Mas agora, com a festa marcada para aquela noite, não seria tão maravilhoso assim. Malcolm sentia uma profunda depressão. Haveria algum meio de forçar Tweet? Deveria procurá-lo de novo amanhã, depois de passado o choque inicial? Mais dinheiro? Sir William? Uma súbita idéia. Ele tocou a sineta.
— Pois não, tai-pan?
— Vargas, corra até a igreja católica, e procure o padre Leo. Pergunte a ele se pode me fazer uma visita.
— Claro, tai-pan. Quando ele deve vir?
— Agora, o mais depressa possível.
— Agora, tai-pan? Mas é hora do almoço...
— Agora, por Deus! — gritou Malcolm, na maior frustração por ter de pedir a outros as coisas mais simples, que poderia fazer pessoalmente antes da Tokaidô, que Deus amaldiçoe aquele porco, que Deus amaldiçoe a Tokaidô, é como a.C. e d.C para mim, só que o mal é agora, não o bem. — Agora. E trate de se apressar!
Vargas estava pálido ao sair apressado. Enquanto esperava, Malcolm tentou pensar numa maneira de pressionar Tweet, deixou a mente vaguear, enquanto os minutos passavam devagar, e foi se tomando cada vez mais enfurecido e determinado.
— Padre Leo, tai-pan.
Vargas deu um passo para o lado e fechou a porta depois que o sacerdote entrou.
O padre tentou disfarçar seu nervosismo. Por várias vezes se encaminhara para aquele prédio, a fim de discutir a conversão de Struan ao catolicismo, mas sempre parara no meio do caminho, prometendo a si mesmo que voltaria no dia seguinte, mas nunca se aproximando de seu objetivo, com medo de cometer um erro, tropeçar nas palavras. Em desespero, procurara André Poncin, a fim de arrumar um encontro. Sentira-se chocado pela maneira como Poncin e depois o próprio ministro francês — que raramente lhe falava — haviam reagido, dizendo que tal conversa era prematura, que o trabalho de Deus exigia paciência e prudência, proibindo o contato, pelo menos por enquanto.
— Bom dia — murmurou Malcolm.
Era a primeira vez que qualquer um dos mercadores protestantes o convidava para ir a seu escritório. Por todo o mundo protestante, os sentimentos contra os católicos e seus sacerdotes eram antagônicos, com acusações de pogroms sangrentos e guerras religiosas, recentes e jamais esquecidas, lembrando-os do controle implacável que exerciam sobre os convertidos e os países que dominavam... e os protestantes eram igualmente detestados pelos católicos, e ainda por cima hereges segundo as convicções católicas.
— As bênçãos de Deus para você — murmurou padre Leo, hesitante. Antes de deixar seu pequeno bangalô, ao lado da igreja, ele fizera uma prece para que o chamado fosse sobre o que tanto ansiava. — O que deseja, meu filho?
— Quero que celebre meu casamento com miss Angelique.
Malcolm sentiu-se espantado por constatar que sua voz soava muito calma, com uma repentina consternação por ter dito aquilo, até por chamar o padre, compreendendo claramente as implicações do que pedira — A mãe terá um ataque, nossos amigos e todo o nosso mundo vão pensar que enlouqueci...
— Deus seja louvado! — exclamou o padre Leo, extasiado, em português: os olhos fechados, os braços erguidos para o céu. — Como são maravilhosos os caminhos de Deus! Eu agradeço, Senhor, agradeço por ter respondido às minhas preces, e que eu seja digno do Seu favor!
— O que disse? — indagou Malcolm.
— Ah, desculpe, meu filho — disse ele, voltando a falar em inglês. — Apenas agradecia a Deus por ter lhe mostrado a luz, em sua misericórdia.
— Ahn... xerez?
Malcolm não pôde pensar em outra coisa para dizer.
— Obrigado, meu filho... mas, primeiro, não quer rezar comigo?
O padre ajoelhou-se, fechou os olhos, uniu as mãos em oração. Embaraçado pela sinceridade do homem — embora ignorando a oração como insignificante — e de qualquer forma incapaz de se ajoelhar, Malcolm permaneceu sentado, fechou os olhos, fez uma pequena prece a Deus, certo de que Deus compreenderia seu lapso momentâneo, tentando se convencer de que era certo pedir àquele homem para fazer o que era necessário.
Não importava o fato de que a cerimônia provavelmente seria inválida em seu mundo. Seria válida para Angelique. Poderia se unir a ele no leito conjugal com a consciência limpa. E depois que assentasse a tempestade inicial em Hong Kong, e sua mãe fosse conquistada — ou mesmo que não fosse —, assim que ele alcançasse a maioridade, em maio, uma cerimônia apropriada corrigiria qualquer pequeno erro.
Ele entreabriu os olhos. Padre Leo ainda continuava perdido no latim incompreensível. A oração se arrastou, interminável, seguida pela bênção. Quando acabou, padre Leo levantou-se, os olhinhos pretos faiscando, entre as bochechas morenas.
— Por favor, permita que eu sirva o xerez, para poupá-lo da dor, senhor, pois agora sou também seu servidor — disse ele, na maior jovialidade. — Como estão seus ferimentos? Sente-se melhor?
— Um pouco. Agora... — Malcolm descobriu que não era capaz de chamá-lo de “padre”. — Agora, sobre o casamento, eu...
— Será celebrado, meu filho, e celebrado de uma maneira maravilhosa, eu prometo. — Como são extraordinárias as obras de Deus, pensou padre Leo. Não violei a promessa que fiz ao ministro Seratard, e Deus trouxe esse pobre rapaz para mim. — Não se preocupe, senhor, é a vontade de Deus ter me chamado, e tudo será feito pela glória de Deus.
Padre Leo entregou um copo cheio a Malcolm, serviu-se em outro, derramando um pouco.
— À sua futura felicidade e à misericórdia de Deus!
Ele bebeu, depois sentou na cadeira, com tanta benevolência — a mesma cadeira que bem pouco tempo antes fora ocupada com tamanha rejeição —, que Malcolm sentiu-se ainda mais apreensivo.
— Agora, seu casamento será o melhor e o maior jamais realizado. — O padre pôs-se a discorrer a respeito, com um entusiasmo tão intenso que Malcolm ficou ainda mais deprimido, pois queria que aquele casamento temporário fosse o mais discreto possível. — Devemos ter um coro e um órgão, novas vestimentas, taças de prata para a comunhão. Mas antes desses detalhes, meu filho, há muitos planos maravilhosos para acertar. As crianças, por exemplo, agora serão salvas, serão católicas, salvas do purgatório e das agonias das chamas eternas do inferno!
Malcolm limpou a garganta.
— Certo. O casamento deve ser na próxima semana; terça-feira é o melhor dia.
Padre Leo piscou, aturdido.
— Mas temos de pensar na sua conversão, meu filho. Isso leva tempo, e...
— Eu... não quero me converter, ainda não, embora concorde que as crianças serão católicas. — Serão criadas muito bem, serão inteligentes, raciocinou Malcolm, sentindo-se mais angustiado a cada momento. Poderão escolher por si mesmas, quando se tomarem adultas... Mas o que estou pensando? Muito antes disso, casaremos da maneira certa, numa igreja apropriada. — Por favor, na próxima semana. Terça-feira.