ponte de comando, na frente da chaminé, com seu rolo de fumaça acre na esteira, os marujos se preparando para ancorar, as velas içadas nos três mastros. Na coberta de proa, por trás de grades trancadas, que os separavam por completo do resto do navio, viajavam os passageiros de terceira classe, a ralé da Ásia, abrigados sob toldos de lona. As grades eram praxe em todos os navios de passageiros, contra qualquer tentativa de pirataria daquela área.
O vento era firme, trazia um cheiro agradável, o ar puro, muito diferente lá de baixo, onde o fedor de óleo e fumaça de carvão impregnava tudo, as vibrações e o barulho do motor deixavam qualquer um com dor de cabeça. O Asian Queen não desenvolvia a velocidade possível há horas, batalhando contra o vento. Por mais que detestasse vapores, Norbert sentia-se satisfeito, pois de outra forma sofreriam vários dias de atraso. Mordeu a extremidade de um charuto, cuspiu no mar, ergueu as mãos em concha para acendê-lo.
A colônia parecia a mesma de sempre. As casas da guarda dos samurais e as alfândegas, ao norte e ao sul, fora da cerca, alcançadas por pequenas pontes, fumaça saindo por várias chaminés, homens andando pelo passeio, cavaleiros exercitando seus pôneis no hipódromo, a cidade dos bêbados na sujeira habitual, com poucos dos danos do incêndio e terremoto reparados, contrastando com as fileiras disciplinadas de barracas do acampamento no penhasco, onde os soldados faziam ordem-unida, o toque de corneta projetando-se pelo mar. E mais adiante, como se espiassem por cima da cerca, os telhados da Yoshiwara. Ele sentiu alguma emoção, nada como o normal, pois ainda se encontrava saciado das aventuras em Xangai, a mais rica, devassa e tumultuada cidade da Ásia, com as melhores corridas, casas de jogo, bordéis e bares, comida européia por toda parte.
Não importa, pensou ele, darei a Sako a peça de seda, isso fará sua arma palpitar... e quem sabe?
Os olhos de Norbert passaram pelos mastros de bandeira das diversas legações, contraíram-se ao ver o prédio da Struan e depois fixaram-se no seu quartel-general. Durante as três semanas de sua ausência, os reparos externos no último andar haviam sido concluídos, ele ficou satisfeito ao constatar, não restava mais qualquer sinal dos danos causados pelo incêndio. Ainda estava muito longe para reconhecer as pessoas que entravam e saíam dos prédios na High Street, mas depois vislumbrou uma touca azul, um vestido de anquinhas e uma sombrinha se encaminhando para a legação francesa. Só havia uma mulher assim, pensou ele. Peitos-de-Anjo! E foi como se pudesse farejar o perfume que a envolvia. Será que ela sabe do duelo? Morgan Brock caíra na gargalhada quando lhe contara.
— Tem o meu consentimento para estourar os miolos dele ou seus colhões. E, em vez de pistolas, use espadas, e fará jus à sua gratificação.
Os barcos já haviam zarpado ao encontro do navio de correspondência. Irritado, ele notou que a lancha a vapor da Struan esperava perto da barra, a primeira da fila, com Jamie McFay na popa. Sua lancha a remos era a segunda. Não importa, pois não vai demorar muito para que aquela lancha seja minha, assim como o prédio, com você e todos os malditos Struans em desgraça ou mortos, embora talvez eu lhe dê um emprego, Jamie, talvez, só por diversão. Ele viu McFay levar o binóculo aos olhos e compreendeu que seria avistado. Ofereceu um aceno, cuspiu para o lado e desceu para seu camarote.
— Bom dia, Sr. Greyforth — disse Edward Gornt, com seu charme sulista. Ele estava parado na porta do camarote no outro lado, um jovem alto, embora um tanto franzino, de boa aparência, da Virgínia, vinte e sete anos, com olhos castanhos, cabelos castanhos. — Estive observando do convés de popa. Nada como Xangai, não é mesmo?
— Sob mais aspectos do que pode imaginar. Já arrumou suas malas?
— Já, sim, senhor. Está tudo pronto.
O sotaque era mínimo, ele falava muito mais como um inglês do que como um sulista.