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Os olhos do padre não mais sorriam.

— Não vai abraçar a verdadeira fé? E a sua alma imortal?

— Não, obrigado, não no momento, mas é claro que pensarei a respeito. As almas das crianças... isso é o importante... — Malcolm tentou parecer mais coerente. — Eu gostaria que o casamento fosse discreto, uma cerimônia simples, na terça-feira...

— E sua alma imortal, meu filho? Deus lhe mostrou a luz, sua alma é ainda mais importante do que esse casamento.

— Já disse que pensarei a respeito. Agora, vamos tratar do casamento. Terça-feira é o dia perfeito.

O padre largou o copo, a mente atordoada com alegrias, esperanças, indagações, medos, sinais de perigo.

— Mas isso não será possível, meu filho, por muitas razões. A moça não é menor de idade? É preciso obter a aprovação do pai dela, com os documentos necessários. E o mesmo acontece com você, não é mesmo?

— O problema de ser menor? — Malcolm forçou uma risada. — Não se aplica ao meu caso, não quando o pai está morto. É a lei inglesa. Verifiquei com... o Sr. Skye.

Ele quase disse Heavenly e se arrependeu no mesmo instante de ter mencionado o advogado, pois recordou que Angelique lhe dissera que o padre Leo detestava o homem, detestava o apelido, considerando-o uma abominação, já que era um agnóstico declarado.

— Essa pessoa? — A voz de padre Leo se tornou dura de repente. — Sua opinião terá de ser confirmada por Sir William, pois ele não merece a menor confiança. Quanto ao pai da senhorita, ele pode vir de Bangkok, não é?

— Ele... Creio que ele voltou para a França. Mas sua presença não será necessária. Tenho certeza que monsieur Seratard poderá representá-lo. Terça-feira será o melhor dia.

— Mas por que a pressa, meu filho? Ambos são jovens, têm muita vida pela frente, e é preciso considerar sua alma. — Padre Leo tentou um sorriso. — Foi a vontade de Deus que o enviou para mim e dentro de um ou dois meses...

— Não, não pode ser dentro de um ou dois meses — insistiu Malcolm, prestes a explodir, a voz estrangulada. — Na terça ou quarta-feira, por favor.

— Reconsidere, meu filho. Sua alma imortal deve...

— Esqueça minha alma... — Malcolm fez uma pausa, para se controlar. — Pensei em oferecer uma doação à igreja, embora não seja... não seja no momento a minha igreja... uma doação generosa.

Padre Leo ouviu o “no momento”, reparou como a palavra “generosa” fora pronunciada, sempre consciente de que o trabalho de Deus neste mundo exigia servidores práticos e soluções pragmáticas. E recursos. E influência. E esses dois fatores essenciais só vinham dos bem-nascidos e ricos, não havia necessidade de lembrá-lo de que o tai-pan da Casa Nobre era as duas coisas, ou que hoje já fora dado um passo gigantesco a serviço de Deus: fora-lhe pedido um favor, e as crianças seriam salvas, mesmo que aquele pobre pecador ardesse no tormento eterno. Um calafrio percorreu-lhe o corpo, em consternação por aquele jovem e todos os que sofriam desnecessariamente tamanho horror por toda a eternidade, quando a salvação era tão fácil de se alcançar.

Ele empurrou esse problema para o lado. A vontade de Deus é a vontade de Deus.

— O casamento será celebrado, meu filho, não se preocupe, eu prometo... mas não na próxima semana, nem na seguinte, pois há muitas barreiras.

Malcolm tinha a sensação de que seu coração estava prestes a explodir.

— Deus Todo-Poderoso, se não pode ser na próxima semana, ou na seguinte, então não adianta. Tem de ser agora... ou nada.

— Mas por quê? E por que um casamento particular, meu filho?

— Tem de ser agora ou nada — repetiu Malcolm, o rosto contraído. — Vai descobrir que sou um bom amigo... preciso de sua ajuda... Pelo amor de Deus, é uma coisa tão simples nos casar!

— É, sim, por Deus, mas não por nós, meu filho. — O padre suspirou, levantou-se. — Pedirei a orientação de Deus. Duvido que... mas talvez. Talvez. Precisarei ter muita certeza.

As palavras pairaram no ar.

— Detesto pôr fezes no seu buquê de rosas, tai-pan — declarou Heavenly Skye, unindo as pontas dos dedos, arriado por trás de sua escrivaninha, na sala pequena e miserável. — Mas já que pede meu conselho profissional, eu diria que seu padre Leo não merece a menor confiança, a menos que se converta. Não há a menor possibilidade de que isso possa ser feito a tempo, e eu não aconselharia, de jeito nenhum. Ele vai se esquivar como um fogo-fátuo, suas datas vitais vão passar, e se sentirá cada vez mais angustiado.

— Mas o que posso fazer, Heavenly?

Skye hesitou, assoou o nariz bulboso, limpou o pince-nez, um recurso predileto para ganhar tempo e se controlar, ou para encobrir um lapso, ou até mesmo, como naquele caso, para conter um sorriso radiante.

Era a primeira vez que alguém importante o consultava desde que abrira seu próprio escritório, H. Skye, Esq., antes Moodle, Putfield & Leech, Procuradores e Advogados, Londres, inicialmente em Calcutá, dez anos antes, depois em Hong Kong, e agora aqui. Depois de tanto tempo, tinha um cliente perfeito, em potenciaclass="underline" rico, dominado pela ansiedade, com um problema simples, que podia se tornar cada vez mais complicado, várias possibilidades a longo prazo, do princípio ao fim. E grandes honorários por uma solução, e eram várias, algumas boas, algumas Violentas.

— Não posso imaginar uma situação mais difícil — disse ele, solene desempenhando seu papel, gostando e admirando o jovem, não apenas como cliente, e depois ofereceu uma chave: — O nó górdio, hem?

Malcolm sentia-se angustiado. Era evidente que Heavenly tinha razão, o padre Leo não merecia confiança. Mesmo que eu me convertesse... não posso, seria demais... Ele levantou os olhos, abruptamente.

— Nó? Nó górdio? Isso foi resolvido! Ulisses cortou-o em dois. Não, foi Hércules.

— Desculpe, mas foi Alexandre, o Grande, em 333 a.C.

— Não importa quem o tenha feito, meu problema é... Heavenly, ajude-me a cortar meu nó, e terá minha eterna gratidão e quinhentos guinéus...

O sinal de aviso do mestre do porto ressoou pela colônia. Eles olharam pelas janelas sujas. O escritório de Skye ficava no prédio e armazém de Lunkchurch, cheio de livros, de frente para o mar. Para a alegria de ambos, a esquadra contornava o promontório, a nave capitânia à frente, bandeiras hasteadas. Sentiram o maior orgulho, e alívio ao mesmo tempo. Salvas de canhões trovejaram da praia e dos navios, o H.M.S. Pearl o mais exuberante, a esquadra respondendo. Os dois homens soltaram gritos de alegria e Skye comentou:

— Podemos agora lidar com os japas e dormir em paz em nossas camas. — Indiretamente, ele voltou ao assunto em questão, invejando-o por Angelique, e determinado a ajudar. — Não é difícil resolver o problema dos japas, Willie precisa apenas ser objetivo e decidido. O velho punho de ferro em luva de ferro, ou veludo, aplica-se na maioria dos casos, se não mesmo em todos. Como acontece com o seu.