— Conhece Dmitri Syborodin, que dirige a Cooper-Tillman aqui?
— Não, senhor. Só de reputação. Meus pais conheciam Judith Tillman, a viúva de um dos sócios originais. — Os olhos de Gornt se contraíram, e Norbert tornou a notar algo estranho neles. — Ela também não gostava de Dirk Struan, odiava-o, para ser mais preciso, culpava-o pela morte de seu marido. Os pecados dos pais passam adiante, não é mesmo?
Norbert riu.
— É verdade.
— Mas falava sobre Dmitri Syborodin, não é, senhor?
— Vai gostar dele, é sulista também. — O sino de desembarque soou. Os olhos de Norbert faiscaram. — Vamos para terra. Haverá ação muito em breve.
— Homem quer ver tai-pan, hem? — disse Ah Tok.
— Fale como civilizada, mãe, não essa algaravia — respondeu Malcolm, em cantonês. Ele estava na janela do escritório, com o binóculo, estivera observando o desembarque dos passageiros do navio de correspondência. Vira Norbert Greyforth, e agora sentia-se muito bem. — Que homem?
— O demônio estrangeiro bonzo que mandou chamar, o bonzo que cheira mal — murmurou ela. — Sua velha mãe está trabalhando demais e seu filho não quer escutar! Devemos voltar para casa.
— Já lhe disse para não mencionar a volta para casa — declarou Malcolm, ríspido. — Faça isso mais uma vez e a mandarei embora na próxima lorcha imunda, onde vai vomitar até seu coração, se tiver um, e no mínimo o deus do mar vai engoli-la! Mande o demônio estrangeiro entrar.
Um sorriso surgiu em seu rosto, e um pouco da sensação agradável retornou. Ah Tok saiu resmungando. Há dias que vinha insistindo na volta a Hong Kong, por mais que ele lhe dissesse para não fazê-lo. Malcolm tinha certeza que ela recebera ordens de Gordon Chen para pressioná-lo.
— Mas não voltarei enquanto não estiver pronto! — disse ele, em voz alta.
Claudicando, foi para sua escrivaninha, contente porque em breve acertaria as contas com Norbert e poria em execução seu glorioso plano.
— Bom dia, reverendo Tweet. Foi muita gentileza sua atender de imediato ao meu chamado. Xerez?
— Obrigado, Sr.... hum... tai-pan. Abençoado seja.
O xerez foi tomado num único gole, nervoso, embora Malcolm tivesse escolhido, deliberadamente, um copo grande.
— Admirável... tai-pan. Ah, quero, sim, obrigado. Mais uma dose, pequena desta vez. — O homem desmazelado acomodou-se na cadeira alta, com um sorriso apreensivo. A barba era toda manchada de tabaco. — Em que posso ajudá-lo?
— É sobre miss Angelique e eu. Quero que nos case. Na próxima semana.
— Como? — O reverendo Michaelmas Tweet quase deixou cair o copo, a dentadura chocalhando, ele balbuciou: — Impossível!
— Não é, não. Há muitos precedentes para reduzir os proclamas que devem ser lidos na igreja em três domingos sucessivos para apenas um.
— Mas eu não posso... você é menor, e ela também, uma católica ainda por cima, não é possível... não posso fazer isso.
— Claro que pode. — Confiante, Malcolm repetiu o que Heatherly Skye mais conhecido por “Heavenly”, o celestial, o único advogado em Iocoama, além de juiz de instrução e agente de seguros, lhe dissera: — O fato de que sou menor de idade só se aplica no Reino Unido, não nas colônias, ou no exterior, e só quando pai está vivo. O fato de ela ser católica não tem importância, se não importa para mim. E ponto final. Terça-feira, dia 9, é uma ocasião auspiciosa para casa. Manteremos tudo na maior discrição até lá.
Para diversão de Malcolm, a boca de Michaelmas Tweet abriu e fechou, com a de um peixe, nenhum som saiu. Trêmulo, o clérigo levantou-se, serviu-se de mais xerez, tornou a arriar na cadeira.
— Não posso.
— Procurei orientação legal e fui informado de que posso. Também tenciono conceder a você e sua igreja um estipêndio extra... quinhentos guinéus por ano.
Ele sabia que o homem ficaria fisgado pela oferta, três ou quatro vezes o seu salário atual, e o dobro do que o advogado aconselhara: Não estrague o velho peidorrento!
— Estaremos na igreja no domingo para ouvirmos a leitura dos proclamas. Terça-feira será o grande dia, e você receberá cem guinéus adiantados por seu trabalho. Obrigado, reverendo.
Ele se levantou, mas Tweet não se mexeu. Havia lágrimas em seus olhos.
— Qual é o problema?
— Não posso fazer o que me pede — balbuciou Tweet. — Não é possível. Deve compreender... mesmo que esse conselho seja correto, o que duvido... sua mãe me escreveu, formalmente, pela última correspondência, dizendo... que seu pai a tornara a guardiã legal dos filhos, e você fora proibido de casar.
As lágrimas escorriam pelas faces, os olhos remelentos estavam injetados.
— Deus do Céu, é tanto dinheiro, mais do que já sonhei, mas não posso, não posso ir contra a lei, nem contra sua mãe. Oh, Deus, não!
— Mil guinéus
— Oh, Deus, não, não... por mais que eu queira o dinheiro... não entende... o casamento não seria legal... é contra a lei da Igreja. Deus sabe que sou um grande pecador, mas não posso fazer isso... se ela escreveu para mim, também escreveu, com toda certeza, para Sir William, que deve sancionar um casamento assim. Deus me perdoe, mas não posso...
Ele saiu da sala, cambaleando. Malcolm ficou olhando para suas costas. Incapaz de falar, a mente atordoada, a sala se transformando de repente num túmulo. O plano, formulado com a ajuda de Heatherly Skye, era perfeito. Fariam um casamento discreto, com a presença apenas de Jamie, talvez Dmitri, e em seguida ele partiria para Hong Kong, depois do duelo, chegando ali antes do Natal, como a mãe pedira, e antes que ela pudesse receber a notícia. Angelique seguiria no navio seguinte.
— Aqueles a quem Deus juntou que nenhum homem... ou mulher... separe — entoara Skye, quando ele o consultara.
— Perfeito!
— Obrigado, tai-pan. Meus honorários são cinqüenta guinéus. Poderia... hum... me dar um adiantamento... em dinheiro, por favor?
Cinqüenta guinéus eram um absurdo. Mesmo assim, Malcolm Struan lhe dera dez soberanos, com vales da Casa Nobre para o restante, e voltara para casa, sentindo-se mais satisfeito que em qualquer outro momento das últimas semanas.
— Parece muito feliz hoje, Malcolm. Boas notícias?
— Isso mesmo, minha querida Angel, mas só partilharei com você amanhã. Quando veremos nosso retrato? Seu vestido estava maravilhoso.
— Demora um pouco para revelar, o que quer que isso signifique. Talvez amanhã. Você estava muito bonito.
— Acho que devemos dar uma festa. Será maravilhoso...